Massimiliano Allegri, 50 anos, treinador da Juventus. Campeão italiano por quatro vezes, a primeira delas ao serviço do AC Milan, a caminho de um quinto título nesta temporada. Provavelmente o último, visto que pretende sair de Itália e procurar uma experiência no estrangeiro (o Chelsea, ao que dizem, espera-o). Ao sair da Juventus, poderá acabar por fazê-lo sem alcançar o grande objetivo que havia determinado, vencer a Liga dos Campeões.

Nas últimas três temporadas, a Juventus de Massimiliano Allegri atingiu, por duas vezes, a final da Liga dos Campeões. Em ambos os casos foi derrotado, em 2015 pelo Barcelona, em 2017 pelo Real Madrid. Esta última será a que tem mais presente, até porque volta a defrontar o Real Madrid nos quartos-de-final da Liga dos Campeões desta temporada.

Vi a final de Cardiff várias vezes. Não foi um problema vê-la de novo. Ajudou-me a ficar mais maduro e seguro da minha convicção de que, para melhorar, não precisamos de ter pressa. Ajudou-me a ficar tranquilo.

Ao longo da entrevista publicada pelo Telegraph, perceber-se-á que as horas dedicadas a rever um jogo não serão a sua opção mais habitual. Mas talvez, desta feita, isso fosse necessário, por outras razões. Um treinador apegado às tradições, à família, reconhecendo um certo ADN da Juventus, quis entender porque falhou quando voltou a estar tão perto do seu maior objetivos.

Perante o reencontro com o Real Madrid, voltou a sentir a adrenalina, o estímulo de jogar contra os melhores. De certa maneira, voltava a ter a oportunidade de ser melhor. A derrota por 0-3, em casa, no encontro da primeira mão, poderá tê-lo privado desse sabor. Mas na antecâmara do jogo em Madrid, as palavras que lhe saem da boca são claras. “Precisamos de marcar quatro golos”.

Treinador por intuição

Eu nunca poderei ser um treinador cujo principal foco é na tática ou na análise, porque eu sou mais instintivo. O treinador, na minha opinião, baseia as suas decisões nas sensações, nas percepções. De outra maneira, seria como estar sentado em frente a um computador e o futebol seria como a Playstation. Isso não é o que eu sou. No futebol há muita gente que tenta atingir a perfeição com números, com táticas, mas é impossível lá chegar devido às demasiadas variáveis do jogo.

Numa época muito marcada pelos perfis de treinadores dominantes de um processo, configurada pelo debate ideológico protagonizado pelos trabalhos de Pep Guardiola e José Mourinho, o aparecimento de perfis técnicos assumidamente líquidos não é uma novidade. De uma certa forma, um perfil que até há bem pouco tempo era visto com algum desdém, conquistou o espaço de trabalho onde equipas técnicas e jogadores têm muito mais acesso a dados para melhorar o seu comportamento.

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Ou seja, ao contrário de uma época onde residia no chefe da equipa técnica toda a responsabilidade, não só de decisão, mas também de elaboração das análises necessárias para o apoio à decisão, o crescimento das equipas técnicas coloca-nos perante um perfil de treinador onde Allegri se insere, o treinador que baseia parte das suas decisões no instinto, o treinador que, como adianta na entrevista, “uma consciência total do que fazemos poderia travar-me, ter um certo nível de inconsciência é útil”.

Nunca poderei ser um treinador 24/7 – 24 horas de vídeos, vídeos, vídeos. Para mim, 20 minutos de vídeo é o suficiente. Tem de ser limitado e concentrado. Todas as manhãs acordo às 7 horas, levo o meu filho à escola e, a partir das 7h30 vejo vídeos e preparo o treino. Chega.

Esta intuição, percebe-se, subentende um trabalho aturado de toda uma equipa que prepara os dados para análise do treinador. Desta forma, Allegri surge com a naturalidade do líder, que assume um certo nível de riscos para conduzir a sua equipa ao sucesso. Nisso, não abre mão. Todas as suas decisões têm apenas e só a equipa como único beneficiário. E, para tal, por vezes, tem que parecer mal para chegar ao bem (um pouco na linha das palavras de Eusebio Di Francesco após a eliminação do FC Barcelona: “sou um louco, se não desse resultado matavam-me).

Instinto e processo de treino

Preparas um tipo de treino, mas é importante saberes adaptar. É sempre um trabalho em progresso. A condição psicológica é absolutamente crucial. Durante a noite, um jogador pode mudar o seu comportamento para o jogo e para o treino. Um treinador, mais do que um psicólogo, tem de ser um gestor de recursos humanos. Conhecer os recursos que estão disponíveis e tentar do geri-los da melhor forma possível.

Para este tipo de treinador, então, o conhecimento interno do jogo faz-se ao nível da gestão e não ao nível do pormenor da tática ou da análise. O grande foco de Massimiliano Allegri está no elemento humano dos seus jogadores e na necessidade de conhecer profundamente cada homem que trabalha consigo.

Também por isso adianta que, ao treinador, para lá do necessário conhecimento da psicologia, é fundamental o entender do jogador como um recurso. Um recurso que deve ser acompanhado, conhecido, atendido, nas suas perceções e sensações, de modo a vir a dar o máximo rendimento possível à equipa.

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Este modelo de treino acaba por ser muito marcado pelo instinto do treinador, uma vez mais, mas exige uma capacidade de adaptação constante para atender às necessidades de cada momento, pesando as decisões do treino com o enquadramento competitivo em que a equipa se encontra. Aí, o facto desse ADN lutador da Juventus, a par da manutenção no plantel de um conjunto de jogadores de larga experiência, será uma clara ajuda para a existência deste ambiente de naturalidade. Talvez uma das marcas mais fundamentais das equipas italianas que tiveram maior sucesso ao longo da última década.

No final da temporada, ao que tudo indica, Massimiliano Allegri sairá da Juventus, à procura de um desafio que lhe permita continuar a crescer e a evoluir como treinador. O que deixa para trás fará dele, sempre, uma das figuras de um período áureo do clube de Turim. O que virá a encontrar ajudar-nos-á a compreender se este perfil, fora do seu habitat natural, encontra forma de se adaptar e sobreviver.

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