O dia de Portugal – manifesto pelo futebol

Para um país onde todos os discursos nos parecem condenar, ora a uma grandeza passada, ora a uma pequeneza genética, a claridade de um dia limpo pode não ser mais do que um desejo. Transformar os desejos em realidade está, no entanto, nas mãos de cada um que quiser tomar uma decisão. 

Começou a bola a rolar e a sensação de condenação a que o adepto do futebol português parece votado é o denominador comum dos discursos. Entre aqueles que diziam estar melhor sem o futebol (porque este traz sempre conflito) e os outros que agora não ligam tanto devido às confusões associadas aos jogos, o valor real da competição portuguesa decai a olhos vistos. 

No entanto, dentro de campo, eu diria que a realidade é bem diferente. Se, de facto, FC Porto e SL Benfica têm, hoje, poucos fatores de interesse para além da vitória na competição (o meu lamento para quem acha que ser campeão é tudo), se o SC Braga e o Sporting CP, com a troca de treinadores, enfrentam um processo de recuperação especial em período pós-pandemia, a verdade é que a Liga Portuguesa nunca terá sido tão interessante como agora. 

Falo do futebol jogado, porque o FC Famalicão, o Vitória de Guimarães e o Rio Ave apresentam, em campo, propostas que bem os poderiam colocar na corrida pelo melhor 5º classificado dos principais campeonatos europeus (e se não falamos de nível individual, porque outras equipas noutras provas apresentam diferentes condições financeiras para conjugar plantéis, ao nível do valor coletivo estamos perante equipas que funcionam como motivo de interesse para quem assiste à Liga). 

Falo, também, do interesse competitivo que tem, nesta fase, a luta pela Europa e a luta pela manutenção, onde, como Vítor Oliveira tem feito questão de repetir, muitas equipas ainda podem cair (e mais seriam num quadro onde três equipas descessem à II Liga, tornando o campeonato ainda mais atraente), apresentando-se também conjuntos que, depois de um mau início (sobretudo de Paços de Ferreira e Portimonense), a sua valia parece indicar capacidade para oferecer bons jogos e uma competição atraente.

Porque não podemos, então, gozar o nosso campeonato pelo que nos é oferecido de positivo? Porque até os artífices daquilo que é positivo parecem viver encantados pelo lado obscuro do jogo. Sim, não haja dúvidas, de que todos oferecemos o nosso contributo para fazer do quotidiano do futebol português algo menos propício à apreciação e a vivência. Todos acabamos por dar os nossos 15 cêntimos para algum circo. 

Condenação do dia claro

A tendência de considerar que a polémica vende e promove parece um dos grandes vícios que nos rodeia. A ideia de que diariamente é preciso alimentar a notoriedade com uma polémica, com um conflito, que torne cada parte mais interessante aos olhos de quem compra (e aqui, para já, apenas falamos de atenção, não de transações monetárias). Daí que os adeptos reajam na hora aos acontecimentos no campo – com violência verbal ou física -, algo que parece ser do agrado de dirigentes que não se importam de manipular a vontade dos seus consórcios com vista a manter o seu estatuto na equação. 

No mundo jornalístico acontece, exatamente, na mesma medida, com muitas páginas a oferecerem-se ao mito da última hora para dar de vender a uma sede inexistente. As inúmeras notícias de transferências sem qualquer fundamento, as declarações de guerra que dão em nada (perceberam pela forma como tantos presidentes tinham tudo contra a Liga de Clubes e a Assembleia Geral foi tão pacífica?), as análises vagas e desconhecedoras sobre o que acontece dentro de campo. 

Dá-se megafone a polémicas (e mesmo quem teria todo o interesse em fazer diferente, como muitos treinadores, parecem hoje mais dados à frase polemista do que à análise do jogo como este acontece dentro de campo), exaltam-se reações, manipulam-se desejos, embrulhando tudo isso num pano de esquecimento que vai cobrir os caminhos mais interessantes que a discussão e visão do futebol português poderiam ter. 

Exaltação do bem comum

Cabe ao adepto, enquanto consumidor, saber fazer escolhas inteligentes. Perceber que ser do clube A, B, X ou Z nada tem que ver com o ambiente de guerra que direções de comunicação, newsletters, jornais e canais de televisão próprios querem fazer crer. Usando de um critério comunitário, o que interessa a comparação constante do erros de árbitros, gestores, juízes? Não estão os clubes mais poderosos apenas interessados em manter o poder, destruindo qualquer hipótese de comunidade em redor do fenómeno popular do jogo?

Isto aplica-se, também, para lá dos canais próprios dos clubes, aos canais mediáticos que se apoiam na transposição evidente do mesmo tipo de mensagem. O que podem oferecer painéis de análise com intervenções que se excedem de agendas próprias de benefício ou ataque às direções dos clubes grandes? O que pode acrescentar o ser mais inteligente do mundo se, ao expressar a sua opinião, o faz do ponto-de-vista da defesa da agremiação Y e não do ponto-de-vista do bem comum do jogo? Use-se, sabiamente, o comando de televisão, tal como se deve usar da mesma forma o poder de resistência ao link que explora esse tipo de aleivosias. 

O dia de Portugal deverá, assim, servir para definir claramente um caminho que nos promova enquanto país, não numa visão de purificação de qualquer raça (tempos passados que nada de bom nos oferecerão se a eles quisermos voltar), mas numa visão de construção de uma comunidade que diferencie, primeiro e acima de tudo, o nosso prazer em viver o futebol que temos. Porque os últimos dias têm-nos presenteado com a qualidade que, afinal, temos debaixo dos olhos. Equipas com bons modelos, estratégias bem delineadas, jogos competitivos, surpresas nos resultados, capacidade para aumentar o interesse na prova nacional. 

E, por muito que muitos mantenham um certo interesse em ver os nossos olhos fechados, abramos bem a consciência para aquilo que está em nosso poder fazer. Tomemos a nossa decisão. Façamos do jogo e das suas consequências positivas aquilo que nos interessa e ao que dedicamos atenção.  

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