Em praticamente todas as modalidades é assinalável que o jogo praticado pelos homens resulta diferente do jogo praticado pelas mulheres. É assim, por exemplo, no basquetebol, onde perante a menor exuberância física das suas praticantes se foi desenvolvendo um jogo mais táctico e com maior organização defensiva na gestão dos tempos de pressão. Abdicando desse entendimento táctico do jogo, as decisões e os resultados acabam por ficar muito ligados à dimensão física de cada uma das equipas.

Historicamente, creio que o futebol demorou mais tempo a fazer este percurso de encontro do jogo com as forças apresentadas pelas suas praticantes. Ao mesmo tempo, é uma modalidade que apresenta dificuldades específicas para este apropriamento táctico da parte das equipas femininas. Um campo demasiado grande, um jogo demasiado imprevisível, limitações que terão indo atrasando o aparecimento de equipas que, na sua génese, transportassem essa qualidade de jogo própria.

Actualmente, creio que se caminha a passos rápidos para uma realidade bem diferente. Neste Europeu, dois bons exemplos do que poderá ser esse jogo em evolução. No momento ofensivo, a apresentação da Holanda como uma equipa que actua a toda a largura do terreno, que impõe a mobilidade na sua referência do centro do terreno, que alimenta a recuperação da bola. Poderia arriscar dizer que as qualidades de jogo defendidas pelos mestres holandeses encontram no futebol feminino o seu campo preferencial de realização, pela menor dimensão física que lhes é natural.

No momento defensivo, a primeira parte da Rússia, num 4-1-4-1 quase perfeito, pela forma como as coberturas eram feitas, impossibilitando a circulação das italianas, quer de forma vertical, quer na penetração entre linhas. Quando Itália procurava oferecer uma referência entre sectores, o colectivo russo adaptava-se fechando caminhos e espaços de ataque, transformando a Itália numa equipa débil e sem soluções. Ao vermos esta capacidade de organização que, na vertente masculina, há décadas que não se vê nas equipas russas, entende-se que há, no futebol feminino, um potencial de organização a partir de princípios que a inteligência faz primar.

Não vejo, por isso, outro caminho para a afirmação total do futebol feminino como um espaço de qualidade de jogo do que a aposta numa cada vez maior organização das equipas em termos colectivos, dotando-as de uma sistematização que será multiplicada pela capacidade de entendimento do jogo e do espaço que as equipas detém no seu íntimo.

Por isso mesmo, a qualidade do futebol feminino não está na aproximação a uma realidade do futebol masculino, antes pelo contrário, é na afirmação das qualidades femininas do futebol que reside o aumento de qualidade que se vai vendo no Europeu 2017.

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