[Artigos do Expresso] Um Porto-Benfica, um Real-Barcelona e um Festival da Canção para a mesa do canto

[Recuperação de um arquivo desaparecido, com a publicação de artigos que, ao longo do tempo, foi escrevendo para o Expresso. Este foi escrito em março de 2019.]

Dois clássicos do futebol e um Festival da Canção entram num bar. É sábado à noite e vai ser preciso sincronizar os relógios para não perder pitada da muita ação que nos será oferecida via televisão. Enquanto em Portimão se escolherá o representante de Portugal no Festival Eurovisão da Canção (RTP 1, 21h00), no Estádio do Dragão arrumam-se as peças para o ataque ao título na Liga Portuguesa. E tudo isto precedido por uma espreitadela a Madrid, onde Real e Barcelona se voltam a encontrar, agora com o foco em LaLiga.

Mas comecemos pelo que nos trouxe aqui em primeiro lugar. A recuperação do Benfica com Bruno Lage e os tropeços do FC Porto nas últimas semanas transformaram o clássico português no jogo que não pode deixar de ser visto. No Estádio do Dragão (Sport TV, 20h30), a equipa da casa defende o ponto de vantagem que a mantém no primeiro lugar, acossada por uma equipa encarnada onde a revolução se faz em competição, com vários jovens a tomar os lugares de consagrados e um deles a transformar-se na imagem do futuro líder dos jogadores portugueses. Será que conseguirá ser campeão no seu primeiro ano na Liga NOS?

“O mundo a mudar”

A canção dos Madrepaz não surge entre os favoritos para a vitória em Portimão, mas podia bem ser reivindicada como hino do momento para o Benfica. As oito vitórias consecutivas desde que Bruno Lage pegou na equipa estão aí como marca positiva da transfiguração que atravessa o plantel encarnado. O técnico de Setúbal propôs um regresso aos dois avançados, encontrando um equilíbrio na equipa que lhe permite ser mais eficaz ofensivamente, ao mesmo tempo que procura escapar à exposição que alguns problemas defensivos continuam a denotar. João Félix tem sido um elemento fundamental para que, no momento ofensivo, a equipa conquiste um novo brilho.

O camisola 79 dos encarnados encarna o mito futebolístico do génio. O seu primeiro golo na Liga foi marcado frente ao Sporting. Na primeira vez que foi titular, frente ao Aves, voltou a marcar. Já valeu o apuramento na Taça de Portugal frente ao Vitória de Guimarães, marcando na partida dos quartos-de-final, faltando-lhe um golo europeu para carimbar o bingo dos marcadores. Mas João Félix é muito mais do que golo. É movimentação que desequilibra qualquer equipa adversária. É inteligência que alimenta e complementa a ação de quem o acompanha na frente, tão bem como a de quem chega de posições mais recuadas. No Dragão terá, de novo, oportunidade para demonstrar a sua capacidade de escolher o que está para acontecer.

É este Benfica pleno de confiança que entrará no relvado do Dragão. Ciente de que a sua única derrota sob o comando de Bruno Lage aconteceu frente a este mesmo FC Porto, numa noite em que esperou para ver. Por isso, mesmo a jogar em terreno adversário, este é um Benfica que tem tudo para entrar a pensar só em ganhar.

“Só quero um lugar para ser quem sou”

Sérgio Conceição sussurra a letra da canção de NBC enquanto vê recuperados uma série de jogadores que, ausentes, lhe acabaram por dar algumas dores de cabeça nas últimas semanas. Recuando um mês e meio, o FC Porto saía do Estádio de Alvalade com uma vantagem confortável sobre os seus rivais, mesmo que a realidade do jogo continuasse a apontar algumas lacunas ao nível criativo, com a equipa procurar resolver com a presença do imparável Moussa Marega na frente de ataque. A equipa perdeu a final da Taça da Liga para o Sporting e, pior que isso, perdeu o maliano uma semana depois, por lesão, num encontro onde também perdeu pontos no terreno do Vitória de Guimarães.

Sem Marega e com Brahimi em gestão, Sérgio Conceição teve que continuar a procurar no seu plantel soluções para se manter na frente. Voltou a empatar em Moreira de Cónegos, antes de perder em Roma para a Liga dos Campeões, mas reencontrou a fortuna na Liga portuguesa com faces habitualmente mais recatadas no seu plano de jogo. Óliver Torres vive o seu melhor período de azul e branco, reconhecido e reconhecendo a sua missão num modelo de jogo que, tantas vezes, o deixa a ver passar aviões. Jesus Corona e Otávio acrescentam talento e inteligência, numa equipa que encontra novas dinâmicas com bola pelo facto de ter, dentro de campo, quem perceba melhor como se posicionar e quem conheça melhor as particularidades da redondinha.

Às vitórias frente a Vitória de Setúbal e Tondela, juntou-se nova vitória, gorda, perante o Sporting de Braga, na primeira mão das meias-finais da Taça. Mas, aí, já com os pesos-pesados sentados no banco. Brahimi está recuperado, Marega já pode ser utilizado e Sérgio Conceição quererá ser igual a si mesmo, em busca de uma identidade onde se sente confortável. Mas, se essa identidade já lhe deu um título, é impossível negar que tem sido a capacidade de aprender com as dificuldades aquilo que torna Sérgio Conceição o treinador que é.

“Quem mata quem”

Começa mais cedo o clássico espanhol (Eleven Sports 1, 19h45) e, se a diferença de nove pontos retira algum do brilho que se poderia procurar na disputa pela liderança do campeonato, a recente meia-final da Taça do Rei aparece como o enorme elefante na sala, quer para Real Madrid, quer para Barcelona. Por isso mesmo ecoa, também, Conan Osíris, na virtude e no defeito, à procura de responder a uma pergunta que poderá não ter resposta. O Real Madrid é a face perfeita da fragilidade de uma recomposição. A indefinição a nível técnico (o que se pretendia com Lopetegui? O que se pretende de Solari?) de um clube que só sabe viver a ganhar pesa na forma como os seus atuais talentos tendem para a auto-gestão. Por isso brilha mais Vinícius Júnior, que está longe de poder ser decisivo, por isso sobressai Karim Benzema, com a força que a maturidade deu ao seu talento. Mas depois de ter sido goleado em casa pelo Barcelona na passada quarta-feira, quem está mais perto da morte é mesmo este Real.

Do outro lado, Ernesto Valverde é a personificação do verso “para saber se mato a saudade ou se quem morre sou eu”. O Barcelona já não apaixona quem por ele viveu apaixonado, mas ainda detém limalhas dessa preciosidade que é o jogo de posição. Sergio Busquets, Ivan Rakitic, Arthur, são os seus herdeiros, tal como a tranquilidade com que a equipa entende a saída com bola para a construção. Por outro lado, transforma-se a velocidade em coisa veloz quando a bola entra nos espaços de Jordi Alba, Luís Suárez ou Ousmane Dembélé, oferecendo ao Barcelona uma fase de transições rápidas e procuras endiabradas de velocidade. Messi, qual deus maior, continua a aparecer com regularidade, num conjunto que, nos dias piores, tem dificuldades para conjugar as duas verdades que guarda como suas. Ernesto Valverde, no entanto, conquistou a presença na final da Taça do Rei e tem vantagem no campeonato. Ainda terá outra flecha para disparar?

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