Um dos problemas mais repetidos pelos humanos é a tentação de conservar ideias e estatutos que, na prática, já foram ultrapassados no tempo. Nos nossos dias, estamos constantemente perante desafios novos e, em lugar de pretendermos que é possível manter a informação e o conhecimento dentro de uma zona reservada, temos que saber adaptar-nos à evolução. Os melhores treinadores são aqueles que não deixam, sempre, de procurar como estar em contacto com a realidade do momento.

É impossível lidarmos com um atleta, nos nossos dias, que não tenha, ao longo da sua vida, sido um dedicado jogador de algum jogo de computador que utilize os números para definir as realizações de cada atleta. Assim, nos atuais plantéis de futebol profissional, a presença de quem sabe exatamente o que é o FIFA, o Pro Evolution Soccer ou o Football Manager está generalizada.

 

Dessa forma, parece-se ultrapassar o primeiro problema que muitos treinadores adivinham na utilização da informação que é passada aos jogadores. Aquilo que para um treinador na casa dos 40, 50 ou 60 anos pode parecer demasiado informação, muito provavelmente, para um jovem na casa dos 20, é apenas o nível de informação a que está habituado desde que nasceu.

Quanto mais informação, melhor; quanto mais a puderes processar num curto espaço de tempo para o transmitir para os teus jogadores, melhor; quanto mais eles puderem saber e, ao mesmo tempo, jogar com a cabeça fresca, melhor. […] Eu procuro todos os meios para ajudar-nos a encontrar uma resposta quando temos um desafio perante nós.

Brad Stevens, treinador dos Boston Celtics

Numa entrevista ao podcast One Positive Coaching Alliance, o treinador da equipa de basquetebol Boston Celtics, Brad Stevens, clarifica a sua posição sobre o tema. Ele é visto como um dos mais entusiasmantes utilizadores da análise estatística no basquetebol profissional americano, algo que já era sua característica quando treinou no basquetebol universitário. Lembro-me de, quando chegado à NBA, as suas primeiras palavras sobre os dados que tinha foram “ainda vamos demorar a perceber tudo aquilo a que temos acesso e o que podemos fazer com isso”.

No entanto, Brad Stevens não se sentiu travado pela quantidade de informação que detinha para realizar o seu trabalho. Pelo contrário. Continua à procura de saber mais, de ter acesso a mais e, sobretudo, a trabalhar de forma intransigente na maneira de comunicar a informação no tempo certo e na forma certa. A questão, nos nossos dias, não será nunca sobre a utilização, ou não, da informação. Será, isso sim, na forma como a tratamos e divulgamos aos nossos atletas.

Apresentação de provas

Temos de chegar ao final da época e olhar para os números, até porque eles traduzem, na prática, o que representou a minha forma de jogar. São entregues relatórios aos jogadores par eles perceberem quantos duelos ganharam, etc, etc. Não é só dizer que se jogou bem, é preciso olhar para os dados estatísticos e provar se, de facto, eles estiveram bem.

Abel Ferreira, treinador do SC Braga

Em entrevista ao jornal O Jogo de hoje, o treinador do SC Braga explica a forma como, de maneira constante, passa para os seus jogadores relatórios estatísticos. O reforço da análise qualitativa realizada pela equipa técnica passa pela utilização destes dados quantificáveis, entendendo Abel que o jogador, na atualidade, precisa de ser tratado com esse nível de exigência.

Não há razão alguma para não seguir este caminho. Ao conhecimento projetado pelos jogadores, acrescenta-se uma equipa técnica que se envolve a fundo na análise do jogo, recorrendo a todas as ferramentas possíveis para ter um entendimento global dos acontecimentos. Isso levará, ao mesmo tempo, a um tratar do próprio jogo com um acréscimo de qualidade na forma como este será comunicado para o exterior, com os próprios clubes a utilizarem este tipo de informações para chegar aos adeptos.

A estatística acompanha o desempenho dos jogadores, ajuda o treinador a decidir se o jogador está bem, ou não, naquele momento. Dá um subsídio quantitativo e qualitatitvo para o treinador decidir o que ele vai fazer com a equipa. Uma proposta diferente ter esse trabalho, para acompanhar todas as seleções, acompanhar os nossos jogadores no exterior 

Rafael Vieira, Analista de desempenho do Brasil na equipa técnica de Mano Menezes

Num artigo do GloboEsporte, Rafael Vieira foi ainda mais longe, revelando o tipo de utilização estatística que a equipa técnica de Mano Menezes fazia quando estava no comando da seleção brasileira. Trabalhando os dados recolhidos nos diferentes campeonatos, e falando de um país que tem um grupo possível de jogadores convocáveis muito extenso e espalhado por diferentes realidades, a equipa utilizava a estatística para fazer um acompanhamento, ao momento, daquilo que cada jogador ia realizando na sua temporada.

Virar as costas às possibilidades que a informação nos permite é um caminho profundamente errado para quem está na frente de uma equipa de futebol. Perceber, a cada instante, as novas formas de conquistar os jogadores para os nossos projetos e envolvê-los na análises realizadas às equipas, passa pelo aumento de exigência nas próprias equipas técnicas e a entrada de elementos conscientes das recolhas e análises possíveis. O jogador já nasceu na era da informação. Alguns treinadores terão que ser rápidos a chegar lá.

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