As culturas da cultura de jogo

Todos somos adeptos deste jogo, desde tempos em que não sabemos explicar como aconteceu. Essa vivência levou-nos ao futebol de várias formas e é na consciência de todas elas que devemos respeitar o jogo que é a nossa paixão. Na semana de início das Ligas, momento de repensar o lugar onde estamos perante os efeitos de uma bola a rolar sobre a relva.

Futebol, um modo de vida

Não é fácil explicar aquilo que o futebol transforma, como não é simples ditar o exato momento em que cada um de nós se apaixonou por vinte e dois humanos a correr atrás de uma bola. O mais provável é que tenha acontecido a par e passo, pelas vozes dos adultos que de futebol falavam lá por casa, pelo encanto que uma bola tem para um ser de tenra idade, pela maneira como, pela rádio ou pela televisão, mediamos o nosso caminho até ao jogo. Um dia, o jogo estava perante os nossos olhos. Nesse momento, algo se transformou, para um largo número de nós, de forma total. Porque o que foi encanto se tornou necessidade e o futebol passou a ser quem dita os nossos horários, as nossas agendas, as nossas vidas. Não se vive o futebol. É-se vivido pelo jogo.

Quase todos quisemos ser jogadores de futebol. A falta de jeito ou a falta de sorte levou-nos a pensar que poderíamos ser treinadores. A ausência de disciplina pode ter-nos tornado em alguma outra coisa à volta do jogo. Ninguém sonhou ser adepto. Em adepto nos tornámos pelo convívio intenso com o futebol, com os clubes, com as notícias, com a excitação que é estar à beira do campo e pertencer, como é difícil pertencer a qualquer outra coisa. Somos adeptos, apesar de tudo o que podemos ver como menos bom ou a melhorar no jogo que amamos, porque não sabemos ser outra coisa. E vivemos de uma maneira inconfundível tudo aquilo que nos toca.

Pelas redes sociais percebemos como Stuart MacFarlane, fotógrafo do Arsenal mas, acima de tudo, apaixonado pelo clube, tentou explicar aos jogadores a forma como quem está na bancada vê os jogos. É fácil emocionarmo-nos com as suas palavras. Simplesmente porque as reconhecemos bem. Não foi preciso chegar a velho para entender cabalmente aquilo que MacFarlane revela a um balneário cheio de jogadores. Para eles, que um dia sonharam como qualquer um de nós, o futebol transformou-se num trabalho. Que pode ser feito com gosto, não me entendam mal, mas que é um trabalho, com as responsabilidades, os pesos, as exigências. No dia em que tudo isso ameaça ferir-nos, é preciso ouvir Stuart MacFarlane. Para entender onde está a base desta cultura que nos envolve a tantos e tantas.

Trabalhar no futebol, fazer a ponte

Não é só o jogador que está exposto a esta necessidade de entender o meio onde vive. Porque quando se trabalha no futebol, continua-se adepto, mas também se deixa de ser adepto. Seja como técnico, como jornalista, como comentador, como fotógrafo, o trabalho no futebol mistura-nos os territórios e obriga-nos a repensar formas de ser e estar. Relembrar o adepto que fomos é fundamental. Perceber que as paixões têm lugar no jogo, demarcam visões, englobam um conhecimento de causa sem igual. Repensar o adepto que somos é também importante. Porque ao dar-nos o nosso trabalho, a nossa voz, a nossa imagem ao jogo, estamos agora a servir de ponte para quem quer viver da maneira mais plena possível o amor que nutre pelo jogo.

Pensar esta responsabilidade é essencial. Porque chegando ao terreno onde me movo, no jornalismo e na análise ao jogo, cometem-se por vezes erros de base que redundam em repetições dentro de uma bolha que nos afasta de quem nos quer ouvir. Para quem esteve diretamente envolvido no jogo, como jogador ou treinador, fazer esse caminho é de extrema dificuldade. Fizeram, muitas vezes, esse percurso a partir da ideia de que não se pode dar ouvidos ao “treinador de bancada”, quando chegados ao lugar do comentário, é ao “treinador de bancada” que têm que se endereçar. E enquanto esses elementos passaram boa parte da sua vida a treinar e a jogar, o “treinador de bancada” passou-os a observar, a ler, a discutir, construindo toda uma outra base cultural que é tão fundamental para o futebol como o conhecemos como a bola que rola sobre a relva.

O erro que é preciso evitar, então, prende-se na forma extremada como este trabalho acaba por ser realizado. Sendo necessário manter-se fiel à cultura interna do jogo, reconhecendo o processo de treino, as questões táticas, as vivências práticas, é também importantíssimo mantermo-nos próximos da cultura externa do jogo, conhecendo histórias, encontrando tradições, elaborando sobre o lado humano que fornece riqueza ao futebol. O futebol sempre foram muitas coisas, muitas culturas que se cruzaram na cultura do jogo. Encerrá-lo num desses domínios é retirar ao futebol grande parte daquilo que ele tem para nos oferecer. E o jogo precisa de amigos que o compreendam em toda a largura da sua existência.

O início das Ligas

Com o início das Ligas voltamos ao ponto de todas as esperanças. Ao momento de todas as possibilidades. A pré-temporada ofereceu-nos novidades permitidas por um mercado que ainda terá quase mais um mês de existência. A cara de quem hoje começa será muito diferente da cara que, daqui a uns meses, terão as equipas e os jogadores que fecharem a época. Para os adeptos, a mesma coisa. Onde hoje existe a ambição, mais tarde encontrar-se-á a consequência dos resultados. Poucos ou nenhuns, no entanto, desistem desta vida de percorrer os dias atrás de uma esmola de bom futebol. Até a equipa pior classificada pode ter uma tarde ou noite de glória. Um drible ou um golo podem ter muito mais sabor do que um campeonato inteiro. Delinear favoritismos é um terreno tão vazio como é vazia a leitura de quem opina sem olhar aos jogos. Agradecemos os contributos, mas seguimos em frente. O futebol continua a cultivar uma cultura de jogo que se quer plena. Faltar-lhe à exigência, é faltar-lhe ao respeito.

Neste primeiro fim-de-semana estarei bem mergulhado no início da Liga Portuguesa. Abrindo, com a Antena 1, a jornada no Estádio da Luz, com o Benfica – Arouca, passando, no domingo, pelo grande jogo da jornada, entre Braga e Sporting. Na Eleven Sports, vivendo uma noite de sábado com um PSG de grandes craques onde Vitinha, Nuno Mendes e Danilo Pereira lutam por espaço, passando, no domingo, por um intenso Leicester – Brentford na semana de abertura da Premier League. Venham daí!

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