Semana 24 – Num artigo publicado na semana passada, Christopher J. Cushion, professor de Coaching e Pedagogia na Loughborough University, discute a validade da reflexão enquanto prática efectiva do treinador, questionando se a sua imposição aos técnicos não se transforma numa ação de poder sobre estes para uma prática confessional. A utilização de princípios filosóficos de Michel Foucault na sua análise empurra o contexto do treino para uma análise social que lhe implementa muito mais ramificações do que a ideia do treino como espaço de aprendizagem e preparação para uma modalidade desportiva.

treino

O cruzamento com este artigo, nesta mesma semana, não me oferece nenhuma sensação de estranheza. Pelos factos que venho descrevendo ao longo da temporada e das últimas semanas, a verdade é que a procura de soluções, o questionamento das redes de poder e o entendimento do que é consciência na nossa prática têm sido temas que me são muito caros.

Desde o início da minha prática enquanto treinador que tenho uma consciência política e social do meu papel perante o grupo. Temo bem que, quem ignora isto, cede mesmo uma importante parte da sua relevância para os jovens que trabalham consigo. Essa consciência tem-me levado a discutir e a refletir sobre o papel do treinador enquanto influenciador e a forma como essas conquistas se tornam valiosas para os atletas, individualmente, e para a equipa no seu todo.

Estando vastamente reconhecido na literatura sobre o treino a questão do poder dentro dos grupos de trabalho, não deixa de ser interessante que a ideia do treinador enquanto um líder ditatorial continue a conquistar tanto tanta gente. Estamos numa fase evolutiva em que as questões do poder vão bem para lá desse binómio ordem/aceitação, com as gerações atuais a procurarem respostas que vão muito para lá do quadro preto/branco, como uma outra leitura desta semana nos ajuda a entender.

O que, como o próprio Christopher J. Cushion nota, está longe de ser reconhecimento na literatura sobre o treino é a quantidade de ações humanas que se realizam para lá da linha da consciência.

Only a small part of human experience is retained in consciousness—experiences become sedimented —coaching practices originally learned as part of a conscious process, become remembered as a habitual response forgotten in any conscious sense. Therefore, coaches have learned and acquired a set of practical cultural competencies; dispositions that operate ‘below the level of consciousness and language, beyond the reach of introspective scrutiny and control by the will’. Coaching practice, therefore, is not wholly consciously organized or orchestrated, there is ‘mastery acquired by experience of the game, and one which works outside conscious control’. As a result, it would be a mistake to see coaching practice as entirely conscious.

O que não podemos tirar daqui é que o facto de boa parte das nossas ações serem inconscientes nos ilibam de pensar, planear, analisar, rever, planear uma segunda vez tudo aquilo que fazemos. No entanto, parece ser essa a opção – a mais fácil – de muitos daqueles que estão envolvidos em práticas de treino. Aceitam as aquisições da sua experiência e repetem-nas sem grande controlo dos resultados.

No início da temporada, comentei junto da minha equipa técnica, que uma boa parte do nosso trabalho, nos primeiros meses, ia parecer algo caótico em treino. A confirmação dessa mesma ideia e o viver e analisar desse processo, levaram-me a confessá-lo à própria equipa, há poucas semanas. Fi-lo no momento em que senti que a própria equipa já o entendera, mesmo que superficialmente, mesmo que sem capacidade analítica. Porque aquilo que foi adquirido nesse aparente caos, é exatamente o que começámos a colher enquanto crescimento, maturação e entendimento do papel de cada um.

O treinador não é um ditador. Tal como um líder não tem que o ser. Antes é um elemento aglutinador das realidades e das potencialidades daqueles que trabalham em nosso redor. A construção de uma equipa depende, então, e fundamentalmente, desse processo de encontro entre o contexto, as suas possibilidades e um plano de crescimento que se desenrola à velocidade que cada uma das partes impõe. Olhar para o campo e ver que o resultado é uma ação coletiva que atinge os resultados desejados, enche-me de confiança para continuar a enfrentar os problemas e os desafios de ser treinador.

E sim, eu duvidei.

Amanhã há treino!

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