A série de entrevistas que a Tribuna Expresso tem vindo a realizar com quem está envolvido no treino e na análise do futebol, é uma porta aberta para revelações que nos permitem entender, no aprofundamento do conhecimento interno às equipas técnicas, quais os contextos do trabalho que desenvolvem.

A tentação da análise mediática passa, muitas das vezes, por tentar simplificar conteúdos, de maneira a permitir uma perceção do que acontece em campo a um maior número de pessoas. Ao mesmo tempo, essa mesma análise espera poder ser o mais próxima possível do trabalho que é realizado nos clubes. Um dos problemas desta aproximação prende-se com o facto de que entre um clube e o público de um site, jornal ou televisão, as realidades são bem distintas.

A entrevista realizada a Vítor Severino, atual treinador-adjunto de Luís Castro no Desportivo de Chaves, é bastante reveladora neste sentido. Apontando os desafios com que se deparam no clube, bem como no percurso realizado até ao presente, na conversa realizada com Mariana Cabral vamos percebendo que, nos nossos dias, aquilo que se vive dentro do contexto da equipa é uma realidade complexa e em constante mudança, algo que vai muito para lá de uma especialização tática nua e crua.

Perspetiva, momento e aprendizagem

A primeira questão é a perspetiva, é uma questão visual, do que é possível ver a partir dali, e depois é essencialmente muito diferente pela questão de estarmos a viver aquilo. Quando vemos de fora, já depois da emoção ter passado, já depois da vitória ou derrota… Muitas vezes o facto de ganharmos vai ancorar-nos a uma série de sentimentos que fazem parecer que umas coisas foram mesmo boas e que outras foram mesmo más. Não somos imunes a isso, temos essa consciência. Por isso, como estava a dizer-te, é que vemos o jogo no dia seguinte, já mais desligados da parte emotiva do jogo, o que cria uma perspetiva bem diferente. Mas nós também temos alguém, durante o jogo, que está mais acima, num plano superior, a ver o que se passa.

O que vemos depende sempre da perspetiva com que olhamos. Não só pelo que se pode ver a partir do ponto onde estamos, mas também pelo que pode afetar o foco da nossa atenção. A equipa técnica sentada no banco, ou, de pé, na linha lateral, tem acesso a muitas das impressões que os jogadores, individualmente, vão expressando. Ouve-se melhor, sente-se melhor os problemas, procura-se, pela forma de estar, pelo olhar, entender o que se passa na cabeça de cada jogador.

No entanto, ao mesmo tempo que tentamos ler a cabeça do outro, a própria cabeça do treinador não está imune aos acontecimentos. A necessidade de trabalhar a gestão das emoções é uma peça fundamental do trabalho de formação do treinador. É um percurso individual e pessoal. Passa por um enorme autoconhecimento, que pode levar, a partir daí, ao treino do controlo perante cada situação. A pressão, essa, é um elemento externo bastante mais difícil de controlar. Mas a forma como a enfrentamos, isso é algo que temos o poder de manipular.

A análise que um treinador faz a um jogo é sempre um trabalho em contínuo, um processo que aponta mais ao futuro (aos próximos treinos e jogos) do que a uma perceção do passado. No momento do jogo, pelo seu posicionamento, pelas limitações existentes para dar indicações, pelas emoções que enevoam o discernimento, não é de análise que se pode falar. Mas, de forma bastante mais consequente, de capacidade de tomada de decisão de forma bastante mais intuitiva. Muitas vezes, falar de intuição parece ser uma conversa sobre uma condição pre-existente que se tem, ou não, desde nascença. Mas também esta pode e deve ser desenvolvida.

Para lá de analisar o jogo, no dia seguinte, de cabeça fria, o treinador tem que, acima de tudo, ser capaz de analisar o seu comportamento, ações e decisões tomadas durante o jogo. É esse o passo da evolução.

A cultura e a emoção no momento da decisão

Fomos desmontando isso, mas a questão emocional é muito importante, ao ponto de nós em alguns momentos termos tomado algumas decisões relativamente à equipa que jogava em casa ou fora, numa ou noutra posição, porque sabíamos que alguns deles iam ficar um bocadinho mais afetados e não iam ter estabilidade no jogo. Numa forma de jogar como a nossa, em que queremos que todos estejam constantemente envolvidos, se houver uma unidade que está mais perturbada, aquilo é um castelo de cartas na equipa. Deixa de haver ligações e começa a cair tudo.

Porque joga A e não B? Olhando de fora, existe sempre a tentação de apontar o dedo ao “momento de forma”. No entanto, sem poder acompanhar os processos de treino, deveria pensar-se muito mais naquilo que será a “forma do momento”. O jogador, enquanto indivíduo, é uma peça que tem que funcionar no coletivo. Por isso mesmo, tem que ser capaz de apresentar as condições ideias para se integrar, adaptar e permitir a criação de ligações com os seus companheiros.

Para que isso aconteça, não será tão importante a forma como o jogador está, individualmente, mas a forma como esse jogador é potencial parte integrante do conjunto. É o coletivo que decide, então, sobre a possibilidade de integração de cada jogador. É a equipa que pede a introdução de B e não A, porque para lá daquilo que é o jogador no momento, importa absorver aquilo que o jogador pode ajudar a formar.

Vítor Severino convoca a questão do lado emocional, fundamental para o conhecimento do jogador que vamos tocar adiante. Mas é no desenvolvimento dessa cultura, desse entendimento do jogador como uma peça em constante mutação, com reações diferentes perante contextos diferentes, que se pode construir uma equipa mais fiel às ideias do treinador e ao potencial que em si própria encerra. Evitar que uma peça desafine o trabalho de conjunto, é um trabalho que o próprio conjunto ajuda a desenvolver.

Informação e conhecimento do jogador

A informação pode transformar-se em lixo, não é? Pode ser problemática, por isso só damos informação individual a quem a pede. Tal como há jogadores que acabam o jogo e querem logo ter dados do Instat, para saber quantos passes acertaram, quantos falharam, qual foi o posicionamento médio da equipa, com quem é que interagiram mais… Alguns querem saber isso tudo. 

A citação “a informação pode transformar-se em lixo” é forte. Sobretudo quando, na época da informação, sentimos que temos acesso a tudo e achamos que isso é algo de positivo. A meu ver, não pode haver nenhum treinador que não tenha a ambição de saber tudo. Controlar tudo, aquilo que outros tantos também ambicionam, já me parece ser uma perspetiva menos realista.

No entanto, a forma como Vítor Severino coloca a questão da gestão da informação e da sua transmissão aos jogadores, parece-me correta. Primeiro que tudo, porque evidencia um dado que escapa, muitas vezes, a quem está em posição de comando hierárquico. Se é verdade que o líder deve deter uma ideia que possa transformar em modelo e guia para o grupo que gere, também é verdade que não o pode fazer sem conhecer os seus jogadores. Ora, para levar consigo as tropas que comanda, precisa de entender como o fazer de forma individual.

Conhecer os jogadores é fundamental para lhes conseguir alimentar as expetativas que têm em relação ao trabalho que fazem. Isso permitirá o gerir do feedback e da informação transmitida, de modo a evitar que esta acabe por criar uma sobrecarga negativa no próprio jogador. Ao mesmo tempo, é fundamental que aquilo que prejudica não é a informação, mas sim a forma que o jogador tem para a entender. O enquadramento do futebol de alto rendimento preocupa-se pouco com a forma como o jogador aprende e evolui quando já é profissional, mas a equipa técnica que se quer completa, trabalha essa aprendizagem do jogador com vista a conduzi-lo a exigências maiores. E, pelo que posso entender, é isso o que vai acontecendo com a equipa técnica de Luís Castro.

Leiam a entrevista O fiel adjunto que Luís Castro acha que vai ser treinador principal: “Só se o mister Luís entretanto se reformar…” no site do Tribuna Expresso.

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