Este não é um tema para quem vive agarrado à modelização do jogo ou às discussões sobre intensidades de apitos. Pelo contrário, é uma forma de contar uma vez mais, a história de uma paixão.

Se em algum momento comecei a ser um cidadão do mundo, tenho que agradecê-lo às provas da UEFA. Foi através delas que se começou a desenhar o meu mapa mental de países e cidades, nomes e identidades, que se tem vindo a alargar consoante a Europa se redefine nas suas fronteiras internas e externas. A tarde de ontem, a acompanhar a Liga Europa, relembrou-me tudo isso.

Porque se haverá algo em que a UEFA mantém, ainda hoje, a sua capacidade de afirmação de povos e de elemento aglutinador de paixão verdadeira, são os jogos das pré-eliminatórias das suas grandes competições. Porque, e desculpem-me os puristas do jogo, poder entender como o público de Soligorsk se agrupa junto ao bar do estádio e na rua, atrás de uma das balizas, a vida corre, entender como na linha do horizonte do estádio do Shkendija, na Macedónia, se desenham montanhas ou como os adeptos do ressuscitado Glasgow Rangers enchem bancadas para ver um adversário do Luxemburgo é tão importante como qualquer boa jogada.

A dimensão sócio-política do jogo sai aqui reforçada. E se quando éramos crianças cada equipa se parecia, sobretudo, com uma representação da sua identidade local, hoje, entender o futebol das pré-eliminatórias, é redescobrir o internacional de Trindade e Tobago com a camisola do Suduva, da Lituânia, encontrar o luso-angolano Valdo Alhinho no Jelgava da Letónia ou perceber como cresce o nigerino Amadou Moutari com a camisola do Ferencvaros (e neste pé esquerdo nasce magia, posso dizer).

Sim, porque o bom futebol nasce nos lugares mais improváveis. E por isso mesmo Nico Kranjcar espalha magia com a camisola do Glasgow Rangers, Arshavin continua a marcar golos pelo Kairat Almaty do Cazaquistão e o ganês Boakye salvou o Estrela Vermelha da vergonha de não vencer por margem suficientemente lata os malteses do Floriana.

Por vezes é muito difícil explicar porque é que nos deixamos encantar pela literatura das viagens, pela política da Europa de Leste, pela sociedade enquanto modo de transformação da nossa realidade, tudo, ao mesmo tempo em que nos deixamos enlear pelos trajectos de uma bola num campo relvado. Outras vezes, uma tarde de pré-eliminatórias da Liga Europa explica tudo isto por nós.

Anúncios