[Artigos do Expresso] Alguns beijos na boca e as promessas do Lageboratório

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em fevereiro de 2019.]

Anunciaram e garantiram que o mundo ia acabar para o Sporting, depois de começar a temporada como um puzzle cujas as peças se espalharam pelo chão da sala, e para o Benfica que, ao longo da primeira volta, parecia ter caído de joelhos perante a possibilidade cada vez mais longínqua de apresentar um futebol atraente. No entanto, os verde e brancos já foram os principais perseguidores do líder do campeonato, a equipa que praticava a melhor ideia de jogo do campeonato e o confronto com a realidade que, ainda assim, não os impediu de ganhar a Taça da Liga. Enquanto isso, o Benfica renasce das cinzas sob o signo de São João Félix e despeja parte da folha salarial pelo mercado de janeiro abaixo.

Tudo isto antecedendo uma semana com dois dérbis em agenda. O primeiro deles, a contar para a Liga NOS, com o Benfica a olhar para o primeiro lugar, a cinco pontos de distância que rimam com esperança, e o Sporting a olhar para o lugar do Benfica, também a cinco pontos de distância, com Braga pelo meio, a atrapalhar a necessidade de um apuramento para a Liga dos Campeões. Sim, ainda estão aqui, os dois velhos rivais, tendo-se um ao outro para animar um fim-de-semana de tempestade. De que cor se pintará o alerta, em Alvalade, no final da tarde de domingo?

Beijando a boca de quem não devia

Sporting, época 2018/19. Um verão quente de promessas de saídas, rescisões e um Sousa Cintra, visão de passado de gloriosas inglórias, a arrumar a casa com José Peseiro ao leme. As promessas de fim de mundo foram tantas que qualquer raiozinho de sol parecia dar a entender a salvação. Frederico Varandas conquistou a presidência, José Peseiro deixou a equipa a dois pontos do primeiro lugar da Liga NOS e uma Taça da Liga em risco, Marcel Keizer prometeu o encontro do santo graal do futebol bonito. Tudo passa. Tudo passa, porque dos paraísos prometidos restam agora dez pontos de distância para o FC Porto e uma Taça da Liga conquistada.

A Marcel Keizer, que esta semana conquistou o seu primeiro título com a equipa leonina, aparecendo, de seguida, em Setúbal, para mostrar um onze desconcertado a ceder pontos a um Vitória acabado de mudar de treinador, pouco mais sobrará do que enfrentar, olhos nos olhos, o Benfica. Os sinais de decadência física da equipa do Sporting seguem de braço dado com os sinais de impossibilidade de resolução de uma ideia de jogo que possa aproveitar as forças do plantel verde e branco. Mathieu, o homem da linha defensiva que oferece qualidade para sair com bola controlada, deu o que tinha e não tinha até ao intervalo do jogo frente ao SC Braga. Bruno Fernandes apaga fogos nos dois topos do campo. Nani esfuma-se com a mesma intenção, enquanto a Bas Dost, nem a bola chega, nem a força aguenta.

Neste quadro, um adversário forte é o melhor presente que se pode oferecer a um Marcel Keizer que não se preocupava em sofrer golos, mas só quando sabia que poderia marcar mais. O Sporting, hoje, é uma equipa tão consciente das suas limitações ofensivas, que se resguarda num bloco baixo de resistência perante as inevitabilidades que parecem evitáveis. Por isso empatou em casa com o FC Porto, por isso venceu a Taça da Liga depois de duas séries de penáltis. Por isso não recusa dar ouvidos a quem o avisa de futuros perigos. Os adeptos do Sporting já beijaram a boca de um Peseiro realista, de um Keizer sonhador e, agora, beijam, ainda que por certo sem grande amor ou crença, uma Taça da Liga para guardar no museu. Hoje, sexta-feira, o mundo ainda não acabou.

Paraísos prometidos

Prometeu-se uma dupla de avançados que não convenceu, a recuperação física de dois jogadores importantes da temporada passada que não aconteceu, prometeu-se que Rui Vitória seria o homem para levar o Benfica à reconquista do título nacional. Mas não. A dupla de avançados foi despachada no mercado de janeiro, deixando o Benfica com opções limitadas para a frente de ataque, os dois jogadores importantes continuam a lutar contra as limitações que as lesões lhes impuseram e é Bruno Lage quem, agora, remenda como pode o Benfica que recebeu em mãos.

Eis que, no entanto, novos paraísos se prometem com a eleição à titularidade de João Félix, com uma liberdade que ainda não tinha tido oportunidade de aproveitar na equipa principal, com o reconhecimento das qualidades de Gabriel num meio-campo a dois, com Pizzi e Seferovic, dois dos mal-amados das bancadas do Estádio da Luz a mostrarem como o bom rendimento rende conversões. A Bruno Lage só falta demonstrar o crescimento da sua equipa num jogo grande. Os testes ao crescimento foram realizados em Guimarães e as vitórias não esconderam fragilidades que o FC Porto soube aproveitar para seguir em frente na Taça da Liga.

Mas, a meio da semana, o Boavista ofereceu-se para mais um ensaio geral onde os encarnados conseguiram impor as ideias que, mesmo com falta de tempo, se vão trabalhando no “Lageboratório”. Pressão mais organizada e intensa sobre o homem com bola ainda no meio-campo contrário, subida de linhas permitida por um 4-4-2 onde Samaris e Gabriel se ajudam mutuamente em termos posicionais, recuperando a bola em zonas onde pode fazer perigar a reação adversária. Já era uma característica do Benfica, mas agora acontece a outra velocidade. Com bola, capacidade dos extremos aparecerem por dentro a criar desequilíbrios, enorme liberdade para João Félix cavar e plantar talento, um Seferovic a beneficiar de uma equipa que é bastante mais móvel e mobiliza, desta forma, as forças do internacional suíço.

Ainda te tenho a ti

Marcel Keizer espera por Bruno Lage como Bruno Lage espera por Marcel Keizer. Para o Benfica, a perspetiva do título passa por uma vitória em Alvalade, que a aproxime do FC Porto e pressione os azuis e brancos na difícil deslocação ao terreno do Vitória de Guimarães. Para o Sporting, a esperança ainda se tinge de necessidade de alcançar um lugar com vista para a Liga dos Campeões, ainda que a realidade aponte para a gestão de ativos e busca de mais um título que permita sustentar um alargamento do tempo dado a Marcel Keizer para fazer o seu caminho. O dérbi de Lisboa interessa, e muito, a ambas as partes.

Na forma como pretenderão encaixar as duas equipas, é provável que seja o Benfica quem apareça em campo com mais capacidade de provocar erros ao adversário. Bruno Lage tem demonstrado maior capacidade para entender as fragilidades dos seus rivais, contando com a disponibilidade de João Félix e Seferovic para obrigarem os centrais leoninos a decidir rápido, subindo as suas linhas para se manter dominante nos duelos aéreos que isso provocar na zona onde se pretenderá colocar Bas Dost. O Sporting, a jogar em casa, também não deverá deixar de procurar uma pressão alta, reconhecendo que também nessa zona o Benfica comete muitos erros. A questão passará, uma vez mais, pela forma como poderá disponibilizar Bruno Fernandes para aparecer em terrenos mais adiantados na fase defensiva.

Com bola, o Benfica é uma equipa bastante mais solta na forma como aborda o meio-campo adversário. Pizzi procura terrenos centrais, como um terceiro médio, Rafa inclui-se na mobilidade dos homens da frente, com João Félix a ser o elemento mais difícil de controlar, dada largura do seu raio de ação. Os laterais projetam-se bastante no momento ofensivo e poderão “prender” dessa forma a ação dos extremos leoninos. O Sporting tem encontrando imensas dificuldades para ligar por dentro, obrigando ao recuo de Bruno Fernandes e até Nani para terem bola. Os seus laterais oferecem pouco com bola controlada, mas havendo espaço dedicar-se-ão ao teste do cruzamento até ao limite. Ainda que Bas Dost, frente ao Benfica, apenas tenha marcado uma vez em quatro partidas.

Venha daí a tempestade para decidir o tom do alerta que sobressai na tarde de domingo em Alvalade. Com dois técnicos muito conscientes das fragilidades das equipas, balançando na forma de exacerbar as qualidades, a precisarem que o resultado seja um bom prenúncio para o tempo que precisam para desenvolver o seu jogo.

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