Sábado à tarde, quase noite lá fora, o som da televisão bem baixinho. Dou um salto, grito “golo!!”, perguntam-me porque estou a gritar no sofá. Podia ser o golo do Quinzinho, em 1996, quando Angola quase ganhou aos Camarões. O golo de Avelino, em 1998, único dos Mambas numa passagem de Moçambique para esquecer, em 98. Ou os golos de Manucho, em 2008, na vitória frente ao Senegal que levou os Palancas Negras aos quartos-de-final (ainda que esse o tenha visto no café). Podia ser o golo de Heldon, no último minuto, quando Cabo Verde surpreendeu o mundo em 2013. Foi Juary. O primeiro golo da Guiné-Bissau na história da Taça das Nações Africanas.

Valeu um ponto, frente ao poderoso Gabão, que joga em casa, mas isso é, muito provavelmente, secundário. A CAN é uma experiência emocional, muito antes de ser uma competição. Muitos dirão que já não é a mesma coisa, com aqueles estádios feitos ao modelo europeu, com dinheiros chineses, as principais estrelas educadas em academias de grandes clubes europeus, uma proximidade com tudo o que já não tem corpo para ser mistério. Mas estão errados. Simplesmente porque, para lá daquela sensação de pertença às cores dos países que falam português, basta ver como os jogadores têm que resistir ao calor e à humidade intensa, como Aliou Cissé brilha com todo o seu estilo no banco do Senegal, como Khama Billiat se passeia pelo relvado com a bola controlada. É outra coisa, é outro ritmo, é essa possibilidade infinita do futebol como elemento de libertação social, política, cultural. Uma experiência emocional, digo eu, entrecortado pelo grito que solto a partir do meu sofá.

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