Numa semana em que muito se tem falado da chegada de um treinador português ao Brasil, Salvador da Bahia teve oportunidade de assistir a uma aula prática do pensamento futebolístico produzido em Portugal, pelo próprio professor que o organizou. A Colômbia de Queiroz venceu 2-0 a Argentina.

Carlos Queiroz teve mais tempo para preparar a sua proposta de jogo quando foi coordenador das seleções de formação em Portugal. Teve mais talento disponível quando foi treinador do Real Madrid em 2003/04. Teve menos pressão durante os anos que passou no Irão a reformular toda a estrutura ligada ao jogo naquele país. Mas é na Colômbia que, pela primeira vez, aos 66 anos, encontra estrutura, talento, competitividade e maturidade no seu grupo de jogadores para tentar montar uma equipa que fique como testemunho de todo o seu pensamento teórico sobre o jogo.

Ontem à noite, em Salvador da Bahia, num jogo de abertura da Copa América frente à Argentina, a população brasileira teve oportunidade de ver o que é o trabalho do treinador português. As coisas até ameaçaram correr pelo pior, com a lesão de Muriel, mas Roger Martínez, eventualmente menos criativo, entrou com o misto de motivação e repentismo que acabaram por ajudar a fazer a diferença. No entanto, a grande história do jogo, sobretudo no primeiro tempo, conta-se com a fantástica capacidade para pressionar alto dos colombianos, recusando qualquer espaço para que a Argentina se pudesse organizar.

Carlos Queiroz leu as fragilidades do seu favorito adversário. A europeização do jogo argentino de modo a tentar acomodar Messi têm provocado um complexo processo de inadaptação para um conjunto de outros jogadores que, com menor impacto individual, acabam por cometer erros que condenam as aspirações da sua equipa. A ansiedade com que a Argentina era obrigada a lidar com a pressão, bem como as portas fechadas para a ligação entre médios-centro e os dois homens mais adiantados, Aguero e Messi, foram uma lição de como bem defender da parte dos colombianos, que também nunca deixaram de procurar criar oportunidades.

Depois do intervalo, o bloco colombiano cedeu mais espaço à Argentina, baixando as suas linhas e permitindo que essa ligação central fosse possível. Mas enquanto a equipa alviceleste não conseguiu marcar, a Colômbia soube explorar o adiantamento do seu adversário para aparecer com velocidade no contra-ataque que estaria planeado desde o início como uma arma. Roger Martínez acaba por estar ligado aos dois golos, expondo de sobremaneira a má organização defensiva dos argentinos e deixando sobre o foco negativo Renzo Saraiva, que não conseguiu só por si atrasar o impacto do extremo do Club América. No primeiro golo, Martínez arrancou para desferir um potente remate, no segundo soube atrair o defesa para lançar Lerma que cruzou forte para a finalização de Zapata.

Os próximos encontros da Colômbia no Grupo B vão convidar Carlos Queiroz a mostrar mais atributos no seu conjunto, frente a Paraguai e Qatar (que se estreiam hoje). Mas quase todos os que viram o encontro de ontem saberão exatamente onde estavam quando, no futuro, se falar dessa grande aula prática que o Professor nos ofereceu perante a Argentina no Arena Fonte Nova.

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Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Autor no Expresso. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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