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O futebol foi à Festa do Avante, o maior evento político-cultural do país, imaginar o que poderia ser o futebol num mundo mais justo, equitativo, militante. Onde valores do trabalho, da justiça, da solidariedade imperassem sobre a competitividade baseada nos meios financeiros.

Luís Cristóvão leva-nos nesta viagem, em mais um Curtas do projecto Linha Lateral.

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Este fim-de-semana viemos até à Festa do Avante, o maior evento político-cultural do país,  imaginar o que poderia ser o futebol num mundo mais justo, equitativo, militante. Onde valores do trabalho, da justiça, da solidariedade imperassem sobre a competitividade baseada nos meios financeiros.

Em pleno século XXI, deveríamo-nos perguntar porque não existem no futebol mais Sócrates, Oleguer’s, Tomassi’s ou Lucarelli’s. Jogadores de convicções fortes, capazes de abdicar de um aparente e inevitável chamamento do dinheiro e da fama, para se manterem fiéis ao que acreditam.

É também justo, quando pensamos num futebol assim, lembrar que certas liberdades e garantias nem sempre foram permitidas aos jogadores, no fundo, aqueles que mais nos fazem sonhar durante o jogo de futebol.

É por isso bom lembrar a afirmação de jogadores como Artur Jorge, Eusébio, António Simões, Fernando Peres, Rolando, Pedro Gomes e João Barnabé, que, em 1972, em pleno regime fascista, tiveram a coragem de reivindicar contratos de trabalho e regime de previdência e assistência obrigatória para os praticantes do futebol.

Por vezes, parece demasiado longo o caminho que nos levou até ao futebol que temos hoje, como se não existisse volta atrás, como se fosse inevitável viver num mundo de regras que nos são impostas sem liberdade de escolha.

Inevitável que seja o dinheiro a decidir que clubes e que jogadores actuam na alta roda do futebol, relegando méritos desportivos para segundo plano. Inevitável que o espectáculo televisionado impere sobre a experiência da bancada, da linha lateral, onde os adeptos se deveriam deleitar livremente com o espectáculo do desporto. Inevitável que determinados vencidos e vencedores estejam previamente decididos nos gabinetes que aspiram a tudo controlar.

Pela Festa do Avante, numa banca onde se vendiam velhos livros doados por militantes e amigos do Partido Comunista Português, tive a sorte de encontrar uma edição do livro “O Desporto e as Estruturas Sociais” do Professor José Esteves, livro há muito esgotado e que pensava ser impossível resgatar, pelo valor que lhe dá todo aquele que, a seu tempo, o conseguiu comprar.

Afirma José Esteves, em 1970, que no futebol, apesar da “alienação do atleta como instrumento para o benefício de outros”, a existência dos “valores do clubismo” permitem-lhe ser, em termos sociais, uma experiência mais complexa, porque a “Livre escolha e a livre identificação com uma colectividade emprestam um carácter particularíssimo de afirmação pessoal, de decisão tomada, de convicções livremente expostas e consideradas”.

É que apesar das transferências multimilionárias, das sociedades desportivas, dos clubes-empresas ou da industrialização do fenómeno desportivo, há no futebol uma réstia de resistência que se mantém acesa.

O imperativo do adepto, que participa no jogo como elemento fundamental do acontecimento, na forma como se identifica e apoia a sua equipa.

A esperança do explorado, que através do seu talento quebra as barreiras da sua classe e se impõe como senhor da sua própria vida num estádio de futebol.

A força do colectivo que, no relvado, se impõe numa necessária organização para elevar o seu objectivo a conquista máxima, transformando a vitória em liberação.

A afirmação do indivíduo, que consegue lutar pelos seus desejos e transformar a história do jogo, com um passe, uma defesa ou um golo.

No fundo, a luta faz-se ainda através desta inacreditável resistência às evidencias que nos querem fazer sentir como certas, destinadas.

E não, nada disto é antigo ou anacrónico. São apenas as notícias do futuro que vão chegando, belas e atraentes, a cada vez mais gente como nós.

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