Em artigo publicado no seu blog, Painel Tático, Leonardo Miranda utiliza os encontros entre Brasil e Alemanha para fazer um percurso pela evolução do futebol moderno. No entanto, nesta história, há muito mais do que aquilo que se viveu nos jogos entre as duas potências mundiais.  

Os confrontos protagonizados nos últimos 20 anos são um convite à refletir sobre como o futebol mudou e como a forma com a qual ele é pensado e preparado sofreu profundas mudanças ao longo dessas décadas.

O jogo entre o Brasil e a Alemanha não é o centro do mundo do futebol, mesmo que falemos de dois dos países com mais títulos mundiais. Se é verdade que brasileiros e alemães, por talento, trabalho e população, estarão sempre mais perto de poder dominar as tendências do futebol, a história tem-se desenrolado bem para lá deles.

Façamos uma viagem no tempo até 2002, ano do último titulo mundial do Brasil. É óbvio que do ponto-de-vista brasileiro, todos olham esse jogo (a final frente à Alemanha) como muito importante para a sua história. Mas, para os alemães, que tinha tido em 2000 o seu “ano horrível” no Europeu, trata-se de um jogo meio apagado da história. Sem relevância no que veio a acontecer depois.

Os técnicos preenchiam a defesa para dar liberdade a jogadores mais criativos, que pudessem bagunçar e vencer individualmente os defensores rivais. A linha de pensamento seguia uma ordem: primeiro o talento. Depois, o coletivo para sustentar e proteger esse talento.

Em 2002, o grande projeto de transformação do futebol alemão, através da sua formação, já tinha iniciado. Modificou-se a ideia do jogador dominado pelo elemento físico, para se passar a ter a ideia do jogador como centro de um fluxo coletivo. O jogador começou a não ter posição, para ter funções.

Tudo isto aconteceu depois de Johan Cruyff, enquanto treinador do Barcelona, ter proposto uma mudança radical do entendimento do jogo. Entre 1998 e 2000, passara a ser a França a ditar a lei dentro do campo, com sucessos no Mundial e no Europeu, enquanto o Arsenal de Arsène Wenger atingia também o seu ponto mais alto de domínio em Inglaterra. O futebol transformara-se num jogo líquido, onde as dinâmicas do coletivo se iam impondo aos grandes craques que decidiam as partidas. Não por acaso, entre 1997 e 2007, tivemos dez vencedores diferentes do prémio de melhor jogador de futebol do mundo, com Ronaldo a ser o único a repetir o feito (97 e 2002).

Num futebol com cada vez menos espaços, não fazia sentido mais pensar o planejamento de times a partir do individual. Era preciso repensar o jogo sob a perspectiva da ocupação de espaços, na inteligência ao se movimentar em campo para criar desequilíbrio no adversário. Essa mentalidade troca o talento individual pelo espaço em campo.

A forma como o modelo de jogo se impôs a partir do final da década de 90, com o processo a alargar-se a todas as componentes do treino no início do Séc. XXI, é o elemento mais fundamental desta caminhada. Permitiu que uma teoria e prática se encontrassem, definindo o jogo não pelos elementos que poderiam ser a melhor opção para cada posição, mas o coletivo como elemento central que determina a necessidade das dinâmicas de cada indivíduo. O trabalho de Vítor Frade, em Portugal, e de Paco Seirulo, em Espanha, foram fundamentais na liderança deste processo.

Dentro de campo, o Barcelona de Pep Guardiola, em Espanha, passou a liderar esse processo, por ter sido o conjunto que maior liberdade criativa, dentro de uma pauta definida ao pormenor, oferecia aos seus jogadores. Jogadores e não atletas. A inteligência acima de tudo. A Espanha subiu ao trono do mundo a partir daqui. Toda a ideia de jogo dos espanhóis é já filha desse abandono dos sistemas desenhados. Manda a dinâmica.

Regressemos ao Brasil – Alemanha. 2014 é o momento em que a Alemanha atinge o seu esplendor, tendo formado uma geração de jogadores a partir de princípios que lhe eram tão estranhos 15 anos atrás. De certa maneira, renegou seu ADN para se recriar. E, nas seleções, domina desde então o panorama competitivo. Creio que isso explica o facto de, para os alemães, o 7×1 não ser algo assim tão importante. É apenas um evento de um processo bem maior. É o não olhar para esse jogo como o culminar de algo que permite a Alemanha continuar a evoluir.

A chave para entender a evolução do futebol é essa: o individual inserido dentro do coletivo, e não mais o coletivo “montado” para encaixar os talentos individuais. Com isso, o poder do treino e da repetição foi redimensionado, o que explica o porquê de seleções europeias terem técnicos e auxiliares que se revezam em seus cargos, ou o motivo da Alemanha ter mudado tanto nos últimos 4 anos.

Para o Brasil, pelo contrário, o 7×1 é o momento “fundo do poço”(que depois ainda se permitiu a descer um pouco mais com Dunga). Desde o título mundial de 2002, já sem liderar o processo teórico do futebol, que os brasileiros se distanciaram deste processo evolutivo. Tite é a ponte para reintroduzir o Brasil na discussão (porque a nível de talento nunca esteve em causa a capacidade do jogador brasileiro se adaptar a todo o tipo de exigências). Assim, para o Brasil, ultrapassar 2014 é fundamental, e é por isso que o jogo de terça-feira foi tão importante. Não para demonstrar que é melhor, ou não, do que a equipa apresentada por Joachim Low. Mas para definir que, no processo de entendimento teórico do jogo, a seleção canarinha está, hoje, ao nível daqueles que lideram as tendências do futebol mundial.

 

*Todas as citações são do artigo “Muito além do 7×1: Brasil x Alemanha narra a evolução do futebol moderno” de Leonardo Miranda. Para além do blog, podem segui-lo no Twitter: @leoffmiranda.

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