Em dia de encontro entre Atlético de Madrid e Liverpool, equipas construídas por dois mestres da identidade no futebol, Diego Simeone e Jurgen Klopp, a discussão sobre o clássico no futebol é uma exigência. Pensemos sobre o assunto, com a ajuda das palavras do professor Fernando Guerreiro.

Preservação da espécie e contexto

“Essa ideia de preservar, de liofilizar os clássicos parece-me que, por um lado, é fazer muito pouca justiça aos clássicos, homens e mulheres que atravessaram as dificuldades e problemas do seu tempo, e que fizeram obras que são também o resultado desses desafios. Para mim, isso é uma parte muito considerável do valor dessas obras. Por isso, nada de os simplificar e liofilizar.”

A construção de Diego Simeone no Atlético de Madrid foi um dos mais improváveis desafios do futebol-financeiro do início do Século XXI. Num quadro de concentração dos grandes clubes em meios cada vez mais controlados pela capacidade económica dos clubes, o Atlético de Madrid dispôs-se a combater esse predomínio no terreno de jogo. 

Foi uma construção desportiva, futebolística, em primeira instância. Diego Simeone chegou em 2011/12, depois de Quique Flores (que havia conquistado a Liga Europa em 2010) e Gregorio Manzano terem sido incapazes de fazer crescer o projeto futebolístico para disputar os lugares cimeiros da Liga Espanhola. A opção por homem que conhecia a casa foi essencial para a recuperação de uma ideia de jogo que colasse com a personalidade do homem e dos adeptos. 

Diego Simeone fundou uma cultura no Atlético que ficará como um clássico. Contra-corrente no momento da sua edificação, mas seguramente rica na resolução de dificuldades e problemas enfrentados ao longo destas temporadas. Os desafios de hoje são, exatamente, fruto dessa cristalização que o processo alimentou e permitiu. O futuro do Atlético não será o seu passado e 2019/20 marca, definitivamente, a época de reinício de uma nova procura identitária. Se Diego Simeone terá a capacidade de se reinventar para este novo ciclo, é uma pergunta que continua a ver resposta negativa no jogo da equipa. 

Viagens no tempo e o tempo das viagens

“Mas, mesmo que se tenha essa ideia, o certo é que o Camões de hoje não tem muito que ver com o Camões de há 50 anos. Faz parte de se ser um clássico o estar envolvido numa constante metamorfose, numa dança com os tempos, e penso que é bom que assim seja. Essa transformação é o que o oxigena, o que mantém os clássicos vivos e em movimento.” 

Jurgen Klopp poderia ser um velho roqueiro inglês, afinal, o rock n’ roll encontrou sempre em solo germânico território de entendimento e crescimento. No entanto, a chegada do alemão para tentar ser a figura que ressuscitaria o clube do povo das docas de Liverpool parecia ser uma aposta bastante improvável. Na sua quinta temporada no clube, já ninguém terá coragem para o admitir. 

No discurso, no pensamento, na ação, Klopp é Liverpool. No entanto, Liverpool é, também, já outra coisa bastante diferente. A imagem emocional que é alimentada para o exterior prepara-se, nos bastidores, com um trabalho de ponta no que à ciência do futebol diz respeito. A utilização da tecnologia, o desenvolvimento das capacidades da equipa técnica ao pormenor, a contratação de perfis que alimentem a evolução do modelo de jogo (mais isso do que, propriamente, corresponder a um encaixe ao modelo pré-definido), tornam o Liverpool uma equipa que vive no futuro. 

No fundo, tal como nas palavras do professor Fernando Guerreiro, este Liverpool já é o Liverpool de há 40 anos, tal como Camões já viveu muitas peles. É a profunda lição evolutiva dos clássicos. Um modelo de jogo, uma ideia de clube, alimenta-se da transformação e do movimento, não vive agarrada a mitos, nem se solidifica parada no tempo. Toda a gente na estrutura do Liverpool sabe isso mesmo. E depois de uma final perdida e de outra conquistada na Liga dos Campeões, o caminho dita que a vitória é para viver como uma verdadeira festa. 

 O combate do presente

“O que me inquieta é o presente. E quanto mais intenso, germinador, criativo – no sentido positivo como negativo –, melhor. É como se se estendesse. Essa possibilidade de extensão é o que me interessa, o de criar outra dimensão dentro da nossa, e é isso o que nos oferece o presente, o modo como se trabalha sobre a linguagem ou outras esferas nos permite.”

Quer Diego Simeone, quer Jurgen Klopp, tal como quase todos os treinadores, são homens do presente. Homens que vivem em ambientes de enorme intensidade e criatividade. Que entendem como podem crescer na forma de entender o acontecimento do agora. E o futebol bebe, sobretudo, desse desejo vivo de acontecer no momento, a perseguição inevitável da vitória que depende de uma bola que entra numa baliza. 

Também por isso ambos são figuras com a capacidade de transformar as suas próprias realidades. É nesse contexto que o Atlético de Madrid – Liverpool se apresenta como um jogo que é mais do que uma partida de futebol. É o autêntico clássico conforme as palavras de Fernando Guerreiro. Baseado nos problemas das suas vivências, inquieto nas possibilidades de evolução, intenso enquanto confronto de identidades num quadro competitivo. 

A partir das 20 horas estarei nos comentários do encontro entre Atlético de Madrid e Liverpool na Eleven Sports Portugal. Comigo estará o Alexandre Afonso. 

Nota: As citações foram retiradas da entrevista concedida por Fernando Guerreiro ao Jornal I, a 13/02/2020. 

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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