Hélder Cristóvão, treinador da equipa B do Benfica desde 2013/14, aproveitou uma entrevista ao jornal A Bola para anunciar a sua saída da estrutura do clube, procurando novas oportunidades. Nessa entrevista, faz um interessante balanço do seu percurso na equipa B dos encarnados, ao longo de cinco anos, em que teve oportunidade de trabalhar como jovens como Renato Sanches, Victor Lindelof, Gonçalo Guedes, Bernardo Silva ou André Gomes, entre muitos outros.

A política de formação do SL Benfica tem sido, nos últimos anos, a de preparar os seus jogadores para a entrada no contexto profissional numa idade precoce, identificando os talentos e lançado-os, ora para a equipa principal, ora para o mercado, numa lógica que tem permitido o financiamento do clube através da venda de jovens jogadores. Esse quadro colocou a equipa B como um dos vértices principais da política do clube, quer na formação, como na gestão financeira.

Ao longo de cinco anos, Hélder Cristóvão, como treinador-principal da equipa B, esteve envolvido nesse processo, aprestando-se a sair no final desta temporada. O balanço que faz desta experiência é bastante positivo, com os devidos altos e baixos, mas é na sua reflexão sobre a forma de estar e gerir este processo que nos indica ideias mais interessantes.

Formar tem sistema?

Este ano, por exemplo, tenho mexido muito no sistema, procurando dar ferramentas aos jogadores, porque um projeto de equipa B nem sempre é tão linear. Temos de ir dando ferramentas aos jogadores para que consigam num futuro próximo jogar em vários sistemas.

Esta é uma das grandes discussões sobre a formação de atletas. Um clube com uma vertente profissional forte, deve formar jogadores ou equipas, deve formar para uma ideia de jogo, para um sistema, ou para o alargar das capacidades dos seus atletas no enfrentar de diversos cenários? Sublinho, particularmente, a ideia de que um projeto de equipa B não “é tão linear”.

Os clubes passam por processos de evolução que acabam muito marcados pelo seu próprio contexto. No caso do Benfica, olhando a partir da equipa principal, a equipa adotou um modelo durante seis anos, viveu dois anos a questionar esse modelo após a mudança de treinador e acaba por elaborar uma modificação tática, que mexe com o comportamento de diversas peças em campo, a meio da presente temporada.

Um projeto de equipa B, como todo o projeto formativo, deve estar preparado para este tipo de mudanças. Daí que a ideia de linearidade seja afastada do processo. A aposta na preparação de ferramentas para a abordagem de diferentes sistemas e contextos permite uma maior riqueza aos jogadores, capazes de se adaptarem às realidades que venham a enfrentar. Em suma, a dificuldade que temos em prever o futuro deve-nos abrir a mente para o prepararmos com diferentes cenários possíveis.

A facilidade do talento

O processo é fácil. Identificar o talento, falar com a estrutura e decidirmos em conjunto se é, ou não, o momento para lançar o jogador. Há um consenso, decidimos que era o momento de lançá-lo na equipa B.

O que significa ter um jogador preparado para ser lançado num jogo, de que forma quantificamos essa realidade? Até aos nossos dias, esse parece ser um processo que depende muito mais de análises qualitativas, da observação realizada pelos treinadores que acompanham a formação do atleta, do que uma fórmula. A questão da fórmula, aliás, é dificilmente aplicável em modalidades onde, para as mesmas posições, podemos ter jogadores com tipos físicos e mentais radicalmente diferentes. Uma vez mais é o contexto a mandar.

No caso em questão, João Félix foi lançado aos 16 anos num jogo de Liga2. Hélder Cristóvão sublinha como foi fácil chegar a um consenso sobre o jogador, mas é o processo que mais interessa nesta reflexão. Uma estrutura de equipas de formação desta grandeza trabalha com uma série de talentos já identificados. O seu desenvolvimento depende, muitas vezes, de aspetos que tocam o seu crescimento mental, a sua maturidade, e sobretudo a capacidade de responder a desafios de maior dificuldade. Quase que arriscaria que um jogador de qualidade está sempre preparado para ser lançado num desafio. Vale, muito mais, a forma como se analisa, posteriormente, e se trabalha a presença do atleta nesse jogo do que propriamente o momento prévio à sua entrada em campo.

Quem pode não estar preparado para tal é a equipa. A equipa pode não ter as bases para entender o aparecimento de um jovem jogador, nem para absorver os seus erros num determinado encontro. Mas também por isso o enquadramento de uma equipa B é favorável. Sem a pressão dos títulos (e, por conseguinte, sem pressão de resultados em boa parte da temporada), é mais fácil que a equipa perceba as dificuldades e as vantagens de lançar novos talentos.

Formação de treinador à prova

Como treinadores, queremos ter um grupo fechado e espaço para trabalhar com todos os jogadores.[…] Mas é um prazer ver os jogadores saírem para outros patamares e realidades. E temos de ter essa consciência, ser treinador da equipa B é lidar com constante entrada e saída de jogadores.

Não há formação de treinador que prepare um técnico para um contexto de equipa B. Aliás, a formação de treinadores, atualmente, coloca os formandos perante tantos casos de sim ou não, que acaba por não preparar ninguém para a realidade que é enfrentar o desafio de liderar uma equipa num momento competitivo. Mas é por uma equipa B estar tão exposta a tantas situações que são muito contrárias ao que é ensinado numa formação de treinadores que se torna ainda mais interessante esta reflexão.

Um treinador formador não deve estar condicionado pelo encerramento do seu grupo. Sim, é mais fácil obter resultados quando isso acontece, e pode até ser verdade que é mais fácil passar a mensagem para cada jogador, individualmente, quando o quadro do treino é estável e encerrado num determinado grupo. Mas não estou seguro que isso seja fundamental para se formar melhores jogadores.

No caso em questão, a equipa B acaba por ser uma confluência de “equipas” em várias competições, com atletas que disputam o Nacional de Juniores, a UEFA Youth League e que, em alguns casos, são chamados para treinos e jogos da equipa principal. Por isso mesmo, a ideia de lidar com “constante entrada e saída de jogadores” deve fazer parte do processo de trabalho. No fundo, o treinador formador, elabora planos individuais para o desenvolvimento de ferramentas nos seus atletas, testando-as em momentos de competição no coletivo. Mas não é o coletivo que está à prova. Não é o resultado que decide. Hélder Cristóvão, ao partir para outro objetivo em termos de carreira, nunca mais encontrará um contexto assim.

 

Citações de Hélder Cristóvão retiradas da edição de 5 de abril de 2018 do Jornal A Bola. 

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