Womens BasketballSemana 5 – Lembro-me de quando era miúdo ter ido ao Museu da Etnologia, em Lisboa, e de ter visto uma peça que não era mais que uma cabeça de um índio, de pequenas dimensões, resultante de uma tradição guerreira que se baseava na crença de que um guerreiro assumia para si as características daquele que derrotava, sendo a cabeça do inimigo o símbolo dessa transposição de qualidades. Essa é uma metáfora demasiado violenta para uma lição que podemos aprender: aquilo que superamos, passa a fazer parte de nós.

Para as jovens atletas que trabalham comigo, a lista das dificuldades é longa. A escola e os amigos e conhecidos estarão no topo das suas preocupações, tendo em conta a pressão social exercida por ambos. As expetativas dos pais, aliadas às suas próprias expetativas, também contam. O carrosel emocional que é ser uma menina de 11, 12 ou 13 anos também não será propriamente uma ajuda. E só depois chegamos, finalmente, ao basquetebol. Para algumas delas, existe a imensa dificuldade de estarem a enfrentar a responsabilidade de ser “as mais velhas” da equipa. Para outras, a enorme dificuldade de ainda não saber o que fazer e, habituadas que estão à exposição à perfeição, sentir isso como uma falha pessoal. Para todas, as dificuldades de os treinos serem quase sempre em espaços partilhados, com o peso que isso acaba por ter na tentativa de estar concentradas nas tarefas.

O trabalho do treinador é estar sempre disponível para ajudar. Em todas as situações. Sendo certo que a nossa certificação é para exercer esse trabalho numa modalidade em concreto, para a generalidade das jovens atletas, o que está em causa não é a modalidade, é a vida. Assim, sempre aliado com o crescimento técnico e tático, está um enorme contributo para o desenvolvimento pessoal, ajudando a compreender os sentimentos e as emoções, explicando como a pressão social é algo que podemos controlar com a nossa própria atitude perante as coisas, exigindo que, mesmo no ambiente mais complicado, o foco e a concentração seja algo que conseguimos manter durante períodos mais largos.

A passo e passo, vamos superando essas dificuldades. Mesmo que, durante uma semana inteira, os treinos deixem-nos sempre um leve amargo de boca, porque deveríamo-nos ter esforçado mais, deveríamos ter ajudado mais, deveríamos ter deixado mais um pouco de nós para conseguir desbloquear as coisas que a equipa ainda não consegue fazer. Vamos superando dificuldades, mesmo que no jogo acabemos derrotados, porque em alguns pormenores, poderíamos ter feito mais, porque em alguns momentos, deveríamos ter dado mais, porque de uma forma geral, não antecipamos comportamentos e sensações e tivemos que trabalhar na reacção.

Mas a verdade é que vamos superando as dificuldades e ficando diferentes. Para melhor, com certeza.

Terça-feira há treino.

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