O Getafe de José Bordalás não é uma surpresa. Pelo segundo ano consecutivo a lutar por lugares da Liga dos Campeões, o conjunto dos arredores de Madrid veste uma pele que, na Liga Espanhola, sempre teve alguém que a vestisse. Que seja um conjunto que apenas uma vez, na sua história, tivesse alcançado uma presença europeia e cujo currículo e expressão financeira anda mais perto do fundo da tabela da competição, apenas o torna mais apropriado.

História e Triunfo

Quando se fala de estilos e modelos, o válido é o que te leva ao triunfo.

A equipa de José Bordalás afirma-se através de um perfil que, nas últimas temporadas, não tem conseguido estar nas mais elevadas posições das grandes competições pela Europa. O aumento do poderio financeiro foi levando a uma concentração de talento que permite, nos nossos dias, observar muitos conjuntos a diferenciarem-se por esse lado. Ao mesmo tempo, a capacidade de processar todo o trabalho em volta do treino e da competição tem permitido que os resultados de um pensamento modelar assumam a procura da posse de bola para quebrar a resistência dos rivais. 

As causas perdidas são um desafio. A minha intenção é sempre ajudar e tentar recuperar causas perdidas. 

Se Diego Simeone fez escola em Espanha em sentido contrário, José Bordalás bem poderia assentar-se como um natural seguidor. Mas, no fundo, a identidade do Getafe contraria tendência sem assumir um ramo teórico contrário. E é sobretudo por isso que a equipa não surpreende. Bordalás assume o quadro de competências do treinador modelar. Forte na gestão do processo de treino, na criação de rotinas coletivas, na identificação do potencial dos jogadores, na liderança do grupo e no aproveitamento da ciência para melhorar, a cada passo, a sua proposta. O Getafe é uma expressão do que pode ser a aplicação de processos de treino avançados, mesmo que não seja a expressão esperada pela maioria dos seus teorizadores.

Competência e Rigor

Damos pouca margem aos jogadores [em férias]. A alta competição existe as melhores prestações. Os jogadores fizeram estudos para saber o que têm que comer e o que devem evitar. Temos tecnologia para recolher toda a informação.

Com 55 anos e mais de 25 como treinador, Bordalás fez o percurso desde a base competitiva do futebol espanhol, a nível regional, até ao topo. Nesse percurso, acompanhou e estudou o jogo. O seu conhecimento profundo da história do futebol no seu país transforma-o num realista. A sua realidade não se contaminou pela última tendência, mas construiu-se através dos caminhos necessários para entender as dificuldades que o jogo pode oferecer. O seu pensamento sobre o futebol atual não fará, também, capítulos na história do jogo. Bordalás não é especial. 

Sou o máximo responsável por retirar o máximo rendimento do plantel, mas, no final, os protagonistas são os futebolistas. Tento orientá-los, indicar-lhes o caminho para o triunfo, mas são eles que jogam. Quem me conhece sabe que sou muito exigente e rigoroso. Essa é a fórmula.

No fundo, é uma consequência desadequada à realidade dos nossos dias. Mas o seu sucesso tem-lhe permitido uma evolução em continuidade que torna o Getafe, semana após semana, um apurado competidor por objetivos que são superiores à sua realidade. Escutando-lhe a filosofia, entendemos o rigor como peça basilar da sua abordagem. À medida humilde das capacidades, o Getafe tem sido um clube bastante proativo na busca de tecnologia que possa complementar o trabalho da equipa técnica. Mas é uma fórmula que caminha, de forma abrupta, para o seu fim. 

Caminho para o fim

Numa equipa organizada, mas que prefere não ter bola. Uma equipa que remata pouco, mas que consegue números de finalização dentro da média. Uma equipa que não receia jogar sem uma intenção de manter domínio, mas que tem claras rotinas posicionais e um pensamento de jogo muito bem demarcado na busca das suas forças e no esconder das suas fraquezas. O Getafe vai alcançado, através do sucesso competitivo, um crescimento sustentado a nível estrutural e financeiro. O que levará, não a um questionamento da fórmula, mas à sua transformação contextual. O tempo joga, assim, contra Bordalás. E, talvez melhor do que ninguém, ele sabe-o. Manter-se na luta por um lugar na Liga dos Campeões e chegar à eliminatória da Liga Europa perante o Ajax que foi a revelação nessa outra prova na temporada passada com capacidade para os ultrapassar são as prioridades da agenda. Consegui-los será, já, garantir um sucesso inesquecível.

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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