Ao discurso do medo do desconhecido, segue-se o caminhar da contaminação. O poder toma decisões de contenção do coronavírus Covid-19 e o futebol não é exceção. Competições adiadas, jogos à porta fechada, adeptos afastados à sua sorte. Como medir o impacto desta situação no jogo e no adepto?

Medidas de contenção

Conforme a situação de cada país, foram já tomadas de contenção do COVID19 com impacto em diferentes competições. Esta semana, vários jogos da Liga dos Campeões ou da Liga Europa estão a ser disputados à porta fechada, o mesmo que acontecerá, nas próximas semanas, em Portugal, Espanha, França, Alemanha, entre outros. Situações mais drásticas, na Itália, Áustria, Japão, Suíça e China, levaram ao adiamento de todos os jogos da Liga.

A situação ganha particular relevo nas competições que conjugam equipas de países diferentes. Ontem a Atalanta de Bérgamo deslocou-se a Valência, onde disputou o jogo à porta fechada, mas vários adeptos dos clubes estiveram na cidade a festejar o apuramento. O presidente do Getafe anunciou a recusa de viajar para Itália, esperando uma alternativa da UEFA. A associação de jogadores italiana e espanhola pedem o cancelamento de todas as provas.

A opção tomada em Portugal, como em várias outras competições, visa essencialmente dar um sinal público de contenção, com as partidas à porta fechada. Pode ser uma medida de saúde pública dentro do estádio, mas não conforma minimamente as restantes consequências da realização de uma partida de futebol. Os adeptos fazem as suas viagens, agrupam-se em restaurantes ou cafés para ver os jogos, assumem o acontecimento como uma oportunidade de reunião.

Daí que, ao procurar manter em ativo campeonatos profissionais, entende-se que, por um lado, se augura o princípio de que o controlo sanitário das respetivas equipas reduz o risco de transmissão do vírus, ao mesmo tempo que se dá relevo à importância económica de contratos de transmissão dos jogos (a sua principal base de financiamento). Por outro lado, colocam-se os adeptos do lado de fora do estádio e espera-se que estes adotem comportamentos de bom senso tendo em conta a situação.

Sociedade sob controlo

O desconhecimento dos possíveis comportamentos do novo vírus assim o determinam, mas não deixa de ser um exercício para a análise social determinar as reações a decisões de controlo de massas. Se a suspensão das competições seria uma medida sanitária mais eficaz (porque controlava também as consequências da realização dos jogos fora do espaço onde se realizam), entende-se que o peso e a medida utilizados tendem, uma vez mais, a procurar um equilíbrio entre sobrevivência e economia.

Os adeptos são facilmente excluídos da equação, como parte não ativa desta relação contemporânea entre sociedade desportiva e valor económico. Faltará compreender, com os eventos dos próximos fins-de-semana, como reagem os mercados televisivos a jogos onde as bancadas estão vazias. Pelo exemplo de ontem, percebe-se que falta uma parte fundamental do que é espetáculo televisivo. Até porque o adepto estará na outra ponta da questão. Impedido de estar no estádio e aconselhado a não se reunir em espaços públicos, estará agora obrigado a um custo extra para poder ver o jogo em casa?

Ao mesmo tempo, a forma como grande parte da sociedade se conforma a medidas de controlo antecipadas pelo “medo do contágio” acaba por aprofundar um efeito de desligamento entre o que é evento e o que é comunidade. As medidas de exceção são impostas de forma direta sobre as populações, sendo que avançam já para o que são as leis do trabalho e as formas estatais de apoio a empresas.

O futebol, curiosamente, apresenta-se no meio da ponte quanto a este impacto. Se, por um lado, vemos jogadores “obrigados” a competir e a viajar, por outro lado vemos as massas de apoios constrangidas nos seus movimentos. Nos próximos dias, assistiremos pela televisão a jogos de diferentes competições, ainda que, sem público, sem possibilidade de reunião, sem capacidade de intervenção que não seja mediada pela distância imposta por um ecrã, o jogo será apenas isso mesmo, o jogo de futebol, sem possibilidade de escape. Que adepto sobreviverá a esta exposição? O mesmo se aplica ao jogo. Sem o ambiente sonoro das bancadas, como reagirão os jogadores?

A contaminação segue dentro de momentos.

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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