O direito à paixão no futebol moderno

As pessoas, sempre as pessoas, a encantarem-se pelos jogadores, sempre os jogadores. Pelo direito à paixão no futebol moderno, escrevo pelas emoções libertadas no encontro entre Benfica e Paris SG, em tempos que não seriam os ideais, mas são, com certeza, os necessários.

Transformar sonho em noventa minutos de realidade

Desde o momento do sorteio da Champions que a visita de Messi a Lisboa entrou na agenda de todos aqueles que percebem que certos eventos não se irão repetir muito mais. Para além disso, não vinha Messi sozinho, trazia consigo Mbappé e Neymar, todos eles jogadores ímpares, reunidos num só jogo, o que tornava o acontecimento ainda mais imperdível. Mais de 62 000 adeptos encheram o Estádio da Luz, também elevados pela boa temporada que o SL Benfica está a fazer. O ambiente sentia-se quente, o estádio transformado em erupção. Cada minuto antes da bola começar a rolar era sentido como uma aproximação a uma qualquer explosão, que se verificou quando durante os primeiros vinte minutos os encarnados tentaram pressionar e conseguiram travar a entrada do PSG na partida.

No entanto, a nave espacial de Messi aterrou mesmo no Estádio da Luz. O desenho do golo e a trajetória do remate que deu a vantagem ao PSG podem ficar gravadas como o último (ou único) golo de Messi que muitas daquelas pessoas viu ao vivo. Os adeptos do SL Benfica não ficaram contentes, mas sentiu-se um respeito a calar todo o estádio. Talvez os extraterrestres sejam assim, as divindades com certeza que são. Impõe-se através dos atos, para que todos vejam, para que todos sintam, como se afirmam a fazer aquilo que fazem melhor do que qualquer um. Jogar futebol. Mas também deu para perceber, neste jogo, como Neymar e Mbappé são realidades distantes daquilo que podemos ver todos os dias (escrevo isto e invejo que os pode ver ao vivo todos os dias). O toque, o arranque, a destreza, a claridade, tudo isso se impõe como um flash, poderia ser o Super-Homem, mas é apenas alguém brutalmente talentoso. E no fim de tudo isto, foi o slalom de Rafa já para lá dos oitenta minutos o lance que fez com que o estádio quase viesse abaixo.

O futebol é tudo isto, o futebol é muito que isto. O jogo foi agarrado pelos guarda-redes, Donnarumma e Vlachodimos, que não permitiram que os golos nos levassem para um resultado do outro mundo. Ficou-se pelo justo empate. O jogo foi controlado pelas duplas de meio-campo, Enzo e Florentino perante Verratti e Vitinha, com os dois jovens portugueses a demonstrarem porque é que o futuro é deles. Por falar em futuro, a extrema juventude António Silva a confundir-nos com a sua extrema maturidade, num estádio que muitas vezes se terá esquecido de respirar para conseguir guardar em si toda a força que o acontecimento apresentava perante os olhos de quem pensava não ser possível ver aquilo que se via. Em tudo isto, aquela sensação de que temos mesmo o direito de nos apaixonarmos pelo futebol. O direito a ficar totalmente encantando pelo futebol. Porque não é pelos milhões, nem pelo charme dos emblemas, nem pela grandeza da competição, que aquelas pessoas viveram o que viveram no Estádio da Luz. Foi por causa dos jogadores, autênticos mágicos a transformar aquilo que são sonhos em noventa minutos de realidade.

Frutos que nascem fora de época

Não seriam estes os tempos ideais para fazer a defesa da paixão pelo jogo. Vivemos num mundo intoxicado pela gestão das expetativas daqueles que apenas querem viver o futebol. Semana após semana transtornam as emoções do jogo em discussões estéreis. Colecionam-se mais pormenores dispensáveis do que golos e fintas. Ocupa-se mais tempo de antena a falar do que não interessa a ninguém, mas contribui para a construção das pequenas nuvens ilusórias de lixo tóxico que tantos querem lançar sobre a sociedade. Por isso, encontrar um estádio onde se possa dizer que aquilo que as pessoas querem é o jogo, é quase um ato de rebeldia. Uma rebeldia que deve ser assumida como um direito inalienável do adepto de futebol.

Não seriam estes os tempos ideais para fazer a defesa desta capacidade que o futebol tem. Cada vez mais dinheiro é aplicado a tentar manipular o desporto para o agrado de um certo poder, seja isso feito na forma de organização de um Mundial no Qatar, seja isso promovido na maneira como dinheiro de origens duvidosas utiliza o futebol, através dos clubes que compra e vende, para se lavar ou lavar as mãos de quem as não consegue ter menos sujas. O futebol tenta resistir, mas entre o evento (ver o jogo, entusiasmar-se com ele) e discutir as suas conexões (entender quem e com que proveito mete o dinheiro na organização do mesmo), há um esforço necessário a fazer sempre que a bola não está a rolar no campo. Aquilo que nos prende é o futebol e o futebol é o que acontece dentro das quatro linhas. Para quem se tenta apoderar do mesmo, temos o tempo todo do mundo para o identificar e condenar.

Não seriam, ainda, estes os tempos ideais para fazer a defesa dos grandes estádios e das grandes competições. Porque olhamos em volta e a resistência ao futebol dos milhões tem efeitos práticos. Cada vez mais gente a procurar os clubes das divisões distritais para ver os jogos junto ao relvado sintético (que saudades dos pelados), jogado por caras conhecidas, entre adeptos que são vizinhos, com a tranquilidade dos dias normais. Cada vez mais gente a procurar viver o futebol de outras formas. Olhando videos de golos, lendo histórias de jogadores, escutando as memórias de balneários que parecem não ter fim. Cada vez mais gente a querer ter direito ao jogo pelo qual se apaixonou. Aquilo que encontrei neste jogo entre Benfica e PSG, onde tive a sorte de estar a trabalhar, foi a possibilidade de ainda termos o futebol das paixões dentro de uma realidade que parece ter-nos escapado das mãos. Uma pequena vitória que nos reconforta e nos leva a continuar a lutar por aquilo em que acreditamos.

Calendário sem pausas

Não há como descansar, o futebol não para mesmo. Na Antena 1, volto a estar em emissão com o jogo entre Benfica e Rio Ave, na tarde de sábado. Na Eleven Sports, vivo as emoções do Chelsea – Wolverhampton e do Barcelona – Celta, uma vez mais antecipando outra semana de Champions League. Vamos a jogo!

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