[Artigos do Expresso] A universalidade do talento: questões de identidade no clássico Sporting – Porto

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em janeiro de 2019.]

Nunca atuaram no clube que vão ter como antagonista no próximo sábado, mas pelos seus trajetos, Bruno Fernandes e Danilo Pereira encaixariam como uma luva na identidade de jogo do seu rival. Um nasceu nos arredores do Porto e passou por Itália onde conjugou a rebeldia do seu talento com um reconhecimento tático tão alargado que, no atual momento do Sporting, acaba por carregar o fardo de ser a melhor opção para duas posições diferentes. Outro formou-se nos arredores de Lisboa e uma passagem pela Holanda despertou a sua importância, confirmada, posteriormente no FC Porto, onde vem sendo peça central dos vários treinadores que passaram pela equipa nas últimas quatro épocas.

A própria forma como se denotam marcas de identidade em cada clube vive um processo dinâmico. Sérgio Conceição, como homem da casa, tem gerido de forma eficiente o que é herança e memória do FC Porto na maneira como desenvolve o seu modelo de jogo. Nesse território, as marcas de jogo de Bruno Fernandes poderiam bem funcionar como um elemento de eclosão de uma certa mundivisão dos subúrbios do Porto. E, no entanto, parte daquilo que é característico do jogo azul e branco se funda na presença mais regrada e racional que o jogo de Danilo Pereira confere. Um tipo de jogador que Marcel Keizer ainda procura para completar o seu leque de opções de meio-campo num Sporting em reconstrução. Dentro e fora do campo.

Uma coisa é ser conhecido, outra é ser respeitado

Desde muito cedo que as expetativas sobre Danilo Pereira eram elevadas. Descoberto no Arsenal 72, passando pelo Estoril Praia e culminando nos juniores do Benfica, a maturidade do seu jogo sempre o fez ser distinguido nas equipas por onde passou. A assinatura de contrato com o Parma, na chegada à idade sénior, ameaçou interromper essa evolução. Foi o Mundial de Sub-20, em 2011, e o empréstimo ao Roda, da principal liga holandesa, que acabou por resgatar Danilo para uma continuidade no seu crescimento. Duas épocas no Marítimo e a chegada ao FC Porto confirmaram tudo aquilo que se esperava do jogador. E num contexto em que a sua presença passou a ser respeitada e exigida.

Não deixa de ser curioso como num FC Porto tão identitário no seu discurso presente, se sente a ausência de jogadores formados em casa. Nenhum dos elementos do plantel que passaram pelos escalões de formação têm muitos minutos na equipa de Sérgio Conceição, no fundo, o propulsor dessa ideia. É com Sérgio Conceição que o conjunto azul e branco resgata uma identidade de jogo que se associa à memória dos seus adeptos. Depois de uma experiência falhada, no que toca a títulos, com Julen Lopetegui e de uma tentativa de transformação de uma abordagem baseada no jogo para uma abordagem baseada no discurso com Nuno Espírito Santo, acaba por ser o atual treinador o homem mais capaz de sintetizar herança e contemporaneidade no relvado do Dragão.

Danilo Pereira é, mesmo, a ponta de um icebergue bastante mais complexo do que uma leitura simplista pode indicar. O FC Porto vive muito do risco da sua proposta ofensiva, mas aperfeiçoa a gestão do risco com a presença de um jogador como o camisola 22. Ao fim de 16 jornadas é ele o médio com melhor percentagem de sucesso nos duelos defensivos (41.1%, segundo dados do Wyscout), mantendo também elevado rendimento na percentagem de sucesso de duelos aéreos (65.4%, apenas superado, por décimas, por Loum do Moreirense). Uma peça que, no Sporting de Marcel Keizer, está ainda ausente da equação, não tendo em Gudelj um intérprete fiel das características da posição 6.

A viver a Bellevue quando digo “sei lá, c’est la vie”

Nascido na Maia, Bruno Fernandes fez o seu percurso formativo entre o Infesta, o Pasteleira e o Boavista, clube que abandonou aos 18 anos para se juntar ao Novara de Itália. Sempre em equipas dos arredores ou da cidade do Porto, o médio criativo detém, no seu estilo e no seu falar, todas as marcas do miúdo da Invicta que enfrenta, confiançudo, cada embate com um adversário. De certa maneira, as sua características colam na capacidade de atração que a escola do Sporting sempre deteve. De Futre a Gelson Martins, passando por Luís Figo, Cristiano Ronaldo ou Ricardo Quaresma, foi sempre na conjugação entre talento e confiança que os leões montaram base de sucesso.

O crescimento tático de Bruno Fernandes expõe-no, no entanto, à transformação em homem providencial de um Sporting em crise. Crise transformadora, é certo, acelerada pela revolução imposta com a chegada de Marcel Keizer ao comando da equipa. Com Jorge Jesus, o camisola 8 dos verde e brancos encontrou como segundo avançado os seus melhores momentos, vindo a recuar nas suas funções com José Peseiro e, sobretudo, com o atual técnico, até acabar a ser utilizado, na segunda parte da partida frente ao Tondela, como elemento mais recuado de uma dupla de meio-campo em 4-4-2. Quanto mais longe da baliza, menos eficiente parece ser Bruno Fernandes, mas as lacunas do plantel sportinguista vão sendo, circunstancialmente, resolvidas pela abrangência das suas capacidades.

Bruno Fernandes é o jogador que mais remata na Liga NOS, sendo, para além disso, o segundo jogador que, em média, mais passes faz na equipa no Sporting, logo atrás de Mathieu, algo que se acentuou bastante com a mudança de treinador. De uma média de passes por jogo de 38.3 em oito partidas com José Peseiro, o médio conta com uma média de 62.1 contabilizando as sete partidas realizadas com Tiago Fernandes e Marcel Keizer no comando. É ele o ilustre que comanda o jogo leonino, demarcando fronteiras de rendimento quando aparece no encontro com liberdade para criar, em comparação com partidas onde, manietado pelo adversário, a sua expressão quebra.

A universalidade do talento

A transformação na identidade de jogo que Marcel Keizer pretende impor no Sporting, e da qual se sentiram marcas no imediato da sua chegada, vem demonstrando estar muito exposta à capacidade estratégica dos seus adversários. José Mota, Costinha ou Jorge Silas criaram dificuldades momentâneas ao Sporting, mesmo saindo derrotados de Alvalade, Luís Castro e Pepa, jogando em casa, foram mais felizes no resultado, igualando sucesso estratégico. Bruno Fernandes é parte do denominador comum na capacidade de reação da equipa leonina. Da mesma forma que assentaria como uma luva no FC Porto de Sérgio Conceição, mais defendido pela presença de um Danilo Pereira, que é o tipo de jogador que o Sporting procura.

Os dois jogadores confirmam, exemplarmente, que no atual momento de ambas as equipas, as questões de identidade, bem definidas, não escondem a universalidade do talento como parte da solução para os problemas que cada treinador tem que resolver. Sporting e FC Porto chegam ao clássico de Alvalade com duas filosofias distintas e em estados de evolução diferentes. Danilo Pereira é o garante de que, do lado de Sérgio Conceição, o risco de um futebol vertical e agressivo está coberto pelo investimento no trabalho de organização defensiva. Bruno Fernandes, do lado de Marcel Keizer, poderá vir a ser o elemento diferenciador e definidor de uma escola que, ao mesmo tempo que se tenta impor, não pode deixar de tentar resolver os problemas que encontrou no momento da sua chegada.

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