O sorriso de Mbappé e a reconquista do território do futebol

O mundo do futebol é apenas mais um dos territórios onde a luta pela liberdade e pela democracia se desenvolve. A menorização do jogador que pensa ou do comentador que analisa é um ato ideológico de quem prefere um mundo higienizado, sem contexto ou conteúdo. A liberdade de expressão é essencial para que o território do futebol seja reconquistado pelas forças que o tornaram tão grande.

A ausência do contexto

Num mundo potenciado pelo imediatismo das redes sociais, a realidade vai-se tornando, demasiadas vezes, acessória. Somos empurrados para a vivência exclusiva do momento, como se cada coisa que acontece pudesse ser vista de forma isolada de tudo aquilo que a rodeia. A transformação do mundo neste aparato do imediato tem profundas consequências ideológicas na fala de cada um de nós. De certa maneira, a ausência de contexto premeia quem não se dá ao interesse de refletir, de pesar alternativas, de analisar com tempo. E percebe-se a quem interessa essa tendência.

Ao retirarmos cada acontecimento do seu contexto – social, histórico, cultural – retiramos às coisas e às pessoas uma estrutura que nos permite analisar o mundo de uma forma mais profunda. Abdicamos, dessa maneira, do conteúdo de cada ato, deixando-nos levar numa maré que trata todas as coisas numa balança que não mede, apenas finge que tem algum tipo de função. Quando esta ideologia contamina o futebol, transforma-se aquilo que era um todo em apenas uma das partes. O jogo passa a ser algo muito menor do que aquilo que é.

Futebol é substrato

Não existe jogo sem história. Cada clube emana de uma comunidade e resulta de uma ação transformadora da sociedade. Mesmo num futebol economicista e focado no comercial, essa resistência que é representada pela identidade de um clube e pelos seus adeptos, é ainda aquilo que mantém uma ligação apaixonada entre o que agora gostam de chamar produto e aqueles que foram transformados em consumidores. Sem esse peso social, sem esse sentimento de pertença, sem essas rivalidades, o futebol não é futebol, o valor que tem esvai-se.

Mas ao procurarem transformar todos os espaços do futebol numa demonstração de um higienismo radical, onde cada jogo é apenas aquilo que no jogo acontece, onde todas as conversas devem ser restringidas ao acontecimento em si, em que a comercialização do produto se transforma numa rejeição das suas forças, pretendem também transformar as nossas vidas. O peso dessa ideologia que pretende silenciar o conhecimento, a opinião e a vida vai-se somando à sua ação em várias outras áreas da nossa sociedade, onde esse comportamento é visível e está cada vez mais inserido nas dinâmicas de uma limitação da liberdade e da democracia.

O erro de Galtier e Mbappé

Christophe Galtier e Kylian Mbappé ignoraram o seu peso e o seu lugar nesta luta pela afirmação de um futebol mais poderoso. O seu contexto é complicado. Trabalham para um dos clubes-nação da atual realidade, são pagos a peso de ouro pelo seu trabalho, mas ainda procuram a forma como afirmar a sua identidade num palco onde estão colocados. Galtier, homem de Marselha, Mbappé, rapaz dos arredores de Paris, precisam de amadurecer na sua personalidade pública aquilo que os levou até essa exposição. E o que está em causa não é a forma como se posicionam sobre a questão das alterações climáticas. O que está em causa é a forma como preferiram não se posicionar de lado nenhum.

Num mundo onde se pretende controlar todo e qualquer discurso de dissensão, o sorriso e a piada é a solução dos fracos. Esperamos demasiado de quem nos faz rir para conseguirmos enfrentar os problemas do mundo. E quando alguém tem a possibilidade de fazer uma intervenção séria, reagimos com vontade de os calar. Aqueles que querem silenciar os jogadores, desculpando-os da sua incapacidade para se afirmarem publicamente na sua plena consciência, querem, no fundo, higienizar o mundo, calá-lo, impor uma ideologia do vazio.

Contrariar esse imediatismo, preenchendo o futebol com a sua força criativa e rebeldia, é manter o futebol onde ele pertence, não o deixando apenas como um território comercial, controlado pela publicidade, sem espaço para o desenvolvimento pessoal e social. Exigir que o jogador se exprima, permitir que o faça, é o caminho mais direto para essa reconquista do território do futebol.

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