Para muitos será uma surpresa assistir à forma como joga a Guiné-Bissau nesta edição da Taça das Nações Africanas. Mas, para os adeptos portugueses, os Djurtus são uma equipa, mais do que reconhecível, familiar.

Não estamos a falar de um caso de naturalizações em série, como acontece noutros países. Acima de tudo, trata-se de aproveitar um filão de jogadores guineenses que foram viajando para Portugal para completar a sua formação, muitos deles jogando até pelas seleções jovens portuguesas, mas sem espaço para representar a principal seleção portuguesa.

Há um nome que em Portugal todos conhecem, Cátio Baldé, que foi nomeado Diretor Executivo da Seleção guineense para esta prova. O empresário trabalha entre Bissau e Lisboa desde os anos 80, sendo hoje em dia natural encontrarmos jogadores guineenses nos diversos escalões de formação de FC Porto, SL Benfica e Sporting CP, bem como por várias outras equipas nos campeonatos nacionais portugueses de U17 e U19.

Para muitos jogadores guineenses, Cátio Baldé é uma espécie de pai, pela forma como os permitiu entrar no caminho do futebol profissional. Mas não é uma figura isenta de polémica, tendo tido acusações de abandonar alguns dos jovens guineenses que tiveram menos sucesso em Portugal, estando envolvido numa novela confusa que levou à saída de Bruma do Sporting e, até, acusado no seu país por, no passado, ter tentado evitar que os seus jogadores representassem a seleção da Guiné-Bissau.

A história começou a mudar quando, em 2010, Luís Norton de Matos foi contratado para selecionador nacional. Optando por chamar para a equipa uma série de jovens jogadores que tendo nascido na Guiné ou com raízes no país, evoluíam em Portugal. Almami Moreira, Ednilson, Cícero ou Abel Camará foram alguns dos nomes que, tendo já representado Portugal nos escalões de formação, aceitaram vestir a camisola dos Djurtus.

O próprio Norton de Matos contou que, tendo convidado Éder para jogar pela Guiné-Bissau, este viajou para lhe dizer, pessoalmente, que preferia esperar por uma chamada da seleção portuguesa. A verdade é que o avançado do Lille marcou o golo da vitória de Portugal no Euro 2016 representa, hoje em dia, um verdadeiro exemplo para muitos dos guineenses que acreditam poder vir a ter o mesmo sucesso numa Taça das Nações Africanas. Tendo nascido em Bissau, Éder foi para Portugal ainda criança, não sendo um dos “filhos” de Cátio Baldé.

Paulo Torres, o treinador português que sucedeu a Norton de Matos, manteve a mesma política de chamada de jogadores com passagem pelas seleções portuguesas e, ainda que Baciro Candé, um experiente técnico guineense, seja o responsável pela presença dos Djurtus na Taça das Nações Africanas, a verdade é que a influência portuguesa na equipa técnica é ainda grande, com João Gião como Treinador-Adjunto, Filipe Moreira como técnico de guarda-redes e Nélson Pires como fisioterapeuta.

Olhando para dentro de campo, dos vinte e três jogadores convocados, apenas três nunca jogaram em Portugal, sendo que nenhum deles foi titular na jornada inaugural. Dos vinte que atuaram em equipas portuguesas, oito representaram Portugal em diferentes níveis competitivos, com Abel Camará e Aldair Baldé a terem representado a equipa de Sub-21 e Saná a ter sido vice-campeão mundial de Sub-20.

A lista de jogadores guineenses com passagem pelas seleções portuguesas é grande. Cícero, do Paços de Ferreira, e Ivanildo, da Académica, já jogaram pelos Djurtus, mas outros nomes, como Bruma, do Galatasaray, Edgar Ié e Carlos Mané, que atua no Stuttgart da Alemanha (que estiveram nos Jogos Olímpicos do Rio), ou Romário Baldé, que atua na Primeira Liga Portuguesa, poderão, no futuro, tornar os Djurtus ainda mais fortes. A surpresa, na verdade, tem muito pouco de surpreendente.

Artigo publicado originalmente em inglês, no site Sandals for Goalposts.

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