[Artigos do Expresso] LaLiga e a arte de bem cavalgar em toda a sela

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em novembro de 2018.]

Em nenhum outro campeonato como em LaLiga se têm definido as balizas da discussão sobre a evolução do jogo de futebol. Um campeonato que teve Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, Pep Guardiola e José Mourinho. Dos quatro, sobra o astro argentino, as saudades do internacional português e o trabalho sobre as ideias dos dois treinadores que agora vivem em Manchester.

É, exatamente, nesse aprofundamento daquilo que significam as diferentes posturas de encarar um jogo que LaLiga acaba por ser campo fértil para o aparecimento de uma releitura histórica desta discussão. Esqueçam o debate de “Simeones” e “Guardiolas”. O Atlético de Madrid – FC Barcelona deste sábado merece uma conversa bem mais descomprometida com lados que tendem a encontrar-se no meio-campo, à procura de entender o que fazer com os mistérios que a bola sugere.

De ser sem medo

Ao fim de doze semanas, LaLiga sugere um equilíbrio que parece apontar em caminhos contrários à realidade de um futebol europeu cada vez mais demarcado entre “Superligas” e o resto. Sendo certo que Espanha sempre foi território para equipas descomplexadas na forma de atuar em campo, os momentos de crise e indefinição que tocam os conjuntos mais apetrechados acabaram por abrir porta para uma revolução dos pequenos que acaba por colocar uma série de equipas inesperadas na luta do topo da tabela. Um equilíbrio montado no coletivo e no aproveitamento das forças potenciais de conjuntos que, na capacidade de apresentar estrelas e grandes destaques individuais, se vêem mais limitadas que as suas contrapartes.

Há não muitos anos atrás, visitar Camp Nou ou o Santiago Bernabéu parecia ser garantia de goleada. Várias equipas entravam como que derrotadas, apenas na esperança de segurar o nulo por mais minutos do que o visitante anterior. Esta temporada, o Barcelona já perdeu pontos em casa por três vezes, o Real Madrid duas, com sete e seis jogos disputados, respetivamente. A única equipa de LaLiga que mantém um aproveitamento total dos jogos em casa é o Espanyol, orientado por Rubi, uma das surpresas deste início de temporada.

Aquilo que a “outra equipa” de Barcelona apresenta como característica é, exatamente, a sua capacidade para ultrapassar a discussão do futebol atual, entre a posse e a reatividade, para se transformar num híbrido competidor que tanto encontra conforto no momento da posse, destacando peças como Mário Hermoso ou Marc Roca, dois jovens que, prometo-vos, darão muito que falar num futuro próximo, como na capacidade para aparecer na profundidade através dos atléticos Borja Iglésias e Leo Baptistão.

Este hibridismo é, aliás, a nota que une vários dos primeiros classificados da tabela. Tanto o Sevilla, com Éver Banega a marcar compasso e André Silva a marcar golos, como o Atlético de Madrid, que nos dias de hoje envolve muito mais pensamento e complexidade de construção do que a mera citação do nome de “Diego Simeone” pode deixar a entender, são fiéis ocupantes de lugares no pódio, na perseguição ao Barcelona.

Mas a discussão, em LaLiga, passa ainda por equipas cujas expetativas apontam para lugares bem mais abaixo daquele que ocupam, como o Alavés ou o Valladolid, confortáveis na criação de condições para marcar nas costas de adversários com maior proatividade na construção do jogo. Ao mesmo tempo, não pode excluir do radar da atenção equipas como o Real Bétis, que vive na segunda metade da tabela, também muito confortável na ideia de ser das equipas com mais posse de bola do campeonato, e que acabou por marcar um terço dos seus 12 golos nesta competição na recente visita a Camp Nou. Nada disto é fado.

Ficou mesmo chato ser moderno

É muito provável que nem Diego Simeone, nem Pep Guardiola, alguma vez tenham gostado de ver o jogo como um território de debate entre perspetivas contrárias sobre aquilo que é o futebol. O seu caminho sempre foi outro. Se há coisa que ambos sempre sublinharam na elaboração dos seus projetos foi a necessidade de construção de comunidade em redor de uma identidade de clube, algo que vive acima do modelo de jogo adoptado. Hoje em dia, Atlético de Madrid e FC Barcelona são equipas que herdam esse pensamento, abstraindo-se, quer da purificação de modelos, quer de quem de forma leviana encara a estratégia como o elemento fulcral do jogo. Definitivamente, os modernos não terão como sobreviver num lugar chamado futuro.

Os sete pontos perdidos pelo Atlético de Madrid nas primeiras quatro jornadas de LaLiga pesam na análise de momento que se pode fazer aos colchoneros, que, no global, têm encontrado nos jogos fora de casa o desafio mais difícil de ter resposta. O Atlético é uma equipa em evolução, trancada entre a incapacidade de Diego Costa marcar golos, somando já 18 jogos sem marcar em LaLiga, e a necessidade de Diego Simeone cultivar modificações na maneira como a sua equipa se deve comportar nos diferentes momentos competitivos a que se apresenta.

Sendo um conjunto que vive no topo de LaLiga, mas se comporta, ainda, como “underdog” nas competições europeias, sente, como nenhum outro, a necessidade de cultivar respostas híbridas aos problemas do jogo. A equipa acrescentou o pivô de meio-campo, Rodri, como novo farol para a posse de bola da equipa, recorrendo também a Thomas Lemar como desequilibrador a partir da faixa, algo que continua a viver em tensão com a possibilidade de chamar, ora Koke, ora Saúl, para cumprir de forma exímia para com as necessidades da equipa em qualquer posição do terreno.

O FC Barcelona teve a sua fase negra numa sucessão de quatro jornadas de LaLiga, entre final de setembro e início de outubro, quando cedeu três empates e sofreu uma derrota em Leganés. Mas a equipa de Ernesto Valverde tanto é o conjunto que brilha em Wembley, frente ao Tottenham, em jogo da Liga dos Campeões, ou goleia de maneira contundente o Real Madrid de Julen Lopetegui (o que precipitou o despedimento do técnico do seu maior rival), como é o conjunto que tropeça num Bétis que assume a luta pela posse da bola em Camp Nou e marca por quatro vezes num jogo – o último disputado pela equipa catalã antes da paragem internacional para jogos de seleções.

O Barcelona continua a ter como casa identitária a capacidade de Lionel Messi mexer de forma abrangente nos acontecimentos de um jogo, gozando ainda da finalização de um Luís Suárez que parece sempre assumir comando quando a equipa precisa. Mas, também no sector intermediário da equipa se vive esta discussão de híbridos em detrimentos de passados gloriosos. A chegada de Arthur Melo promete o renascimento de uma ideia “Xaviesca” no Barcelona da atualidade, mas a forma como essa busca desprotege e expõe Sergi Busquets, abre espaço para, ao mesmo tempo, um Arturo Vidal, também recém-chegado, entre na equação da busca de um papel adequado para o terceiro passageiro do meio-campo daqueles que se auto-intitulam como “mais do que um clube”.

Em ambas as equipas, aquilo que se poderá aproveitar para a discussão da evolução do jogo, acaba por ser como as visões puristas pouco dizem a quem tem de sobreviver no alto rendimento. Quer no Atlético, quer no Barcelona, se explora a multiplicação das ideias que o jogo proporciona, em busca de uma preparação para todo o diferencial de situações que as grandes competições proporcionam. Neste terreno de entendimento, as crises funcionam, ainda, como elemento de questionamento e acelerador de uma produtividade que nasce da dúvida. E, quem dúvida, sempre alcança.

Se o amor é sério, leva-me a dançar primeiro

É num contexto de transformação que dois dos jovens talentos recentemente saídos da Liga portuguesa procuram uma nova pele no futebol espanhol. Nélson Semedo, saído do Benfica, para a Catalunha. Gelson Martins, do Sporting, para as riscas brancas e vermelhas de um dos históricos de Madrid. Curioso como a contratação de cada um deles é também um forte contributo para esta discussão sobre o desfazer de verdades e garantias sobre o jogo, tornando-o mais consistente na forma como se o tenta abordar a partir da contradição.

Nélson Semedo funcionava, na Luz, como um dínamo ofensivo a partir da faixa lateral direita, com largas capacidades de aparecer a jogar no corredor central, mas sobretudo explorado no lado físico e disruptor do seu jogo. Em Barcelona, aprende a dançar segundo outro diapasão, acabando por ser um dos jogadores que procura, sempre que está em campo, partir da garantia do sucesso defensivo, perdendo menos bola, mas também arriscando muito menos. Ao Nélson não se roubou o brilho, apenas se tenta dar uma nova dimensão a um jogador que, reconhecidamente, tem crédito na cidade condal. Mas é a própria indefinição de como será o Barcelona de amanhã que tem levado a evolução de Nélson a ser mais silenciosa do que se poderia desejar.

Gelson Semedo começou, em Alvalade, por trazer uma dimensão adolescente e de rua ao jogo do Sporting, mas os seus anos com Jorge Jesus passaram, já, por ser, um intensivo curso de como dominar os cavalos selvagens que se adivinhavam do seu jogo. Também por isso, ao longo da última temporada, ao mesmo tempo que crescia a sua capacidade de se enquadrar no coletivo, parecia decrescer a dimensão desequilibrante do seu drible, ao transformar-se num elemento menos errático. Ao mesmo tempo que essa evolução de Gelson terá atraído a atenção do Atlético, o jovem português chegou ao clube num momento em que acaba por ser a “peça do meio”, entre os mais ofensivos Ángel Correa e Thomas Lemar e as opções mais conservadoras de colocar Koke ou Saúl Ñíguez a partir da faixa. A forma como Gelson acabe por cumprir com as suas aulas de dança pelo professor Simeone ditarão do seu sucesso com a camisola do clube de Madrid.

Numa LaLiga onde, sem receios, se assume o coletivo como resposta aos problemas lançados ao jogo pela competição, onde se vive em constante busca de melhoria dos modelos através da contaminação de ideias que, mais do que contraditórias, somam à capacidade de dar resposta, onde jovens estrelas continuam a ter o melhor campo para aprender a arte de bem cavalgar em toda a sela.

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