Vivemos uma época onde convivem ainda noções muito diferentes daquilo que é o desporto e a prática desportiva. Procurar encontrar caminhos para clarificar estes conceitos e alimentar uma discussão sobre a implementação dos mesmos no terreno é, portanto, uma necessidade à procura de resposta. É isso que vamos tentar neste espaço de opinião do TORRES VEDRAS WEB.

Se procurarmos no dicionário, a palavra “desporto” apresenta como significado “prática regular de uma atividade que requer exercício corporal e que obedece a determinadas regras para lazer, para desenvolvimento físico ou para demonstrar agilidade, destreza ou força; atividade que se faz por diversão ou entretenimento; passatempo”.

No entanto, se continuarmos nesta busca e nos depararmos com a Carta Europeia do Desporto, podemos entender que, nos seus objetivos já aparecem assinaladas questões sobre “relacionamentos sociais” entre praticantes, dentro de “ambientes seguros e saudáveis”, “em cooperação com organismos desportivos” e ainda as “bases morais e éticas do desporto”, a “dignidade humana” e a “proteção” de quem o pratica.

A teia vai-se complexificando e encontramos nos trabalhos de Jorge Araújo, reconhecido treinador de basquetebol, a ideia da Educação Física e do Desporto como “imprescindíveis meios de cultura e desenvolvimento social”. Aqui chegados, permitam-me adicionar que a prática desportiva, hoje em dia, para além de ser uma escolha individual que potência o bem-estar, tem também uma forte presença no modo de entendimento do mundo. Somos influenciados pelo discurso desportivo, dia após dia, na sua vertente mais mediática, mas também tocados pelos ensinamentos que recolhemos dos jogos que são, desde a sua génese, uma espécie de simulação da vida dita real.

Para além disso, há também que entender o elevado grau de investimento humano e financeiro que rodeia toda a prática desportiva. E se os milhões que se gastam no alto rendimento são, para o banal cidadão, uma realidade muito distante, há que entender que todos os pais e mães acabam por sentir esse peso no seu orçamento, na forma como patrocinam a existência das equipas dos seus filhos, não só diretamente, mas também, de forma indireta, através dos subsídios que chegam de instituições públicas. Para não falar de todos os outros que, seja como juiz, árbitro ou treinador, fisioterapeuta ou preparador físico, também se vêm envolvidos neste universo.

Aquilo que se pretende é que o Desporto seja encarado e percebido nas suas dimensões mais globais, como uma forma de desenvolvimento humano – no seu todo, e não apenas físico -, de enorme impacto na existência cultural de pessoas e lugares, criador de novas dimensões de relacionamento social e afetivo, com uma capacidade de leitura filosófica e política constantes. Conseguir ultrapassar as barreiras que, ainda hoje, se erguem contra aqueles que vivem o Desporto desta forma mais completa é um objetivo que nos deve guiar, até porque quanto mais informados estejam todos os envolvidos, desde o jovem atleta até ao pai, desde o treinador até ao amigo que nos acompanha para ver as competições, melhores resultados se poderão vir a tirar do nosso envolvimento.

Não sintam este incitamento como estranho ou inacessível. Porque até o poeta Juvenal, na Antiguidade Clássica, já escrevera que aquilo que as pessoas devem desejar na vida é “uma mente sã num corpo são”. Mens sana in corpore sano, uma frase que nos é tão familiar por aparecer inscrita no emblema de uma das maiores associações desportivas do nosso concelho, a Física.

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