Querer mais, o estado natural do futebol

Os adeptos exigem e os adeptos devem ter. O futebol é, para quem o vive, paixão e sofrimento, da mesma maneira que parece sempre injusto para quem o trabalha. Mas entre a exigência de rendimento e a nossa capacidade para fazermos a escolha certa, o futebol demonstra-nos como é possível aprendermos com ele a viver.

Os direitos inalienáveis do adepto

Ao adepto do jogo não basta vivê-lo. Precisa, acima de tudo, de sentir que o está a viver com mais gente. Não espanta, por isso, que o adepto seja exigente com a sua equipa, com os seus companheiros de paixão e com todos aqueles que trabalham em redor do jogo. Exige-se ao árbitro, exige-se a quem trata da relva, exige-se a quem vende os bilhetes ou as cervejas ou os adereços do clube. Exige-se a quem fala sobre o jogo, a quem escreve sobre o jogo. Exige-se muito. E exige-se bem. O adepto que segue a sua equipa para todo o lado tem direito a ouvir e a ler quem saiba tudo aquilo que ele sabe sobre a sua equipa e lhe acrescente o conhecimento técnico e histórico, bem como a capacidade de análise para lhe oferecer algo mais pelo qual ele está a pagar, seja no jornal, no digital, na rádio ou na televisão.

Quem trabalha no jogo tem assim a responsabilidade de responder a quem está do outro lado. Não se trata apenas do adepto de um dito clube, o fanático, que apenas acompanha a sua equipa. Há adeptos de uma Liga. Há adeptos dos treinadores e dos jogadores de um determinado país. Há adeptos do futebol. A todos eles temos que saber responder. Até porque trabalhar no futebol é trabalhar num meio onde muitos e muitas sonham trabalhar. Não é um trabalho especialmente bem pago na maior parte dos níveis. Em muitos casos, até, depende de um certo voluntarismo para se construir carreira e nome. Não é um trabalho tranquilo, certo, rotineiro. Não é um trabalho onde possas dizer que escapas da pressão. Mas tudo isso é assim exatamente por tanta gente querer saber daquilo que fazes. Os que jogam, os que vêem jogar, os que queriam estar ali, os que se mantém muito indignados pelo futebol existir.

Essa responsabilidade transforma o trabalho no futebol em algo mais do que um emprego, em muito mais do que um hobbie. Tens que ver muitos jogos que não verias se fosses um simples adepto. Tens que ler muito mais coisas do que lerias do que tivesses uma outra ocupação qualquer. Tens que saber tudo, para que durante os noventa minutos do jogo, ou as curtas intervenções que possas ter noutra plataforma, deixes quase tudo isso por dizer. É um trabalho onde o conhecimento serve, acima de tudo, como uma base, sólida mas sempre questionável, onde assentas as tuas análises sobre aquilo que vai decorrendo em tempo real. Não é propriamente um trabalho de glamour que uma ou outra fotografia parecem sugerir. É o exato contrário disso. Uma longa e atarefada demanda por conhecimento que se filtra num momento só.

A constante demanda do rendimento

Quando se chega ao futebol profissional, o sonho e o estatuto esboroam-se num instante. Não são aqueles que mais sonham que ali conseguem entrar. Pelo contrário, são os que mais trabalham, os que mais sofrem, os que mais se sacrificaram. Os grandes jogadores parecem sempre reservar muito pouco tempo para as histórias engraçadas que viveram. Os verdadeiramente grandes jogadores estariam, provavelmente, a pensar noutra coisa. No peso de uma derrota que tinham que evitar, na responsabilidade inequívoca do que representavam para si e para os outros, no limite que ainda quereriam quebrar para se inscreverem na história. Todos os grandes jogadores sabem que o estatuto é algo que se apaga como uma vela de pavio curto. Eles próprios tiveram que enfrentar e ultrapassar os ídolos que ficaram para trás de si.

É também por isso mesmo que o futebol será sempre um jogo operário. Apesar das suas raízes burguesas, dos aproveitamentos capitalistas que dele sempre foram feitos ao longo da sua história, a destreza daqueles que o pretendem utilizar para outros fins, são os operários que fazem o jogo. O treinador que não dorme uma semana inteira para tentar encontrar a resposta certa para o jogo que aí vem. O jogador que mesmo lesionado e com dores não deixa de entrar em campo para defender o seu trabalho. O adepto que sofre. Todos aqueles que colocam o seu esforço e a sua dedicação no alcançar de objetivos que o jogo, tantas vezes bafejado pela sorte ou pelo azar, nos poderá oferecer.

Também por isso a crítica é sempre mais justa do que a bola. Uma bola bem rematada pode não causar perigo algum. A crítica, mesmo quando desviada, toca sempre uma das raízes mais absolutas do jogo. Joga-se para ganhar. Desde o maior caceteiro ao maior artista da bola, todos jogam para ganhar. Todos sabem que ganhar é bem melhor do que empatar ou perder. Todos têm noção clara de que os resultados fazem as sensações, as emoções, as medidas, as análises, as conclusões. Quem inventou o termo resultadista esforçou-se para tentar dar uma dimensão negativa ao facto mais simples do jogo. Existem aqueles que ganham, existem aqueles que perdem. E todos temos certos que no final do campeonato, uns e outros começarão do zero para tentar melhorar aquilo que conseguiram fazer.

A injustiça-se combate-se com evidências

Eu, enquanto adepto, já me senti injustiçado. Eu, enquanto pessoa que trabalha no futebol, já me senti injustiçado. Nunca encontrei outra forma de combater esse sentimento de injustiça que não fosse com evidências. Como adepto, tentando perceber melhor aquilo que acontece no jogo, nas suas regras, nas suas táticas e estratégias, na sua formulação, no seu desenvolvimento. Como comentador, percebendo as críticas, analisando o meu trabalho, refinando a minha preparação, enquadrando melhor tudo aquilo que vou aprendendo, sempre duvidando de mim, sempre melhorando o meu processo de trabalho.

É óbvio que treinadores e jogadores também se sintam injustiçados. O treinador que foi campeão, que fez autênticos milagres e que se vê criticado por um início de temporada que se complica. Um treinador que talvez não tenha total responsabilidade de parte das escolhas que o levaram até esse ponto, mas, ainda assim, um treinador que dá a cara pelos resultados que alcança ou não. Mas, pensando no caso de Rúben Amorim, só há uma forma de lidar com essa sensação de injustiça. Focando-se naquilo que pode fazer para tornar melhor a sua equipa e os seus jogadores. Afinando os seus métodos, questionados pelos resultados, reforçados pela reflexão que pode fazer. No futebol, como em tudo na vida, isso pode correr mal ou bem. Mas é esse o caminho que o treinador tem que seguir.

Para o jogador o caso é ainda mais doloroso. Porque o jogador, melhor do que qualquer outro, convive diariamente com as suas limitações. Já foi um jovem que teve que provar o seu valor. Nesse período, cada dia sentia ficar melhor a entender aquilo que o contexto lhe exigia. A partir de determinado ponto, as coisas começam a correr noutra direção. Pode parecer um momento, uma fase má, mas não há como travar a passagem dos anos, o aparecimento de outros jovens que, como ele, o questionam naquilo que ele sente ser a sua identidade. Não é fácil ser Cristiano Ronaldo. Nunca foi. Mas se enquanto teve algo para provar, Cristiano Ronaldo teve que lutar contra tudo e contra todos, hoje, para entender a sua posição no universo do futebol, Cristiano Ronaldo só tem que lutar contra si próprio. Que essa luta lhe seja leve e o permita continuar a ser aquilo que ficará na história. Um dos poucos que tocou o céu e disse que o céu podia ser seu.

Uma semana inteira de futebol

Depois de uma curta paragem, regresso aos comentários do futebol internacional com o Barcelona – Villarreal, já esta noite. Estarei, no sábado, a comentar o Manchester City – Brighton e, no domingo, com um escaldante Bétis – Atlético de Madrid, antes de mais uma jornada Champions League, sempre com a Eleven Sports. No futebol nacional, o jogo mais esperado de todos, o FC Porto – Benfica, para acompanhar esta sexta-feira na Antena 1. Rola a bola!

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