[Artigos do Expresso] Porque esta Taça da Liga nos dá gozo apesar das dúvidas que temos sobre o nosso futebol

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em janeiro de 2019.]

Meias-finais da Taça da Liga e da Taça de Portugal com os mesmos intervenientes, FC Porto, Benfica, Braga e Sporting, fizeram soar os alarmes: será que a competitividade do futebol português passa pelas ruas da amargura, comendo as passas do Algarve? O mundo gira e o futebol português segue atrás, mas isso não nos deve desviar do gozo que dá ver as quatro equipas mais fortes do campeonato português a disputar todas as provas do calendário até ao final. Onde se fala de entretenimento, de finanças e de uma crise que seguirá depois do intervalo para se ver o futebol.

Entretenimento é rei

O que esperamos da Final Four da Taça da Liga não é aquilo que nos ofereceu uma meia-final entre o Vitória de Setúbal e a União Oliveirense, na temporada passada, em Braga, jogada frente a cerca de 1.600 espetadores. Não estando em causa a capacidade de ambos os conjuntos para atingirem essa fase da prova, nem desdenhando o facto do Vitória ter deixado, pelo caminho, bracarenses e benfiquistas, num momento que há-de ter sido entretido para muitos dos adeptos rivais, a verdade é que as grandes competições anseiam por grandes jogos nas suas fases decisivas. Também por isso, o interesse na Final Four da Taça da Liga e nas meias-finais da Taça de Portugal será, esta época, superior a anos anteriores.

É preciso recuar até 2009/10 para ver os três grandes na meia-final da Taça da Liga. Nessa temporada, o Benfica eliminou o Sporting e acabou por vencer a prova, batendo o FC Porto na final, isto depois dos portistas terem deixado pelo caminho a Académica. Nas últimas oito edições, o Sporting falhou a meia-final por seis vezes, o Porto por três vezes e o Benfica uma vez. Com o entretenimento a reinar, a necessidade de jogos grandes para alimentar o cartaz está no topo das exigências de quem pensa “Superligas Europeias” ou outras novas competições. O próprio formato desta Taça da Liga coloca os quatro primeiros classificados da temporada anterior em posição muito favorável para chegar à Final Four. Alguma vez teria que acontecer.

Mas a principal razão pela qual acaba por acontecer é a pressão dos resultados ditada por fatores externos a estas provas. Sporting e Benfica já mudaram, ambos, de treinador, ainda que se mantenham na disputa por títulos em todas as frentes. De certa maneira, foram fragilidades anteriores, e não a realidade competitiva, a ditar as mexidas nas lideranças das equipas técnicas. Sendo bom lembrar que José Peseiro acabou mesmo demitido após uma derrota, frente ao Estoril, na fase de grupos da Taça da Liga, acaba por ser natural ver os técnicos destas equipas procurarem os seus onzes mais fortes para chegar longe em todas as competições. Ao Braga, para lá do facto de jogar a Final Four em casa (e que desilusão, o ano passado, não a ter disputado), junta-se o falhanço europeu que lhe deu espaço para maior expressão nas provas nacionais.

O mesmo lado da moeda

A conversa da competitividade está inquinada pela ideia de que um campeonato competitivo é um onde todos os seus concorrentes têm a mesma probabilidade de o vencer no final da prova. No entanto, aplicação mais habitual do conceito de competitividade no desporto passa, na maior parte dos exemplos das grandes ligas europeias, não na diferenciação de vencedores finais das provas, mas pelo aumento do grau de dificuldade que as melhores equipas acabam por experienciar. Não espantará, por isso, que de uma forma geral as grandes equipas europeias procurem a competitividade na Liga dos Campeões, observando-se uma seleção natural de pequenas comunidades de equipas que competem entre si nas provas nacionais. Em Espanha, os principais títulos vão sendo dominados por Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid. Em Inglaterra, Manchester United, Chelsea, Arsenal e Manchester City quase que apagam a concorrência no topo da Premier League. Em Itália, a Juventus. Em França, o Paris Saint-Germain. Na Alemanha, o Bayern. Vencedores crónicos.

Em Portugal, FC Porto e Benfica encontram, ao longo das últimas temporadas, Sporting e Braga como opositores. Mesmo que não atinjam o título nacional, apresentam como mais complexo o caminho a fazer-se para o atingir. Mas é a realidade económica que vai transmutando, de forma intensa, a concorrência no futebol português. Os grandes portugueses têm, hoje em dia, menos capacidade para competir com os grandes europeus, por localização, por falta de desenvolvimento de ferramentas de scouting profissionalizadas, por ausência de um pensamento de união na Liga (que é a única competição de topo a nível europeu sem os direitos televisivos, a principal origem dos lucros das equipas de futebol, negociados em bloco). A prova dos nove acaba por se focar, cada vez mais, na dimensão nacional (o aumento do ruído em volta de temas extra-futebol demonstra bem como é cada vez menos importante, para os próprios clubes, que se fale do jogo e da sua qualidade), onde se acaba por mimificar a realidade europeia em ponto pequeno.

Ao longo das últimas cinco temporadas, o valor de mercado dos plantéis dos três grandes tem vindo, sempre, a crescer, segundo os dados do Transfermarkt. Por sua vez, a média das restantes quinze equipas da Liga NOS mantém-se, à parte pequenas variáveis, estável, o que acaba por indicar um cada vez maior afastamento entre a valorização das diferentes equipas. Lembre-se, até, que o Sporting de Braga acompanha a evolução dos três grandes, aproximando-se passo a passo para ser um quarto grande por comparação com os restantes competidores. É na incapacidade de crescimento financeiro das equipas de segunda linha na Liga portuguesa que reside uma das grandes razões deste fosso crescente. As saídas para a Turquia de Marcão, do Desp. Chaves, e de Aberhoun, do Moreirense, para a Bélgica, dos boavisteiros Gonçalo Cardoso e David Simão, e para o México, de Stephen Eustáquio, para além da provável saída de Nakajima para o Qatar, marcam bem a realidade de um mercado de inverno que torna a Liga portuguesa mais pobre em estrelas entre os clubes pequenos.

Queremos bola em #demasia

O Moreirense, vencedor da Taça da Liga em 2016/17, e o Desportivo das Aves, vencedor da Taça de Portugal em 2017/18, são exemplos recentes de vitórias surpreendentes nas taças nacionais. Mas, da mesma forma que esta temporada temos os quatro grandes a ocupar todos os lugares nas meias-finais, também essas vitórias acabaram por ser mais fruto de uma oportunidade passageira, do que de um plano de crescimento e competitividade de algum desses clubes ou da Liga portuguesa. Acaba por ser essa navegação à vista o grande elefante na sala que se continua a colocar de parte no momento da transformação das discussões em tomadas de decisão. O próprio plano existente de clubes que procuram sustentabilidade em Portugal acaba por estar mais focado na compra e venda de jogadores, do que propriamente na real possibilidade de passar a competir com os quatro do topo, à parte do Vitória de Guimarães, que por história, massa associativa e contexto atual aparenta condições para poder fazer esse caminho.

O mundo vai continuar a girar, com muita gente à espera que novos acordos na Liga portuguesa permitam a revisão de princípios básicos que permitam que as várias competitividades entre equipas, na corrida ao título, no acesso à Europa, na manutenção, mas também na forma como se vive num mundo bastante globalizado e onde a luta pelo talento é realizada em campo aberto, com competições de todo o mundo, sejam revistas em positiva para os nossos clubes. Até lá, haja grandes jogos para nos distraírem dos grandes ruídos fora de campo. Porque sempre que FC Porto, Benfica, Braga e Sporting jogarem entre si dentro de campo, estamos perante janelas de 90 minutos onde o que nos importa é o futebol feito de organização no espaço e pontapé na bola. As diferentes caras da crise regressarão depois do intervalo.

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