[Artigos do Expresso] Ministars e ondas de choque: Benfica – Sporting, parte II

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em fevereiro de 2019.]

A tarde do domingo, em Alvalade, deu ares de gala dos pequenos cantores, mas acabou como uma grande noite do fado. Duas equipas com intenções de vencer, encontraram-se repartidas pela liderança de uma jovem estrela que promete marcar o futuro próximo do futebol português, João Félix, e pela pequenez de uma ideia que não se multiplica pela simples passagem pela escola do Ajax. Houve toque de dramatismo na forma como o resultado chegou aos 2-4 e poderia ter ido mais além.

O Sporting volta, assim, a estar enredado em ondas de choque, numa semana em que o dérbi não deixa de ser notícia. A parte II está prestes a começar, mas num contexto bastante diferente, a primeira mão da meia-final da Taça de Portugal. Olhe-se, então, como se cozinha uma equipa em tempos mínimos, baseado em pontos que sejam boa base para não se perder o controlo ao fim pouco tempo. Um Benfica que agora só depende de si para ser campeão recebe um Sporting a assumir que precisa de frescura, mas já sem o que atingir no campeonato. E não ficará por aqui.

Receita Ministars: tempo de preparação

Não foi preciso muito tempo para vermos Bruno Lage explorar as forças do plantel encarnado, montando uma equipa com capacidade para enfrentar um dérbi e sair vencedora, sem grande discussão. Também não foi preciso muito tempo para, com a receita Ministars, entender que há um menino que transforma radicalmente a percepção que temos do Benfica. João Félix. Aos 19 anos, saído das equipas da formação depois de ter sido “conquistado” ao FC Porto, onde passou sete temporadas, o camisola 79 dos encarnados conjuga, em si, todos os traços de um mito em construção. Porque tem o talento, a inteligência e o comprometimento que denotam aqueles que serão grandes, mesmo quando ainda vivem num contexto de pequena banda de juventude.

A transformação que Bruno Lage impõe à equipa encarnada passa, muito bem, por olhar primeiro para as peças do seu plantel e decidir depois como conjugá-las para construir uma equipa. Não há grande cozinheiro sem bons ingredientes, mas o que é certo é que nunca se chegará a almoçar se, perante os ingredientes disponíveis nas prateleiras, passarmos demasiado tempo a pensar no que queremos e esquecermo-nos de fazer o que podemos. Bruno Lage partiu direto ao assunto e, em Alvalade, conseguiu apresentar a sua primeira grande obra. Pressão alta sobre uma dupla de centrais leonina incapaz de decidir. A conjugação de Samaris e Gabriel para, em lugar de esperar que outros os testassem e vencessem, avançar sobre um meio-campo do Sporting com pouca capacidade para receber e rodar para o ataque, permitindo apenas uma posse de bola estéril. Finalizando-se com o facto de Rúben Dias e Jardel pouco terem sido colocados à prova no dérbi de domingo.

A preocupação em defender melhor, que traça o comportamento do Benfica desde que Bruno Lage pegou na equipa, acaba por oferecer a transformação em borboleta de uma larva que não dava sinais de crescimento. Para além da largura de soluções oferecida por João Félix, acaba Pizzi, com menores responsabilidades no momento de organização defensiva, por partir sempre melhor posicionado para liderar a transição, tem Rafa como ponto de ameaça a partir da faixa e enquadra Seferovic no seu sonho de equipa, um conjunto que não lhe exige ser o ponta-de-lança que nunca foi, mas um elemento que acrescenta mais mobilidade e abre possibilidades de finalização aos seus companheiros. Não é de espantar, por isso, que o suíço tenha acabado o dérbi com tantos remates quantos os de João Félix, Pizzi ou André Almeida. A receita dá resultado.

Ondas de choque ou o Sporting na roda da história

Era, de facto, uma ideia pequenina, aquela que Marcel Keizer tinha para apresentar aos seus jogadores aquando da chegada a Alvalade. O poder da sugestão permitiu uma mudança rápida de comportamentos em posse, mas sem a capacidade de operacionalizar uma evolução para o seu conjunto, o Sporting transformou-se, rapidamente, naquilo que já era: uma equipa previsível, incapaz de lidar com as limitações que se vão auto-impondo pela qualidade dos jogadores e pela pouca claridade das mudanças que se fazem no plantel. O recado que Bruno Fernandes deixou no final do jogo, e que já tinha sido dado por Mathieu no fim da partida frente ao Moreirense, não deixa a mínima dúvida de que os jogadores estão mais conscientes do contexto do que uma equipa técnica que acredita no poder da transformação sem intervenção direta. E não está a resultar.

Foi um Sporting a entrar no dérbi com vontade de vencer, o que parecia mais do que necessário, tendo em conta as contas da classificação, mas que acabou por pouco beneficiar a saída com vida do confronto com o Benfica. Durante 90 minutos quase sempre se viu um Sporting demasiado preocupado em resolver as coisas a partir de iniciativas individuais, por clara incapacidade de ter uma narrativa coletiva com capacidade para levar a bola até à área adversária. As correrias de Bruno Gaspar e, mais tarde, Diaby, são boa nota deste comportamento, que voltou a puxar Bruno Fernandes e Nani para zonas muito distantes da área, caso quisessem poder criar jogo. A posse de bola do Sporting raramente ultrapassava a ligação entre os dois centrais e Gudelj, sem capacidade de penetrar no bloco defensivo do Benfica, levando a que a equipa tenha rematado muito mais de fora da área, em 10 dos seus 17 remates, ao contrário do seu rival que nunca precisou de tentar, sequer, um remate fora da área leonina.

As ondas de choque que se vivem dentro do Sporting transparecem, assim, com evidentes sinais de decadência no que toca à gestão do plantel. Nani saiu ao intervalo em claro défice físico, tal como já tinha acontecido, em semanas recentes, com Mathieu e Acuña. Wendel e Bas Dost perdem vigor jogo após jogo. Mas também se sente a decadência na forma como, agarrado à base inicial de trabalho, Marcel Keizer dá sinais de incapacidade de aproximação às forças que a equipa poderia aproveitar, desdenhando soluções que, repetidamente, vai deixando no banco ou fora dos convocados. Os lenços brancos, os avisos do presidente, a insatisfação dos jogadores. Tudo sinais de que, em Alvalade, a história se repete e ninguém aponta uma receita que possa permitir que se almoce.

Não há duas sem três

Os acontecimentos de domingo geraram um novo quadro de prioridades para as equipas do topo da Liga portuguesa. O Benfica está, agora, dependente apenas de si próprio para ser campeão, o que transforma positivamente o percurso que a equipa terá a fazer. Sendo óbvio que a Taça de Portugal é um objetivo, é fundamental entender-se o período competitivo do mês de fevereiro como uma conjugação de etapas que terão, sempre, como foco, o campeonato. Para o Sporting, a distância pontual de onze e oito pontos, para primeiro e segundo, transforma os jogos da Liga num equilíbrio pouco sereno entre a falta de objetivos e a forma castigadora como será vista cada perda de pontos. Passará a ser a Taça, e a Liga Europa, o foco em termos de conquista de títulos para os verde e brancos.

A influir fortemente perante esta situação, junta-se a realidade de não existirem duas sem três. Ou seja, o segundo dérbi da semana é o primeiro de uma meia-final a duas mãos da Taça de Portugal que só será resolvida no início do mês de abril. Ora, em abril, para lá de águas mil, também já será bem claro o posicionamento de cada equipa para o ataque final à Liga, bem como a sobrevivência, ou não, nas provas europeias. O que cada equipa desejará, no jogo desta quarta-feira, será criar o melhor contexto para, na segunda mão, garantir a presença na final. Dito assim até pode soar a bom planeamento, mas, na prática, o risco de haver um jogo bem menos emocionante do que assistimos no passado domingo é real.

Será, muito provavelmente, um jogo mais de treinadores e de menos liberdade para o talento. O Sporting poderá voltar a enfrentar um jogo grande com uma atitude mais recatada, fechando-se no seu bloco e esperando a iniciativa do adversário, regozijando-se com a abertura de possibilidades que um empate lhe poderá permitir. O Benfica, mesmo a jogar em casa, não encontrará razões para fugir ao seu modelo atual, tentando ferir as fragilidades do adversário sem que – ou, propositadamente – para que não se notem as suas próprias fraquezas. Largámos uma final de 90 minutos para entrar num largo confronto que terá, pelo menos, 180 minutos. Escolham bem os vossos lugares, porque vai ser algo de completamente diferente.

Comentários

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.