[Artigos do Expresso] FC Porto, Schalke 04 e a teoria da evolução das espécies

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em novembro de 2018.]

A forma como evoluem as espécies é a forma como evolui uma equipa de futebol. A conjugação de forças individuais não se reflete, no imediato, no coletivo, se este não estiver preparado para as acomodar. Com Sérgio Conceição como acelerador de tendências dentro do espectro FC Porto, conjugando passado e futuro, arriscando soluções a partir dos jogadores que lhe são apresentados para trabalhar, os azuis e brancos estão apenas a um ponto de voltar a atingir os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, superando um grupo que o coloca, sobretudo na comparação com o Schalke 04, em frente do próprio espelho.

A equipa da cidade mágica de Gelsenkirchen, cheia de significado para os adeptos portistas, testa a sua própria teoria da evolução, experimentando, na segunda temporada de Domenico Tedesco, as limitações de um plano que pretende crescer sem se demonstrar capaz de sair do lugar tático onde se havia sentado. Neste confronto, mais forte parece sair a imagem de um Sérgio Conceição que sabe responder a cada uma das perguntas que lhe são feitas, seja pela competição, pelo adversário ou pelos seus próprios jogadores. É a evolução, à vista dos nossos olhos, a experimentar-se no confronto entre FC Porto e Schalke 04.

Porque eu, se é Alemanha, estudo Sérgio Conceição

Antes de Sérgio Conceição, só Jesualdo Ferreira conseguiu, em épocas consecutivas, levar a equipa azul e branca para lá da fase de grupos da Liga dos Campeões. À equipa portista falta, agora, um ponto, para o confirmar, mas a sua prestação na atual edição da prova confirma o crescimento e aprendizagem possível de recolher na temporada passada. Se no que toca à composição do Grupo, o FC Porto já encontrara um quarteto onde todos partiam, de certa maneira, em condições semelhantes, o percurso deste ano foi bem diferente. Ao fim de quatro encontros, a equipa azul e branca não sofreu qualquer derrota, apenas dispensando pontos na jornada inaugural, perante este mesmo Schalke que recebe agora no Dragão.

Em três encontros frente a equipas germânicas na Liga dos Campeões, o FC Porto de Sérgio Conceição marcou sempre e sofreu sempre, somando uma vitória caseira e uma derrota frente ao RB Leipzig, para lá do empate em Gelsenkirchen já esta temporada. Mas aquilo que, no ano passado, soava ainda a descontrolo tático na passagem do nível nacional para o nível europeu, com derrotas frente aos alemães de leste e ao Besiktas, este ano soa, já, a domínio e controlo de um contexto que a equipa reconhece, entende e sabe como lidar. O FC Porto entra como favorito, não só para garantir o apuramento e o primeiro lugar, como para vencer um Schalke 04 que parece estar bastante longe de ser uma equipa com capacidade para ferir o campeão português.

O que faz falta é agitar a malta, o que faz falta é libertar a malta

Parte do sucesso de Sérgio Conceição tem passado pela forma como integra jogadores que, à partida, parecem casos arrumados de evolução dentro da equipa. Esta história começa com a forma como Marega se foi transformando em peça essencial na temporada passada, tal como Sérgio Oliveira vestiu a pele de solução para um meio-campo que precisava de respostas, exatamente, nessa caminhada europeia que só viria a terminar perante o Liverpool. Esta temporada, Óliver Torres poderá ser o caso que maior espanto lança, na forma de um jogador que todos diziam estar longe das delimitações ideológicas do jogo de Sérgio Conceição, para que, logo, se percebesse que a revolução que o técnico azul e branco sugere a cada um dos elementos do seu plantel também poderia tocar o espanhol. Mais recentemente, o encontrar em Jesús Corona uma opção para a faixa lateral direita da sua defesa parece ser mais um trabalho de remodelação em curso.

Frente ao Schalke 04, boa parte destas transformações continuarão a render à equipa do FC Porto. Se o quinteto defensivo tem tido presença garantida em todas as partidas, com a melhor defesa da Liga portuguesa a sofrer, apenas, três golos na fase de grupos da Liga dos Campeões, até agora, daí para a frente o pensamento coletivo tem encontrado resposta na chamada de diferentes jogadores que, através das suas características, assumem um reforço da capacidade para alcançar o sucesso. Já nas duas primeiras jornadas, em Gelsenkirchen e na receção ao Galatasaray, o entendimento e troca de papéis entre Otávio e Herrera sugeriam uma evolução na forma de entender a “casa 8” da equipa, com Danilo Pereira a reforçar-se como elemento que também é aposta constante no meio-campo. Mas essa leitura alastrou-se com a chegada de Óliver Torres à titularidade, encontrando no espanhol o perfume com bola que procurava, sem perder outras capacidades coletivas, apresentando-se, com Herrera e por causa de Herrera, muito mais subido o bloco no momento da perda da bola, outra das situações que valoriza, hoje, o comportamento da equipa neste nível competitivo.

Tedesco como bom exemplo dos limites da evolução

Na temporada passada, o segundo lugar do Schalke 04 na Bundesliga terá sido a confluência de uma série de fatores, vários deles externos, sobre o momento dos seus adversários. Mas, com uma capacidade defensiva muito superior aos restantes candidatos ao lugar de delfim do Bayern de Munique, alicerçada na capacidade de pressionar alto e fechar bem o seu bloco nos momentos de penetração dos rivais, a equipa de Domenico Tedesco soube entender a melhor forma de condicionar o contexto aos seus objetivos. Na nova temporada, perante a saída de dois dos esteios do meio-campo, Leon Goretzka e Max Meyer, para além do jovem defesa Thilo Kehrer, bem como o decréscimo de rendimento de peças fundamentais como Naldo, a equipa perdeu boa parte da sua base. Os sinais de crise também se revelaram cedo porque, este ano, fruto do sucesso passado, a equipa sentiu-se obrigada a comportar-se como um conjunto com maior proatividade no jogo, algo que parece estar longe de poder assumir.

Dos sinais deixados até ao presente momento da temporada, este Schalke sente as limitações que a evolução lhe propõe. A equipa aposta bastante menos na subida do seu bloco para uma pressão alta, tendo em conta a maneira como, coletivamente, não se apresenta coesa, o que não deixa de ser uma tentação que, por outro lado, acaba por provocar vários momentos de desmobilização na organização defensiva. Este é um Schalke que não cumpre as promessas que deixava no ar, na época passada, tendo deixado de ser o pior ataque da Bundesliga apenas esta semana, com cinco golos marcados frente a um frágil Nuremberga. As coisas complicam-se ainda mais porque, na viagem para Portugal, não poderá contar com Mark Uth e Breel Embolo, duas das mais fortes opções ofensivas. Uma oportunidade que o FC Porto de Sérgio Conceição saberá aproveitar. Porque na forma como evoluem as duas equipas, é da equipa portuguesa o melhor entendimento de como crescer e transformar-se, dentro de um espectro de ideias que não têm medo de se expor aos condicionamentos que a competição lhe impõe. Ou de como fazer as coisas como elas precisam de ser feitas.

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