Theo Zagorakis4 de julho de 2004 não foi um dia como os outros. Toda a excitação do Euro em Portugal se havia desenrolado para o momento de tensão máxima, neste dia em que os portugueses jogavam a sua primeira final de uma grande prova internacional. Pela frente, a frágil e temida Grécia, que nos havia derrotado no jogo de abertura, mas que pouco acreditavam ter ainda a capacidade de nos surpreender. Ora, ao final do dia, haveríamos de perceber que não era bem assim.

Não sei se há algum português que se lembre bem deste jogo, do primeiro ao último minuto. Porque toda a emoção se foi esvaindo, pingo a pingo, com a passagem do tempo sem que Portugal conseguisse marcar. Era essa a simples matemática daquele dia – se marcássemos primeiro, seríamos campeões, se fossem eles… Ainda antes do intervalo, Miguel lesionou-se e Paulo Ferreira entrou para o seu lugar, mas nem isso fazia soar qualquer alarme.

O golo surgiu pouco depois do regresso dos balneários. Na baliza errada. A baliza maldita de Ricardo. Onde ele havia perdido um título de clubes. Onde agora via Charisteas chegar com a cabeça onde as suas mãos não alcançavam. A Grécia na frente. Saiu Costinha e depois Pauleta, entraram Rui Costa e Nuno Gomes. Onde já havia Deco, Luís Figo e Cristiano Ronaldo. Era todo o nosso talento dentro de um relvado que teimava a não nos ser favorável. Porque todas as iniciativas pareciam ter um jogador grego no seu final. E tantas dessas vezes era Theo Zagorakis, o incansável capitão, quem lá estava.

O jogo terminou com muitas lágrimas nas caras dos nossos, mas era impossível não sorrir, também, perante o quadro. Do que nos valeria uma vitória, perante o enquadramento brutal daquela derrota sofrida por quem nos parecia inferior? Que maior aprendizagem poderíamos ter sobre nós próprios, sobre toda a nossa história, do que ver Zagorakis ajoelhado no centro do relvado do Estádio da Luz, os braços elevados aos céus, quem sabe agradecendo a algum Deus do Olimpo o feito alcançado. O mesmo Zagorakis que diz, numa entrevista, que não vão pedir desculpa a ninguém pelo ter conseguido, da forma como o conseguiram.

Vestiam as camisolas dos Deuses, mas eram humanos. Humanos como nós, mais próximos da terra, porque desprovidos da adoração que oferecemos durante um mês aos que eram os nossos. Minutos depois, pelas ruas da minha cidade, era só o silêncio que se escutava. Um silêncio fundo, pesado, não de gente adormecida, mas de gente magoada pelo destino. Foi apenas há doze anos. Não sei se alguém se poderá recordar do que aconteceu com o todo o pormenor.

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