Por vezes, é nos contextos mais difíceis que se desenvolvem as ideias mais produtivas. No entanto, toda a ideia precisa de tempo e, se há lugar onde o tempo escasseia, é na direção técnica de equipas de futebol brasileiras. Roger Machado, esta época no Palmeiras, deu uma entrevista sobre a sua evolução, o seu modelo de jogo e treino e as perspetivas que tem na equipa paulista.

Roger Machado tem 42 anos e depois de ter deixado de jogar em 2008, numa carreira que o levou a ser internacional brasileiro, teve a sua primeira experiência como técnico principal no Novo Hamburgo, em 2015, passando pelo Grêmio (2015-16), Atlético Mineiro em 2017 e, esta época, no Palmeiras. Por onde tem passado, vai deixando essa imagem de técnico moderno, atualizado, numa geração que vai quebrando barreiras no futebol brasileiro.

O processo do observação do jogo

O jogador tem um modus operandi. Os atacantes têm três, quatro dribles favoritos. Os craques têm um quinto, um sexto. Os ultra-craques têm um que eles inventam na hora. Com esse é difícil tu se programar. […]  Por jogar na defesa, ver o jogo de frente, não ser mais rápido que os atacantes que eu marcava, não ser tão hábil quanto eles, eu tinha que desenvolver algumas qualidades no meu jogo para tentar equilibrar as forças. Uma delas é tu ler o jogo e antecipar o que vai acontecer para levar vantagem sobre o oponente. Então eu já tinha esse gosto tático pelo jogo, até pela minha posição. 

Roger Machado revela, na entrevista ao Lance!, que ainda enquanto jogador já se sentia obrigado a pensar como um treinador. A ideia de que um jogador tem um “modus operandi” que pode ser identificado é um pensamento estratégico interessante, que coloca no executante uma ação de entendimento do contexto que, mesmo se preparado pela equipa técnica, exige sobretudo uma compreensão do atleta.

A ideia tática como base para o jogo do futebolista que não tem a habilidade como principal ferramenta é um entendimento quase unânime, ainda que, no meu entender, mesmo para aqueles que utilizam a habilidade, o talento, para se diferenciarem, é na ideia tática que as suas ações os tornam diferenciados. Não deixa, no entanto, de se entender como um passo fundamental para a construção do treinador do futuro esse entendimento de fora do campo. A etapa seguinte, a do treinador, não tem, no fundo, uma ligação tão profunda quanto se pensa com o que se passa dentro do terreno do jogo.

Os alicerces do treinador

Para Roger Machado, Tite, que foi seu treinador, é um modelo e uma influência que trouxe para a sua carreira.

[Sobre Tite] Por exemplo, a capacidade dele de ser o gestor desse ambiente todo, valorizando todas as pessoas que estão nesse processo, responsabilizando cada um por sua área, fazendo as devidas cobranças, mas dando autonomia para que possam trabalhar. A gestão do trabalho do dia a dia, a organização, a interdisciplinaridade que ele põe dentro do trabalho dele e as visões de jogo, a forma como ele entende o jogo…

É curioso que na entrevista, o atual técnico do Palmeiras revele essa influência do atual selecionador brasileiro em fatores que são, na sua maioria, externos ao futebol. A importância da gestão das pessoas e da responsabilização dentro de um grupo, num plano de autonomia. A importância da consistência de um trabalho diário e da importância de deter um conhecimento em diferentes áreas do desporto (Roger Machado é, também, licenciado em Educação Física). Só no final se refere a forma como o seu mestre vê o jogo. Ainda que, para quem, como nós, vê o jogo da bancada, será aí que essa influência se revela sem dúvida alguma, na forma como as equipas de Tite e de Roger Machado jogam.

A minha decisão é pautada em três alicerces importantes. O primeiro é que preciso, depois de um trabalho finalizado, seja por vontade própria ou por decisão do outro lado, avaliar o que aconteceu, o que foi bom, o que poderia ter sido diferente, estudar um pouco mais para o próximo compromisso ser melhor do que esse que se encerrou. O segundo é que, desde que iniciei como treinador, tenho uma questão familiar muito importante. Eu planejei toda a minha vida, desde quando eu era jogador, para ter filhos já próximo de encerrar a carreira, para que quando eles estivessem em idade escolar eu já estivesse parado na minha cidade, Porto Alegre. Então eu prezo muito esse momento de estar com as minhas filhas. Em terceiro lugar, tem uma questão política também. Assim como eu não acho correto a gente ter o trabalho interrompido brevemente, pelos maus resultados, também não acho justo o treinador se empregar duas, três vezes no mesmo ano. Mas são três pilares, como eu disse: a avaliação do trabalho, a família e a profissão.

A filosofia do treinador revela-se, então, nas ideias que este detém antes daquilo que é a formulação do seu modelo de jogo e treino. Roger Machado tem isso bem claro para sim. Avaliação constante do trabalho feito, fundamental para a sua evolução, e constituição de uma base forte, a nível familiar e profissional, que façam dele uma referência respeitável em todos os campos.

A importância do treino

A variação do treino é ampla, mas os conceitos são poucos. […]O círculo não deve ser tão grande a ponto de as conexões ficarem muito longas e nem tão apertado a ponto de quem está dentro da roda roubar a bola. Esse é o jeito que eu vejo futebol. E como consigo transferir isso para o campo? No treino. E como consigo colocar no treino? Tentando simular isso. 

Uma ideia de jogo, uma ideia de treino. Roger Machado fala muitas vezes do seu círculo, um princípio de solidariedade coletiva que se sente na forma como a sua equipa joga, seja quando tem, seja quando procura resgatar a posse de bola. Curiosa, também, a formulação da sua ideia através de uma redução dos conceitos, o que me parece revelar uma profunda reflexão sobre a necessidade de entendimento da parte dos seus jogadores, confrontada com a variação do treino. Combater a rotina, reforçando o modelo do seu jogo. Daí a importância de tudo o que se faz no treino, de tudo o que se constrói, ao longo da semana, para culminar na exibição competitiva.

De sublinhar, então, o jogo do Palmeiras frente ao São Paulo, em jogo recentemente disputado no Campeonato Paulista.

Ali se cristalizou tudo o que a gente trabalha. Por vezes tu faz uma semana maravilhosa de trabalho e pensa: “se a gente conseguir reproduzir o que treinou vai ser bom”. E às vezes aquilo não se reproduz nesse jogo imediatamente, se reproduz em outro jogo. Isso é a mágica do futebol. O jogo contra o São Paulo, principalmente o primeiro tempo, foi tudo o que a gente trabalha, tudo o que a gente estimula no dia a dia: a pressão pós-perda, a posse de bola, as inversões de lado, a velocidade na troca de passes, a compactação tanto no sentido de ataque quanto na defesa, fazer a manutenção do zero no placar… 

Roger Machado é dono de uma ideia de jogo que vai brilhando no panorama do futebol brasileiro. Um contexto onde o resultado ainda reina acima de tudo o mais, com as carreiras dos treinadores nas equipas a serem interrompidas com muito pouco tempo de trabalho, devido a enorme pressão das administrações e dos adeptos, mas onde treinadores como o do Palmeiras começam a marcar a diferença pela sua filosofia, pela sua visão do jogo, pela sua maneira de falar sobre o seu trabalho. Talvez a mudança possa mesmo ter começado por aqui.

 

Para ler a entrevista completa de Fellipe Lucena, de onde foram retiradas as citações, visite a página do Lance!

Leia ainda a análise tática ao Grêmio de Roger Machado (2015) por Leonardo Miranda.

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