Para quem, como eu, sente que o mundo não é feito de coisas perfeitas, o dia-a-dia preenche-se em busca de soluções para as imperfeições que encontramos em todo o lado. Também por isso, nos processos de evolução de um treinador, me parecem tão interessantes os casos onde a forma de trabalhar de um técnico assume os seus cambiantes ao longo do tempo. Esta temporada, um desses casos é Pepa, treinador do Tondela.

Quando chegou à Liga NOS, orientando o Moreirense, Pepa trazia consigo uma intenção de futebol de posse e risco, que foi até elogiada nas duas primeiras jornadas da época passada, quando empatou frente ao Paços de Ferreira e venceu o Feirense. Era uma equipa onde Cauê, Ângelo Neto, Nildo Petrolina e, sobretudo, Francisco Geraldes, davam espaço para uma ideia de jogo assentada em princípios que se viram fragilizados pelos resultados que se seguiram. Uma derrota inesperada frente ao Marítimo de Paulo César Gusmão deu início a uma série de cinco jogos a perder que colocaram em causa os princípios adotados.

Na altura, depois de um jogo no Estoril onde este Moreirense começava a tentar impor alguma rigidez de posicionamento, com o fim de se proteger defensivamente, escrevi isto sobre o papel de Francisco Geraldes nas ideias do treinador.

Há qualquer coisa que, entre o discurso de Pepa e a prática da sua equipa no Estádio António Coimbra da Mota, parece não combinar. Enquanto o técnico do Moreirense defende que jogar melhor futebol é o caminho para atingir resultados, este sábado, pelo que se viu na Amoreira, há ainda um caminho a fazer para que os melhores jogadores possam estar em espaço de tomar melhores decisões.

O Tondela desta temporada é, no entanto, fruto de uma aprendizagem realizada por Pepa e pela sua equipa técnica, uma equipa que se baseia em ter menos bola do que o adversário (é o conjunto com menor média de posse de bola da Liga NOS), que impõe uma ideia de agressividade (é a equipa com mais faltas por jogo), mas que encontra nos confrontos frente aos adversários do “seu nível” a chave para fazer uma época tranquila.

Curiosa a forma como Pepa explica o sucesso da sua equipa numa entrevista dada na passada semana, ao jornal O Jogo.

Os pontos não apareciam e decidi meter trancas. Não há tempo para romantismos. [No entanto], Parece que só quando estamos encostados à parede é que damos uma resposta cabal, talvez porque os jogadores ainda não se libertaram do sofrimento que tiveram nos últimos anos. Talvez o stress seja um pouco o nosso combustível.[…] Sinto que a equipa evoluiu, está mais madura e matreira. […] Conseguimos manter a espinha dorsal, 75 por cento do onze-base da época passada transitaram para esta e isto dá grande estabilidade.

Pepa é um excelente exemplo de como a gestão de um plantel e de uma identidade de jogo evolui com as condicionantes que lhe são apresentadas. Consciente de que a barreira do talento cria divisões dentro do campeonato onde se insere, procura aprender com os acontecimentos da competição, de forma a criar um quadro onde os seus jogadores se possam afirmar. Pepa sublinha, ainda, que uma das situações que pesa negativamente nas avaliações feitas a conjuntos com o seu é o foco da atenção só se colocar sobre elas quando defrontam os três grandes.

Para este Tondela, o teste à fiabilidade das suas ideias não está nos jogos com os grandes, mas sim na manutenção, na capacidade de se apresentar como uma equipa que não se volta a defrontar com os problemas que sentiu para garantir a manutenção nas últimas temporadas. Pepa pressentiu o seu lugar no quadro da presença na competição. É um bom exemplo de como o realismo, não sendo sempre o mais bonito ou o mais elogiado, é uma qualidade quando se vive sobre o fio da navalha.

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