Em muitas ocasiões somos levados a confundir, no futebol, a luta pela vitória enquanto um exercício de predominância cultural, como se o estilo, na teoria, superasse o jogo em si. Mas o tempo acaba sempre por comprovar que cultura não é domínio e que o estilo necessita de uma prática que o sustenha. 

Bruno Lage, Estádio do Algarve 

Se a colocação de João Félix foi fundamental para acelerar o processamento de um “novo” Benfica na segunda metade da época passada, as dificuldades sentidas perante o reconhecimento das dinâmicas encarnadas pelos adversários deu a Lage a certeza de algo que trazia consigo desde as diferentes experiências que teve com Carlos Carvalhal – a mudança de discurso pode ter efeito num balneário, mas num período limitado de tempo. O treinador do Benfica foi chamando para o seu grupo jogadores que dominavam o objetivo final do seu modelo (Ferro para junto de Rúben Dias, Florentino,…), mas era necessário complementar a sua equipa com as qualidades de jogo de nomes que têm sido essenciais aos encarnados ao longo dos últimos anos (Pizzi, Grimaldo, André Almeida), reforçando-os com características que sabia ter em elementos menos utilizados (Rafa, Seferovic, Taarabt). 

No encontro da Supertaça, o Benfica apresentou uma imagem bem clara do refinamento de ideias inseridas numa prática de treino e jogo que levam à vitória, mas, também, ao domínio do que é o conceito da partida jogada. A consciência das alternativas que o rival pode apresentar, a assunção de princípios que acomodam o embate com essas diferentes opções e o momento de intervenção junto dos seus jogadores facilitou a resposta aos problemas sentidos nos minutos iniciais do encontro. Não foi o estilo do Benfica que ganhou. Foi a prática sustentada e o trabalho realizado que se impuseram perante um conjunto que, por sua vez, denuncia uma fragilidade que se vai inscrevendo na história – à vontade de adotar um estilo, no Sporting de Marcel Keizer, não resiste qualquer sinal de uma prática que o possa sustentar em partidas de maior exigência. 

Sérgio Conceição, Estádio de Krasnodar 

Alcançar o sucesso com um estilo que contraria as teses dominantes da análise de jogo é um crucifixo que o treinador do FC Porto continuará a carregar. Os limites das suas opções demonstram-se claros a cada partida de exigência mais elevada, mas com a equipa a somar resultados, o trabalho do analista não passa por apontar para a falta de roupa de um rei que passa nu, deverá centrar-se na compreensão de uma realidade que trai a crença na evolução de uma ciência de jogo compreendida e aceite por todos os intervenientes. Aliás, funda-se nessa mesma luta de classes onde todos podem sair vencedores (uma espécie de contradição daquilo que vivemos e sentimos no mundo dos nossos dias) a singularidade e exceção do jogo de futebol. 

Sérgio Conceição e o seu modelo fundem-se em questões de identidade que procuram mais aquilo que é característica humana do que de jogo. Ao técnico do FC Porto interessa mais o foco com que o jogo é enfrentado, a agressividade na disputa do lance, a compreensão dos diferentes momentos do jogo e a conformação à missão para cada um deles, do que o resultado final da dinâmica coletiva. Por isso, em Krasnodar, sacrificou Corona à esquerda, durante 54 minutos, para premiar um Romário Baró que assumiu o lugar mais complexo taticamente do seu onze. Da mesma forma, para proteger o seu capitão, resgatou Sérgio Oliveira que teve no seu empréstimo mais tempo para entender a forma como pode cooperar com o coletivo do que se tivesse ficado sentado no banco do Dragão. O FC Porto é um exemplo de prática identitária que rejeita o cânone contemporâneo, apenas para se afirmar sempre que um seu adversário, como o Krasnodar, ontem, duvida das suas escolhas futebolisticamente mais atraentes.

A predominância cultural de uma escola não se faz, portanto, pela simples adoção dos seus princípios discursivos (ver o exemplo de Marcel Keizer), nem a sua recusa acaba por impedir que uma equipa atinja o seu ponto mais forte no que toca à identidade própria (ver o exemplo da equipa de Sérgio Conceição e os seus limites). Mas se algo há a aprender do percurso de Bruno Lage ao seu oitavo mês no comando do Benfica é que confundir estilo com qualidade não resolve a questão prática que o jogo coloca sempre que o árbitro apita para o seu início: como vamos ganhar isto, hoje?

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Autor no Expresso. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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