O Coordenador do Laboratório de Optimização do Rendimento do Sporting Clube de Portugal, Carlos Bruno, foi entrevistado numa das últimas edições do jornal do clube. Repassamos algumas das ideias focadas nesta conversa, onde se sublinha as possibilidades de trabalho a médio e longo prazo na formação, para além de uma consciencialização de que o conhecimento de uma área de trabalho como é a preparação física das equipas de futebol tem no cruzamento da experiência de campo com o conhecimento e a sua revisão constante a melhor súmula.

Contexto real e fundamentalismo

Se não soubermos adaptar o que sabemos ao contexto real, vamos ser técnicos sem competência. […] A universidade dá-nos apenas uma visão parcial do que é o treino e esse é um problema na nossa formação enquanto treinadores. Os nossos vizinhos espanhóis têm uma visão muito mais abrangente do que é o treino.

Um dos problemas mais notados em todas as áreas da formação é, exactamente, como se estabelecem as ligações entre o período de formação e a realização de um trabalho formal na área de especialização. Tendemos a culpar a universidade por esse problema, quando, na verdade, a universidade não pode resolver um problema que está para lá das suas competências. Não é na escola que se aprende a fazer determinada coisa. É a experiência de a fazer que nos leva a sermos consequentes no nosso trabalho. O que a universidade oferece é uma porta de entrada para a reflexão sobre o trabalho que poderemos vir a fazer. Mas abrangência que o treino de futebol exige só é passível de ser adquirida na experiência directa.

O lado físico do jogo

Algumas vezes, se queremos melhorar alguma componente, temos de a isolar. […] Quando chegamos ao fundamentalismo do treino integrado começamos a entrar na área do ridículo em que o jogador, para aquecer, tem de ter a bola no pé. […] Só conseguimos cumprir os pressupostos técnico-tácticos se tivermos uma base física sólida que o permita.

A ideia de que um atleta se pode desenvolver sem dar atenção à sua dimensão física ignora uma boa parte dos estudos e das práticas realizadas em toda a alta competição. Um jogador de futebol tem no seu corpo o instrumento de realização da sua actividade. Ao contrário daquilo que o Carlos Bruno refere na entrevista, não creio que a teoria da periodização táctica ignore o lado físico. No entanto, creio que muitos dos seus seguidores acabam por enquadrar essa teoria como um ataque à dimensão física do atleta, como aqueles que, por ignorância, encaram as humanidades e as ciências como visões opostas do mundo. A possibilidade de trabalhar isoladamente uma componente do jogo do atleta é uma realidade em todas as modalidades, porque haveria o futebol de ser diferente? É, aliás, na contribuição que a actual equipa técnica do Real Madrid vem dando com essa ideia de abrangência do trabalho físico no contexto do alta rendimento do futebol que se tem encontrado uma evolução da condição física de jogadores como Cristiano Ronaldo.

Há muitos mitos relacionados com o ginásio: que perdemos velocidade, que pára o crescimento… Se perdes velocidade por que é que 60% do treino dos maiores velocistas do mundo é no ginásio? Se pára o crescimento por que é que todos os jogadores da NBA desde muito jovens têm o ginásio como parte integrante do seu plano de desenvolvimento?

Formação e Talento

[A] estabilidade permite-me fazer um trabalho de longo prazo. E só assim se conseguem frutos na formação. […] Sem repetição não há aprendizagem e repetir é muito importante.

Depois de ter sido duas vezes campeão nacional como preparador físico, Carlos Bruno dedicou-se à formação. A possibilidade de se fazer um trabalho de maior influência sobre os jogadores e a possibilidade de o fazer sem a ameaça do resultado ao fim-de-semana permite isso mesmo. Ao longo de quatro, cinco anos, o conhecimento do potencial do atleta, a sua preparação para evoluir para outros níveis, a consciencialização daquilo que pode e deve ser feito para melhorar os seus índices permitem ao preparador físico, em conjunto com os treinadores, encontrar o melhor caminho para transformar o talento em rendimento na alta competição. Porque o talento, em si, tem que comportar o trabalho para se efectivar por completo.

[Sobre Maradona] Muitas vezes o talento é tão grande que substitui aquilo que se poderia alcançar com o trabalho. [Mas] a época era outra – cada vez é mais difícil isso voltar a existir.

 

*Citações retiradas da entrevista realizada por João Almeida Rosa para o Jornal Sporting

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