Fechamos a série de artigos dedicada às entrevistas de Frédèric Rasera, autor do livro “Des footballeurs au travail. Au cœur d’un club professionnel”, da Editora Agone, com um olhar sobre os temas do Corpo e da Mente. Lembramos que, em artigos anteriores, foram exploradas as temáticas do “Profissionalismo, Paixão e Individualismo”, bem como da “Hieraquia e Conhecimento”.

A multidimensionalidade do ser futebolista

Ser futebolista não é apenas jogar à bola, existe um conjunto de dimensões que são tidas em conta. Esta pluralidade pode levar à existência de tensões entre as suas qualidades desportivas e as suas qualidades sociais.

Num futebolista estão em constante convívio as diferentes dimensões que constituem o indivíduo. Habituamos a encará-lo como se apenas as qualidades desportivas fossem válidas, mas, no fundo, existem outras que serão tanto ou mais importantes do que estas. No seu livro, Frédèric Rasera lança a pergunta do que fazer perante um caso onde o melhor jogador da equipa está, constantemente, a quebrar as regras do grupo e a adoptar uma atitude de confronto com os seus companheiros. Num momento competitivo, podemos fazer as nossas escolhas apenas focados na sua dimensão desportiva? De uma forma geral, a organização social da equipa acaba por ter um enorme peso no atingir dos objetivos desportivos.

O sistema de seleção cria uma decepção constante. Quando um jogador é colocado de parte, isso leva a uma sensação de sofrimento. O sofrimento psicológico está banalizado e encarado como se fizesse parte do trabalho (…) Os jogadores têm a necessidade de demonstrar solidez mental, o que contribui para o sistema. A medicina do trabalho poderia tomar uma posição sobre estas questões, mas está habitualmente ausente deste universo profissional.

No entanto, o futebol profissional e o desenho de carreira para lá chegar, está fundado num sistema de seleção que, como afirma Rasera, cria a decepção constante. Se um jogador que consegue atingir o profissionalismo pode ser encarado como um vencedor, a verdade é que mesmo aqueles que atingem o topo estão, semana após semana, expostos a esta pressão da seleção. Ao referir-se ao conceito de “solidez mental”, o autor toca um ponto que está presente no quotidiano das equipas. Não precisamos de ir muito longe para ouvir frases como “temos que ser fortes”, “jogar de cabeça levantada”, “acreditar nas nossas capacidades” na boca de futebolistas e treinadores.

A marca que isso deixa, ao longo do tempo, num futebolista, é um dado ainda pouco estudado e, muitas vezes, ignorado, por quem tem responsabilidades no seu acompanhamento.

A relação com o corpo

A estrutura médica está organizada para a produção de rendimento. Tem a particularidade de estar à disposição do treinador. A questão central deixa de ser a saúde dos jogadores, para ser a possibilidade de serem úteis para a competição (…) Os jogadores têm uma relação ambivalente com o seu corpo. Por um lado, existe, como entre os operários, a valorização de um corpo resistente, e, por outro, uma enorme demanda de cuidados e de conhecimentos médicos.

O corpo é a ferramenta de trabalho dos futebolistas, no entanto, todo o futebol profissional está orientado para a exploração desta ferramenta até que se torne inútil para o objectivo. A organização que visa, sobretudo, o rendimento, apresenta-se aos futebolistas em tenra idade, afectando, em vários casos, o processo de formação e servindo, ao mesmo tempo, de mais um dado de seleção. Um jogador que não apresente determinadas capacidades físicas para jogar o jogo é, muitas vezes, dispensado ao longo do processo de seleção.

Ao mesmo tempo, enquanto se alimenta esta ideia de um corpo capaz de resistir a tudo para cumprir com o objectivo competitivo, compreende-se nos nossos dias que essa capacidade só pode ser atingida através de um constante cuidado e assistência médica. Vivemos num quadro em que o futebolista, que não tem um controlo sobre a sua situação de trabalho, como vimos em artigos anteriores, acaba por entregar também o seu corpo aos cuidados de alguém que, hierarquicamente, também não lhe responde. Esta situação de afastamento total da cadeia de comando torna-se mais evidente quando surge uma lesão.

Para os jogadores, estar lesionado é, antes de tudo, uma condição problemática, porque leva a que perda a sua posição, com todas as consequências que daí advêm. Num balneário, uma lesão longa pode provocar reações muito significativas (…) Temos que entender se o jogador está numa posição de não poder jogar. Chega a acontecer que se esconda uma lesão do treinador, com a cumplicidade do staff médico, para que se mantenha o lugar no grupo.

Um futebolista lesionado é o elemento mais frágil da cadeia hierárquica, podendo mesmo chegar ao ponto de, devido a essa situação, se ver afastado do grupo de trabalho. Na lesão, a condição social do jogador é colocada em causa, porque consoante o estatuto que este detém dentro do clube, poderão não estar, sequer, em condições de não jogar. Logo, dá-se o caso de um jogador tentar impedir que o corpo técnico tenha conhecimento das lesões que o afectam, com consequências que podem vir a ser muito graves para a sua condição física, a sua saúde e, consequentemente, para a sua carreira.

Em suma, um futebolista está em constante situação de pressão no seu ambiente de trabalho, não podendo dar sinais de qualquer tipo de fragilidade psicológica ou física, sob o risco de isso colocar em causa as suas qualidades para o exercício da profissão. Neste ambiente, a compreensão profunda de cada jogador como um somatório das suas dimensões físicas, culturais, sociais e pessoais, poderá permitir um trabalho mais certeiro e com melhores resultados para o colectivo. Qualquer tipo de exploração feita tendo por base o futebolista, numa destas dimensões, apesar de poder servir a execução de um objectivo intermédio, causa problemas que se voltarão a manifestar no percurso da equipa.

P.S. – Ao longo da publicação deste artigo recebemos feedbacks que confirmam a importância do tema do trabalho na gestão das carreiras de futebolistas e equipas, apresentando-nos exemplos de como o reconhecimento destas temáticas pode vir a ser um caminho para o melhorar o rendimento de todos. Agradecemos a quem nos contactou e mantemos a disponibilidade para continuar neste diálogo.

Nota

As entrevistas utilizadas para a escrita do artigo são:
Frédéric Rasera : «Chez les footballeurs, la souffrance psychologique est banalisée», Libèration, 17/11/2016

Au football, «les joueurs n’ont que très peu de poids sur la définition de leur travail» – Le Temps, 16/12/2016

Frédéric Rasera : « Le temps de jeu est une arme pour les employeurs», Les Cahiers do Foot, 17/02/2017

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