Condicionamento Futebol Clube

Mais um processo no processo lamentável onde somos levados a viver. Do processo disciplinar ao universo de tentativas de condicionamento a quem trabalha na comunicação do futebol profissional.

Um mundo à parte

O anúncio do processo disciplinar imposto pelo Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol à jornalista Rita Latas, por esta, na Flash Interview do jogo entre Sporting e Desportivo de Chaves, ter colocado ao treinador sportinguista uma pergunta que não se cingia ao contexto do jogo poderia ser apenas um episódio da longa e velha série “Só neste país”. Mas, no fundo, trata-se sobretudo de mais uma jornada para o Condicionamento Futebol Clube, um mundo que se julga à parte, que desenha regras de acordo com as suas próprias conveniências e não vê empecilhos no caminho que pretende fazer para dominar todas as parcelas da sua existência.

O protesto que o Delegado do Sporting fez junto do Delegado da Liga de Futebol Profissional e que este lavrou no relatório do jogo entregue ao Conselho de Disciplina da Federação percorreu todos os labirintos possíveis de uma certa pequenez que toma conta desde mundo em Portugal. Jornalisticamente seria fácil defender a pertinência de uma questão que, não tendo diretamente que ver com o jogo, poderia estabelecer uma linha consequente com as dificuldades que a equipa do Sporting revelou na reação a um resultado negativo.

Ao fazer a pergunta e ao ver o treinador Rúben Amorim dizer que responderia mais tarde, na Conferência de Imprensa, a jornalista fez o seu trabalho, de mesma maneira que o técnico procurou um contexto mais favorável, onde controla melhor o seu tempo de intervenção, para responder. Tudo normal. O que se passou a partir daí foi a inquietação de quem procura dominar narrativas. Os dois Delegados não reconheceram o trabalho jornalístico quando ele lhes passou à frente. O Conselho de Disciplina não fez aquilo que é a medida básica do trabalho de um Tribunal – a capacidade de reconhecer os limites da sua intervenção. Ao anunciar-se toldado nas fronteiras daquilo que pode ou não fazer, demonstrou-se inadequado para a função.

Verdade e consequência

O mais provável é que, à luz de outros tantos casos que, no futebol português, inflam e sobrevoam o espaço mediático durante uns dias, também este venha a desaparecer com o tempo. Mas, uma vez mais, o mal está feito e a consequência conquistada. O próximo jornalista que estiver numa Flash Interview fará as suas questões sob a sombra do protesto de um qualquer Delegado presente. Todos os clubes da Liga sentir-se-ão motivados a protestar com o trabalho jornalístico em zonas povoadas pelos agentes do jogo. A tentação será a de demarcar mais um limite no trabalho da comunicação social junto de jogadores e treinadores. Todos ficarão a perder.

Não precisamos de apanhar nenhum avião para entender como as coisas funcionam de maneira diferente em mercados cujo futebol português ambiciona igualar. A liberdade com que se fala nas Flash Interviews na LaLiga ou a quantidade de meios que utiliza os espaços das Flash Interviews na Premier League são um bom exemplo de comunicação e relação com agentes do jogo. O acesso facilitado às estrelas da Premier League e da LaLiga chocam de frente com aquilo que vivemos em Portugal, onde se contam pelos dedos as entrevistas concedidas por jogadores, treinadores ou até dirigentes. Não há no nosso país quem entenda que o trabalho da comunicação social junto dos clubes e nos jogos é uma forma de potenciar a qualidade os seus eventos e de valorizar os aspetos desportivos e comerciais dos respetivos clubes. A necessidade de controlo de narrativas funciona como uma pala para quem não quer ver a utilidade de um espaço de maior liberdade.

O Condicionamento Futebol Clube entrou assim, uma vez mais, em campo. Porque não lhe bastava as campanhas nas redes sociais, os recados, os telefonemas, a supressão de pontes para a realização de trabalhos que se pretendem dignos no acompanhamento dos clubes de futebol. Não bastava as fotografias dos jornalistas e dos comentadores nos meios de determinados clubes, nem a criação de fábulas em volta de quem não segue os guiões que cada um dos clubes ou organizações pretendem impor. Não era suficiente ter-se, em Portugal, manipulado o mercado da comunicação social desportiva com a criação de canais que sugerem a existência de linhas diferenciadas de enunciação das verdades de cada agremiação sem que seja sempre claro, para quem as consome, que pertencem ao mesmo enquadramento empresarial que qualquer outro canal. Era preciso cair no abuso de um processo disciplinar que desse cor a tudo isto. Um processo dentro do processo lamentável em que somos levados a viver.

Comunicado do CNID

Acrescento a este texto semanal o comunicado do CNID intitulado “Processo espúrio instaurado a uma jornalista”

O CNID – Associação dos Jornalistas de Desporto tomou conhecimento de que o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol abriu um processo a uma jornalista da Sporttv.

Esta é só mais uma das muitas coisas estranhas que se passam no âmbito da Justiça  Desportiva, porquanto a Jornalista se limitou a fazer o seu trabalho, fazendo uma pergunta ao treinador do Sporting sobre uma questão de atualidade (declarações de Slimani), ao que o treinador respondeu educadamente que falaria disso na conferência de Imprensa que se seguiria.
A jornalista colocou apenas uma questão pertinente como é seu dever. Abrir um processo por isto é absurdo, para não lhe chamar outra coisa.

O CNID desconhecia este inusitado âmbito disciplinar a que os Jornalistas estariam submetidos e que é absolutamente inaceitável. Os Jornalistas não podem ser escrutinados por nenhum Conselho de nenhuma Federação ou Liga, nem por nenhum clube. Nunca. Jamais. A Jornalista contará com o apoio total do CNID, que irá até às instâncias internacionais se for caso disso. E se, por absurdo, houvesse que ser paga qualquer multa, o CNID faria questão de a pagar em moedas de cêntimo, entregues à presidente do CD.

Futebol no Fim-de-semana

O futebol não para. Já na sexta-feira, o líder da Liga Portuguesa entra em campo para defender o seu lugar. Estarei nos comentários do Benfica – Vizela para a Antena 1. Sábado viajo na Premier League para o dérbi londrino entre Chelsea e West Ham, enquanto domingo as emoções da LaLiga levam-me ao encontro entre Villarreal e Elche. Sempre na Eleven Sports, em vésperas de estreia da fase de grupos da Liga dos Campeões. O espetáculo vai continuar.

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