[Artigos do Expresso] E que tudo mais vá para o Inverno (uma previsão ritmada da final da Taça da Liga)

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em janeiro de 2019.]

É já este sábado que se disputa a final da Taça da Liga, cujo vencedor é reconhecido como campeão de inverno. Depois de termos aprendido as dificuldades de se medirem centímetros através de uma câmara de televisão ao longo desta semana, a final entre FC Porto e Sporting permite-nos recentrar o discurso naquilo que o jogo tem para oferecer. E se há coisa que ninguém desejará ver repetida é uma soturna procissão de cuidados como aconteceu no encontro da Liga, há duas semanas atrás. No entanto, se não for pedir muito, para mim, que continuo a sentir-me a única pessoa que viu pontos de interesse no clássico da Liga NOS, não me ofereçam tudo diferente, juntem-me mais presentes para discutir num jogo que, este sim, vale um título.

Rotação: desejo e possibilidade

O Sporting decai em termos de capacidade de ocupação dos espaços de jogo, semana após semana, e a questão que se coloca a Marcel Keizer passa pela necessidade de rodar a equipa. O próprio treinador demonstrou, após o jogo frente ao Sporting de Braga, que tinha essa vontade, mas entre desejo e possibilidade, percebe-se porque é que o técnico holandês é o homem menos iludido com a sua própria situação em Portugal. Tendo chegado ao Sporting claramente identificado com uma ideia de jogo da escola holandesa, alimentada pela sua passagem no Ajax e confirmada pela forma como pretendeu jogar no Al Jazira, seu anterior clube, a capacidade de persuasão para a mudança de Keizer nunca esteve em causa, olhando para o impacto inicial na forma de abordar os jogos.

O problema começou quando, como seria de esperar, os técnicos adversários passaram a ter suficientes minutos de observação para contrariar as dinâmicas ofensivas do Sporting. Perante o problema ofensivo, a solução Keizer focou-se no momento defensivo. Em casa, frente ao FC Porto e na segunda parte frente ao Moreirense, em Braga, na meia-final, uma vez mais durante o segundo tempo, o Sporting foi uma equipa de bloco baixo, oferecendo a iniciativa aos adversários, sofrendo com a incapacidade de ter bola e muito limitado nas suas saídas para a transição ofensiva. Para combater o conjunto verde e branco parece, hoje, bastar contrariar a evolução da bola entre defesas e médios no corredor central, basicamente retirando Wendel e Bruno Fernandes do seu espaço preferencial de ação. Como conjugar estes problemas e soluções com a rotação desejada?

No encontro da meia-final, foi Bas Dost a ficar no banco para lançar Luiz Phellype enquanto titular, para que o brasileiro acabasse com uma exibição marcada pela falta de bola na sua zona de ação. Mathieu saiu ao intervalo devido a cansaço. Acuña saiu perto do final da partida. Nani há alguns jogos que dá claros sinais de desgaste. A felicidade de atingir uma final coloca Marcel Keizer perante o problema de ter mais um jogo para disputar. O calendário adensa-se e fica a dúvida de como encara o holandês as alternativas que se apresentam no plantel. Alternando entre Diaby e Raphinha como extremos, André Pinto, Jefferson e Petrovic são os únicos suplentes que vão merecendo mais alguma confiança. Miguel Luís e Jovane foram desaparecendo das convocatórias, Francisco Geraldes ainda não beneficiou de minutos. As alternativas para o corredor central parecem gritar necessidade de rotação. Será possível?

“Let’s get physical” mas em termos

É a dimensão física do jogo do FC Porto de Sérgio Conceição que, desde a sua chegada ao comando técnico da equipa, tem servido de imagem de marca. Mas quando se fala de dimensão física não se trata, exclusivamente, de centímetros e massa muscular (que também abunda), mas sobretudo de ocupação espacial do terreno de jogo. Essa mesma capacidade voltou a ser demonstrada na primeira parte do jogo frente ao Benfica, exercendo uma pressão alta e direcionada que criou enormes dificuldades aos encarnados e até esteve na origem do primeiro golo portista. Depois, sim, perante alguns problemas de criação na equipa, a solução passa muitas vezes por lançar os comboios na direção da área adversária. Tiquinho Soares, Marega, André Pereira e, agora, também, Fernando Andrade, compõem o número.

Ainda assim, é justo perceber que Sérgio Conceição tem tentado trabalhar a capacidade criativa da equipa com a inserção de Óliver Torres no onze. O Ano II do técnico no FC Porto tem sido o da procura de resolução de problemas com soluções que acrescentem à equipa em termos ofensivos. O jogador espanhol não foi adaptado ou formatado à equipa, como muitas vezes se tenta fazer querer. Pelo contrário. Tende a procurar-se na arrumação do onze um espaço para haver controlo de bola a partir de zonas mais recuadas, algo que Óliver oferece, não sobrecarregando com isso, a nível defensivo, um elemento como Brahimi, mais decisivo perto da área e a viver uma fase de alguns problemas físicos também. Sem Danilo disponível para o encontro da meia-final, Óliver acrescentou qualidade para a criação, algo que poderá repetir na partida deste sábado. Mas quando se lança a questão sobre quem terá que sair para que o FC Porto se apresente dessa forma em campo, quem arriscaria nomes? É verdade que, até aqui, Sérgio Conceição tem abordado os clássicos sempre a partir do 4-4-2. Mas a melhor maneira de começar a vencer a primeira final da temporada antes que ela comece passa, claramente, pela forma como poderá organizar o seu onze para o equilíbrio desejado nos diferentes momentos do jogo.

Um onze onde haverá sempre espaço para Éder Militão. O jovem brasileiro sofre da condenação de ser demasiado bom para o contexto onde se encontra. Por isso, o melhor jogador da primeira volta, jogando como defesa-central, passa a lateral-direito com a chegada de Pepe. O FC Porto tem dois dos melhores centrais a atuar no país, mas também tem Felipe como opção com elevado valor de mercado, não apresentado, para a faixa lateral, opções ao mesmo nível. Depois de já ter passado pela mesma situação no São Paulo, Éder Militão não deslustra na sua nova missão. Bem pelo contrário. Num FC Porto que vive demasiadas vezes no risco de ficar muito exposto perante a transição ofensiva dos adversários, o acrescentar de capacidade defensiva individual é uma resposta imediata para um problema difícil de resolver. Se juntarmos à equação a mais que provável soma de Danilo ao onze, as bolas paradas também servirão para resolver esta final. E a força aérea azul e branca soma generais para levar ases pelos ares.

E que tudo mais vá para o campeão de inverno

Sim, o vídeo arrisca-se a matar a estrela do futebol, os preços dos bilhetes deixaram ao frio as bancadas do Municipal de Braga, que nem para o clássico entre Benfica e FC Porto esgotou lotação, e os discursos oficiais de sucesso parecem, muitas vezes, cantos de sereias que nos atraem para o inferno da dispersão da realidade. Ainda assim, é dentro de campo que o futebol se continua a decidir, independentemente de uma repetição ou outra nos deixar com o espírito santo de orelha aos espirros. VAR bom será, sempre, um VAR que consiga explicar as suas decisões aos leigos, aos que estão no estádio e aos que seguem pela televisão, não convencendo ninguém a ideia de que a tecnologia é boa e pura sem um argumento atrelado.

Ao mesmo tempo, presidentes que se digladiam por uma câmara de televisão para falar em cima das conferências de imprensa de jogadores e treinadores, venham para condenar ou exaltar hossanas às decisões, não fazem falta para nos ocupar o pós-jogo. As duas equipas que vão para o campo têm mais do que capacidade argumentativa para nos oferecerem um jogo aberto, disputado, com qualidade. Com golos, com capacidade tática, com engenho para modificar comportamentos perante as ações dos adversários. E no final, em lugar de viagens para o inferno, queremos, para presente, que seja o espetáculo a decidir quem é campeão de inverno.

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