O Real Madrid de Florentino Pérez tem, na última década, sido capaz de estar no topo das conquistas de grandes títulos internacionais, sem que, ao mesmo tempo, seja capaz de ser uma equipa com o mesmo impacto a nível interno. Três títulos mundiais de clubes, quatro Liga dos Campeões e três Supertaças europeias fazem frente a dois títulos de La Liga, duas Taças do Rei e duas Supertaças espanholas.

Ainda assim, com esta capacidade de conquista de títulos, esperar-se-ia que, ao nível da escolha de treinadores, a administração do Real Madrid fosse capaz de ser mais constante. Não se vê, no entanto, um fio condutor para o conjunto merengue, no que toca à tomada de decisão no momento de contratar técnicos. Manuel Pellegrini foi o primeiro nome do segundo mandato de Florentino, apresentando um futebol extremamente ofensivo, alcançando os 102 golos marcados no campeonato, mas terminando em segundo lugar para o Barcelona.

Seguiu-se José Mourinho, que muitos referem, ainda, como o treinador que transformou o Real Madrid numa equipa defensiva, epíteto mais válido, sem dúvida, para os encontros frente ao Barcelona de Pep Guardiola, onde o técnico português sempre procurou, estrategicamente, antídoto para o jogo de posse, do que para a generalidade da passagem do técnico luso. Esse dado será particularmente sensível ao facto de, na sua segunda época, José Mourinho ter sido campeão espanhol com 100 pontos somados e 121 golos marcados, na que poderá ter sido a grande temporada de rivalidade entre Messi e Cristiano Ronaldo, que terminaram, com 50 e 46 golos, respetivamente, no topo da tabela dos melhores marcadores (marcando, individualmente, tantos ou mais golos do que dez das equipas de LaLiga nessa temporada).

A mudança pós-Mourinho não se fez tanto ao nível do modelo, mas do comportamento. Carlo Ancelotti até terá visto, com a chegada de Gareth Bale, satisfeito um desejo de plantel que Mourinho poderia ter subscrito, mas esse facto terá sido permitido pelo seu sucesso na Liga dos Campeões. Aqui parece ter ficado já minimamente claro um dos princípios da administração do Real, no que toca à escolha de treinadores. Florentino Pérez escolhe mais ao nível do perfil psicológico do líder, do que propriamente a pensar na forma como a equipa jogará. O que pode explicar parte dos sucessos, mas também explica parte dos fracassos.

Erro e consequência

A contratação de Rafa Benítez inaugurou um novo período na forma de escolha de liderança técnica. Florentino Pérez terá sentido que, alcançado o ponto máximo de qualidade no seu plantel, confrontado com os elevados gastos feitos, era momento de encontrar um técnico espanhol que pudesse fazer o caminho de consolidação e conquista. Rafa Benítez foi, no entanto, um verdadeiro tiro ao lado, tendo em conta que o seu modelo de jogo chocava fortemente com o plantel que o Real Madrid dispunha. Também por isso a consequência desse erro foi tão feliz. Zinedine Zidane voltou a impor-se tal como Carlo Ancelotti havia feito, ao nível de uma liderança compreensiva, o que foi capaz de retirar do seu plantel o máximo de potencial, com três Ligas dos Campeões consecutivas.

A Julen Lopetegui parecia estar reservado o papel mais complexo deste período. Atacar uma temporada com ambições de conquista sem ter Cristiano Ronaldo, algo que nenhum dos seus antecessores nesta última década tinha sido obrigado a fazer. Junte-se a isso o facto de, ao nível da liderança e do modelo de jogo, Lopetegui ter também fortes fragilidades, se comparado com as qualidades do plantel de que dispõe, a sua saída parecia ser apenas uma questão de tempo. A procura de imposição de um modelo diferenciado, as dificuldades de gestão dos princípios que haviam ficado de épocas anteriores e a indefinição que é provocada pela sucessão de maus resultados fez o resto.

Futuro próximo

Entra, para já, Santiago Solari que, enquanto técnico, traz ainda menos currículo do que Zinedine Zidane, acrescentando o facto de, também em termos de balneário, não ter a mesma presença que o francês. Entra, no entanto, a querer ser uma súmula desse passado recente do Real Madrid. Pela escolha de Antonio Pintus para a equipa técnica, promovendo o regresso de uma cara em quem os jogadores confiaram nas últimas temporadas, como pela escolha das palavras, que tentam puxar pelo orgulho dos seus jogadores e, ao mesmo tempo, alimentando um novo tipo de atitude perante o público. O seu teste, nos próximos quatro jogos que poderá vir a disputar, passará muito por aquilo que os jogadores lhe quiserem entregar como futuro, mais do que de uma cambiante profunda na forma de jogar da equipa.

Não deixa, ainda assim, de ser ligeiramente perturbante a forma como Florentino Pérez avalia os nomes possíveis para assumir a equipa. Antonio Conte, que pelo anunciado na comunicação espanhola, foi vetado pelos jogadores, traria um tipo de liderança impositiva que deixou uma marca muito negativa na memória coletiva do Real Madrid. Michael Laudrup, pelo modelo de jogo perfilhado, poderia acabar por prolongar os enganos de Julen Lopetegui. E Roberto Martínez, numa tentação pelo abranger de vários planos, na nacionalidade, no pensamento do jogo e no crescimento enquanto técnico, um enorme ponto de interrogação quanto ao seu acondicionamento junto de um grupo que se apresenta fragilizado nos espaços de finalização.

Das dificuldades na definição de um perfil técnico, Florentino Pérez já sabe, muito bem, o que se seguirá, até pelos muitos anos que leva como presidente do Real Madrid. É preciso preparar a bolsa para ir ao mercado. Até porque, para os merengues, o espaço de definição do seu jogo tem estado sempre mais do lado dos jogadores do que dos treinadores.

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