Sonhos de uma noite de verão

A estreia oficial do Vitória na pré-eliminatória da Conference League, o convénio em língua alemã no WEuro 2022, as viagens aos tempos da adolescência e o trabalho do comentador. Uma conjugação de sonhos que se ligam, muitas vezes, sem sabermos explicar porquê.

Vitória começa mais forte

A primeira equipa portuguesa a iniciar a sua temporada oficial é o Vitória SC e os sinais são interessantes. O primeiro encanto vem logo no momento de olhar para o onze, onde Tiago Silva e André Almeida repartem responsabilidades criativas no meio-campo, acompanhando Rúben Lameiras e Jota Silva a partir das faixas. São elementos, todos eles, que servem bem as paixões de verão. Fazem-nos sonhar com grandes feitos, pela forma como tocam a bola com especial talento. É possível que nem todos acabem por ficar no Vitória. É possível, dadas as dificuldades nos momentos de transição defensiva, que este conjunto não venha a ser tão forte quanto parece. Mas é para isso que o verão serve, para nos fazem sonhar.

A janela da sala aberta deixa entrar uma aragem, enquanto me divido entre ecrãs, com o encontro entre a Alemanha e a Áustria no WEuro 2022 a captar-me parte da atenção. Duas equipas nascidas da mesma ideia de jogo, com imensas jogadoras educadas e desenvolvidas numa Frauen Bundesliga que, não marcando tendências no feminino como marca no masculino, se mantém como um dos centros mais evoluídos do futebol europeu. As traves e os postes das balizas ecoaram, falharam-se golos de baliza aberta, competiu-se como se faz melhor neste Europeu e, no fim, ganhou a Alemanha. Mas esse é um sonho que ainda não acabou.

A memória e o direito ao sonho

O fim de julho era o tempo de ir a Lisboa ver os primeiros jogos dos dois grandes da capital. A cada verão tornava-se passagem obrigatória, nos tempos de adolescente, passar por Alvalade com o meu pai e pela Luz com o Sr. Francisco, pai dos meus amigos Miguel e Daniel, que vinham a Santa Cruz passar as férias de verão. Eram verões muito longos, com muitas horas a andar de bicicleta, praia fizesse sol ou chuva, descobertas que passaram das folhas das revistas para os filmes do videoclube e daí para as saídas à noite. Era de noite que se jogavam os grandes jogos no verão e cada visita às bancadas da Luz ou de Alvalade apenas nos fazia adivinhar, à distância, aquilo que cada jogador poderia prometer.

Promessas também as havia, durante as tardes iniciais de agosto, quando o Torneio do Oeste era acontecimento obrigatório para conhecer a equipa do Torreense. Dérbis que se estendem na memória com o Caldas e o Peniche, conjuntamente com uma equipa convidada (que tantas vezes parecia algo deslocada da história que se escrevia entre os três rivais), lugar mais tarde ocupado pelo Lourinhanense quando subiu aos nacionais. O que têm todas estas memórias em comum? O fato do futebol ser feito de condições irrealistas, que enquanto apaixonados alimentamos e parecemos desenvolver pela vida fora, sem saber muito bem onde colocar os limites, sem deixar de procurar todas as formas que os significados adquirem na sua maneira de rolar sobre a relva.

O jogo que se trabalha

A grande maioria das pessoas, no entanto, só agora começa a preparar-se para as férias. Será por isso que muitos me perguntam pelas minhas que, quase sempre com alguma surpresa (e cara de quem faz contas de cabeça), se apercebem que já passaram. Não creio que alguém que viva o futebol consiga tirar um tempo para pensar noutra coisa, sem que a bola venha saltitando intrometer-se. Quem trabalha no futebol muito menos. Temos a responsabilidade de saber responder ao que nos perguntam e, acima de tudo, temos a obrigação de entender quem muito espera de nós. Esperam que conheçamos as equipas e os jogadores, que saibamos enquadrar esse conhecimento nas realidades que se constroem em cada competição e em cada encontro que saia de qualquer sorteio realizado por estes tempos. Daí que as férias sejam sempre curtas e, tantas vezes, misturadas com o futebol que aparece a cada canto.

Em semanas de vários jogos de preparação, há algum tempo para ir estudando como se montam as equipas e os plantéis. Há ainda tempo para elaborar e redesenhar as bases de dados que vamos montando ao longo da vida, acrescentando jogadores, transferências, contratações, preparando o início de cada campeonato. Será o tempo do trabalho mais silencioso e recatado, um trabalho que nunca acaba, porque vive numa espécie de processo sem fim. As equipas e os jogadores mudam, as relações também, e quem se oferece a analisar a realidade nunca se depara com um produto terminado ou pronto. Confesso que também por isso me serve um pouco isolar de determinadas discussões que não trazem, nem nada de novo, nem nada de bom, para aquele que é o meu trabalho. Quem se preocupa demasiado com as coisas más que não controla, acaba por deixar pouco tempo para se concentrar nas pequenas coisas que pode mudar.

Dias de apresentações e outros prognósticos

FC Porto, Sporting e Benfica farão as suas apresentações nos próximos dias, mas será o início da competição que poderá responder às questões que fazemos sobre a forma como se vão comportar. Haverá tempo para conseguir encaixar a realidade da preparação com a realidade da competição, exigências que se cruzam, mas que pouco se comparam. Daí que podemos reservar mais uns dias a sonhar e trabalhar no silêncio, a preparar aquilo que aí vem, acreditando que o quarteto do Vitória, em algum momento, poderá oferecer-nos das melhores coisas do mundo e esperando, tal como o Galeano-pedinte, que o bom futebol nos apareça em frente aos olhos em algum jogo inesperado.

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