[Artigos do Expresso] Sport Bartleby e Benfica: preferir não o fazer

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em novembro de 2018.]

Enrique Vila-Matas, Franz Kafka e Zeus entram num bar. Diz o primeiro: “Há algum tempo que persigo o amplo espectro do síndroma de Bartleby no futebol, há algum tempo que estudo a doença, o mal endémico das equipas contemporâneas, a pulsão negativa ou a atração pelo nada que faz certos treinadores, embora tendo uma consciência futebolística muito exigente (ou talvez precisamente por isso), depois de avançarem com uma obra, fiquem, um dia, literalmente paralisados para sempre”.

É nesta formulação vilamatiana que me encontro com o atual momento de Rui Vitória no Sport Lisboa e Benfica. Preso nas dúvidas que nascem do seu processo de jogo, enleado na necessidade de respeitar o plano diretivo que assinou como seu, exposto, como outros antes dele, a assumir sozinho tudo o que de bom (e, sobretudo, o de mau) acontece no seio do futebol profissional do seu clube. E, isto, em vésperas de voltar a Munique, para um jogo decisivo na caminhada deste ano na Liga dos Campeões.

O processo: a prisão de alguém que não fez qualquer mal

Pergunta séria: tendo em conta aquilo que se conhecia do treinador Rui Vitória, onde se esperaria encontrar a equipa do Benfica no início da quarta temporada sob o seu comando? A tentação da maioria será dizer que se esperaria que a equipa jogasse “melhor”, mas, de forma concreta, conhecendo o seu percurso pelo Fátima, Paços de Ferreira e Vitória de Guimarães, que pistas existiam para desvendar a evolução do processo da sua equipa? Para lá do 4-3-3, sistema que era o mais recorrente nas suas equipas, pouco mais se poderia dizer. Porque nunca, no seu trajeto, Rui Vitória fora treinador de uma equipa grande ou, sequer, tinha sido identificado com potencial para tal, apesar dos bons trabalhos realizados nos vários contextos por onde passou.

A equipa do Sport Lisboa e Benfica é, assim, herdeira direta dessa decisão inaugural da contratação de Rui Vitória. Em momento algum, a questão tática ou de evolução de modelo de jogo esteve em causa para o contratar. Também, por isso, se assistiu com natural perplexidade aos primeiros meses do treinador no Benfica, testando e experimentando, arriscando abdicar do trabalho que havia realizado na equipa o treinador anterior, até compreender que, por vezes, o melhor que se pode fazer para mudar é continuar a fazer, exatamente, o mesmo.

Ainda assim, à terceira época, depois de dois títulos nacionais acumulados no currículo, as existências iam-se rarificando, ora pela saída de jogadores, ora pelos anos que acresciam ao cérebro e aos músculos dos jogadores que ficavam, ora, ainda, porque o treino não corresponderia ao conhecimento que os seus adversários haviam acumulado. Rui Vitória encontrou forma de se aproximar às suas preferências, e mesmo tendo falhado um terceiro título e realizado uma passagem pela Liga dos Campeões a todos os níveis lastimável, manteve-se na disputa do campeonato e assegurou haver, ainda, uma quarta vida para gastar na frente da equipa do Benfica.

Óbvio, em todo este processo, que apesar de, nas bancadas e nas análises que se fazem ao trabalho do treinador do Benfica, o grau de insatisfação se ter tornado crescente e evidente, ao ponto de lenços brancos, vaias e assobiadelas se soltarem das bancadas, até, em dias em que a equipa vence, há quem esteja satisfeito com a forma como Rui Vitória gere a equipa. Luís Filipe Vieira, o presidente, e Rui Costa, o diretor desportivo, nunca denotaram o mínimo incómodo com aquilo que a equipa apresenta em campo, independentemente dos resultados não aparecerem como antes, quais Bartlebys do dirigismo. O Rui Vitória do projeto, ao contrário do Rui Vitória do processo, continua a ser, consecutivamente, nomeado como funcionário do mês.

O que há de assombroso em assumir que seremos iguais para sempre

Vivemos em dias onde novidade e genialidade são preceitos obrigatórios para vermos reconhecido o nosso sucesso. Constantemente somos convocados para apresentar as nossas diferenças, a nossa capacidade de sermos novos, preferencialmente com um toque de génio que nos permita parecer donos de um saber inacessível. Rui Vitória estará bem consciente dessas necessidades, adequando-se a elas em momentos como a recente palestra apresentada aos alunos da Faculdade de Motricidade Humana. No entanto, na maior parte das vezes, opta, simplesmente, por não fazer o mínimo esforço para se adaptar aos tempos que correm.

Num exercício de despojamento do seu treinador, a equipa do Benfica tem visto passar os dias ao sabor das capacidades individuais dos seus jogadores. No setor mais recuado, a necessidade de um líder acaba por ser a principal nota a sublinhar do comportamento coletivo. Onde antes houve Luisão, hoje divide-se a expetativa entre Jardel e Rúben Dias, com o jovem português a assumir, a maior parte do tempo, essa responsabilidade, perante as lesões e indisponibilidades do seu companheiro de setor. É o primeiro micro-processo individual dentro do processo coletivo de Rui Vitória. Anotam-se, ainda, os casos de André Almeida e Grimaldo, peças essenciais no encerrar dos flancos, algo que o português acaba por assumir com menos erros do que o espanhol, também pela natureza da participação de cada um no processo ofensivo.

Ao falar de micro-processo dentro do processo mais global, sugiro que parte do trabalho do treinador tem passado por perspetivar como cada jogador cresce para poder dar respostas às necessidades da equipa. No setor intermédio, Fejsa é o elemento-chave da estrutura, mantendo qualidades na forma como policia o território, mas acabando por se ver exposto, quer no 4-4-2, quer no 4-3-3, à forma como os seus colegas se incorporam no terreno de jogo. Isto porque os problemas da equipa do Benfica têm passado, também, pelo terceiro elemento do meio-campo e a sua conjugação com Pizzi.

Na teoria, o internacional português acaba por ter uma missão mais importante com bola, sobrando para a opção entre Gabriel e Gedson Fernandes uma maior dedicação defensiva. Mas nem sempre tem sido esse o caso, por algumas dificuldades posicionais que Gedson ainda apresenta. Uma vez mais, o micro-processo. A evolução individual de Gedson, a caminho da maturidade, e a incorporação de Gabriel no novo coletivo acabam por ter peso na forma como a equipa se consegue apresentar, incorporando assim debilidades que são individuais a um processamento coletivo que lhes está demasiado exposto.

Mas a questão mais assombrosa do atual Benfica passará pelo seu ataque. A felicidade com que foi recebido o reforço deste setor, com a chegada de Castillo e de Ferreyra, acabou por ser derrubada pela onda da sua dificuldade de adaptação ao que era proposto pela equipa neste início de temporada – e, se em parágrafos anteriores, revelámos micro-processos que se demoram, neste caso, podemos falar de micro-processos que estão a falhar. Por isso mesmo, as reabilitações de Seferovic, de dispensável a titular, e de Jonas, de lesionado para essencial (que nunca deixou de ser, mesmo na ausência) acabam por marcar uma época na forma como se entende o futebol do Benfica. Sim, é verdade, tudo mudou para continuar na mesma. Saca-se do lenço branco porque, para a maioria, tal coisa é impossível de aceitar.

Decisão nas mãos de Zeus, o deus de todas as coisas

A continuidade do Benfica nesta Liga dos Campeões só poderá ficar mais fácil se o AEK de Atenas vencer o Ajax – sim, a equipa grega que só tem derrotas bater o conjunto de jovens holandeses que tem feito as delícias dos prospetores de novidades na competição. Uma tarefa de Zeus. Mas, ao mesmo tempo, uma realidade que também lhe poderá complicar as contas no acesso à Liga Europa. O que mais interessará a Rui Vitória, neste momento, é, ainda assim, pensar como pode vencer o Bayern em Munique. Na sua primeira temporada na Luz, uma derrota pela margem mínima na Allianz Arena e um empate a dois golos em casa, valeram-lhe a eliminação nos quartos-de-final, mas reforçaram o seu estatuto de aposta certa para conduzir o Benfica ao título. Dois anos e meio depois a história é bem diferente, também para o conjunto bávaro.

Atualmente posicionados no 5º lugar da Bundesliga, à equipa orientada por Niko Kovac aplicam-se muitas das perguntas que se fazem em relação à equipa do Benfica. Um treinador que chegou, não tanto pelo modelo de jogo que apresentava no seu anterior clube, mas por ser um homem da casa e, à partida, com capacidade de entendimento com um balneário que, por estatuto, se vê acima de qualquer técnico. Uma equipa que, nesta primeira fase da temporada, sente dificuldades em conjugar a herança trazida do passado com a procura de respostas novas que Kovac sugere.

Um acumular de erros que têm como consequência maus resultados e que, em fim de linha, acabam mesmo por colocar em causa a posição do croata, algo que poderá acontecer nesta terça-feira, como assumiu o próprio presidente Uli Hoeness, caso à derrota com o Borussia Dortmund e ao empate, em tempo de descontos, com o Fortuna Dusseldorf, se some novo resultado que não garanta o primeiro lugar do Grupo E.

Será, no entanto, o confronto de um Benfica paralisado nas decisões da sua administração e na evolução da sua equipa, perante um Bayern de Munique que acaba por ser, no contexto, o anti-Bartleby do futebol europeu, pela constante necessidade de mudar de filosofia de jogo, mesmo sendo dominador do campeonato alemão, ou por exemplos como a mudança de treinador à sexta jornada, na época passada. Essa mobilidade e assertividade na decisão podem permitir, também, uma equipa mais afirmativa no momento de entrar em campo, perante um Benfica que, abdicando do sonho dos oitavos-de-final, se poderá dar por satisfeito com o garantir de continuidade na Liga Europa. Ou seja, forçado a fazer alguma coisa, confiar na decisão divina quase soa a solução.

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