O futebol enquanto exercício intelectual

Por ocasião da saída do novo livro de Daniel Riolo, “Cher football français”, o comentador francês deu uma entrevista ao jornal Le Point onde faz uma síntese da sua análise ao contexto do futebol local, algo que poderia não ficar muito longe de uma análise ao que se passa por Portugal.

O ponto central da análise de Daniel Riolo passa por uma questão cultural que afeta a forma como se vê o futebol e o desporto. Lá, como cá, parece haver uma desvalorização de quem trabalha no desporto, de quem lhe dá atenção, das implicações que este tem na sociedade. Lá, como cá, podemos ver um Ministro ou um dirigente público a colocar o desporto fora das prioridades pós-pandemia, tal como vemos uma eterna desvalorização do desporto enquanto movimento social.

Já todos nós passamos pela lógica da desvalorização associada ao desporto. A ideia de que o jogador não deve falar de outros assuntos. De que o treinador não tem direito a reflexão. De que o jornalista ou comentador desportivo sabe pouco do que vai falando fora da sua temática. E, no entanto, a realidade corre a desmentir quem quer colocar o desporto nesse buraco de invisibilidade. Parte da reflexão de Daniel Riolo passa por aí.

“A falta de cultura é mais importante do que a falta de meios e ideias”

Aprofundando a análise, Riolo aponta a falta de cultura como o maior dos problemas na gestão do futebol francês. Essa falta de cultura fica demonstrada na maneira como os dirigentes dos clubes agem e desloca-se a partir daí com efeitos nefastos para os resultados dos clubes, por um lado, mas também para organizações mais latas, como a Liga francesa. A incapacidade de gerar interesse e resultados passa, na visão de Daniel Riolo, pela maneira como não se preenche os meios e as ideias que se têm com uma atitude mais universal em termos de decisão. E a prova apresentada pelo autor passa, por exemplo, pela maneira como um pensador do jogo, Marcelo Bielsa, foi mal recebido na sua passagem em França.

O futebol poderia, assim, ser alvo de um exercício intelectual, pela forma como acaba por ter um larguíssimo impacto na sociedade de um país. Pela maneira como, em Portugal, tem relevância económica. Ainda que, como venho dizendo, a relevância económica mede-se, enquanto benefício para o país, na distribuição dos lucros através dos impostos e não apenas no seu gerar. Que caminhos alcançar, que desafios aceitar, que visões contrastar através daquilo que acontece no jogo. Uma ideia que fica como um chamamento para o que gostaríamos que acontecesse em França e em Portugal.

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