Benfica, FC Porto e Sporting sentiram dificuldades para ultrapassar blocos defensivos que reduziram o espaço de ataque na última jornada. Enquanto o Sporting, a jogar em superioridade numérica desde o minuto 11, acabou por somar os três pontos, Benfica e FC Porto arriscaram na corrida ao título, perdendo pontos frente a Vitória de Setúbal e Rio Ave. 

A importância dos jogos reduzidos 

Os jogos reduzidos (Small-Sided Games, SSGs) são tarefas muito comuns na preparação de qualquer equipa. Trata-se de situações jogadas (partidas) em que se reduzem o número de jogadores e o espaço para que a participação dos atletas aumente e o jogo seja mais intenso que em um 11 contra 11. Sabemos muito acerca das adaptações que desencadeiam os SSGs dependendo de suas características. A intensidade desses exercícios pode ser manipulada ou afetada por diversos fatores, como o número de jogadores que intervêm, o tamanho e a forma do espaço de jogo, a duração do exercício e os tempos de recuperação, as regras do jogo, o ânimo do treinador ou a forma de fazer um ponto ou um golo.

Carlos Lago Peñas

Uma ferramenta essencial do treino no futebol, em todos os escalões, merece destaque quando fazemos a análise da jornada na Liga NOS. Isto porque, na análise feita aos jogos dos três grandes, se assistiu a ideias comuns, como a pouca agressividade com bola, a falta de velocidade nas ações ofensivas, a falta de criatividade no enfrentar de blocos defensivos coesos e recuados que retiram espaço de ação aos avançados. 

Sendo uma situação habitual quando se defronta uma equipa mais poderosa, a falta de ideias das equipas grandes em Portugal acaba por ficar mais demonstrada pelo excelente trabalho que os técnicos do Vitória e do Rio Ave montaram para enfrentar esta jornada. Com ideias diferentes, estratégias conscientes foram passíveis de criar problemas que, no final, não foram resolvidos pelos conjuntos que seguem nos lugares da frente. 

Velásquez e o bloco fechado

Em Setúbal, o Benfica terá bastante culpa própria na forma como abordou o encontro, revelando-se, cada vez mais, a procura de soluções individuais para um problema coletivo que, identificado, não dá mostras de ser resolvido. A troca de Samaris no lugar de Weigl deu potência na abordagem de bolas paradas e pode ter limitado um pouco a ação rival na transição ofensiva, mas a síndrome da manta curta ficou muito evidente nas carências no momento ofensivo. 

Já na 2ª parte, Benfica tentou povoar espaço entrelinhas dos sadinos

Para ultrapassar um bloco fechado, com Carlinhos, Semedo e Nuno Valente a encerrarem um triângulo no corredor central, e os dois extremos a acompanharem o movimento de subida dos laterais para, em alguns casos, criar uma linha de 6, o Vitória obrigava o Benfica a inventar espaços onde eles deixavam de existir. A equipa encarnada insistiu em alguns passes pelo ar (69), de maneira a procurar antecipar as movimentações de equilíbrio defensivo dos vitorianos, mas sem sucesso.

Carvalhal e os conteúdos

Tem sido observável, ao longo da temporada, o excelente trabalho que Carlos Carvalhal vem fazendo no Rio Ave, voltando a dar bom exemplo disso no Estádio do Dragão. A equipa constrói a três, mas alimenta reações diferentes da parte dos seus laterais no momento defensivo, com Diogo Figueiras a surgir, ora como quinto elemento da linha defensiva, ora subindo na cobertura às ações de Alex Telles, que se viu assim limitado na partida, com apenas três cruzamentos e dois remates em jogo corrido. 

A postura corporal dentro do bloco rival não cria oportunidades de receção

Os problemas do FC Porto cresceram com o falhanço estratégico de Sérgio Conceição. Na primeira parte, Nakajima teria a missão de procurar o espaço entrelinhas, para a partir daí tentar furar o bloco rival, mas as dificuldades demonstradas pelo japonês e o acerto no controlo do posicionamento de Marega pelo “terceiro central” do Rio Ave, Nélson Monte, levaram a uma retificação para o segundo tempo. No entanto, a ânsia de procurar o golo até levou o Rio Ave a terminar o jogo com excelentes oportunidades para marcar e, até, ganhar no Dragão.

A prova dos 9 a Rúben Amorim

O contexto da estreia de Rúben Amorim no Sporting foi bastante diverso, pelo facto de o Desportivo das aves ter tido dois jogadores expulsos nos primeiros 20 minutos. Mas não deixa de ser interessante analisar o comportamento dos jogadores leoninos como reação à superioridade numérica no terreno de jogo. 

A troca de Jovane para o lugar de Ristovski foi explicada pelo técnico do Sporting, com base na ideia de procurar ter mais um elemento no ataque (em lugar de um lateral), acreditando que a linha de três centrais é essencial no seu modelo de jogo (como já havia demonstrado em Braga, frente ao Gil Vicente, aí estando do lado da equipa com desvantagem numérica). 

Jogar contra 9 foi sinónimo de dificuldade de organização ofensiva

A solução não teve resultado imediato porque, no momento da vantagem numérica, mais importante do que as características dos jogadores, poderá ser a inteligência com que abordam as dificuldades. No primeiro tempo, o Sporting acabou por ser incapaz de criar muitas oportunidades, porque o posicionamento dos seus jogadores era bastante passivo perante a organização avense e acabou por criar, em muitas situações, sobrecarga de jogadores nas faixas e não dentro do bloco, onde mais poderia fazer perigar a sustentabilidade da ação da equipa de Nuno Manta Santos. 

Ser superior ao adversário no contexto do jogo passa, assim, por muito mais do que trabalhar as soluções individuais – ainda que seja o talento individual dos jogadores a determinar, na Liga Portuguesa, muita da diferença pontual entre as equipas. Ora, para crescer enquanto coletivo, é necessário que o trabalho semanal tenha uma função de desenvolvimento dos jogadores e da equipa que, em jornadas como esta, deixa bem à vista como ainda é lacuna. 

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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