Jorge Araújo, especialista em Liderança, Trabalho em Equipa e Comunicação, com larga obra publicada em livros, revistas e jornais, mantém uma crónica semanal no jornal O Jogo que aconselho a leitura (e incito o autor a, em breve, reuni-las em livro). No artigo de 16 de dezembro, o Professor que, enquanto treinador de basquetebol conquistou imensos títulos, discorre sobre a influência da área comportamental na gestão de uma equipa e os caminhos que os treinadores podem adotar para suprir uma lacuna que, incompreensivelmente, ainda é parte do presente.

Apesar da área comportamental ter vindo nos últimos anos a ser cada vez mais estudada e aprofundada, são ainda nos dias de hoje muito significativas as dificuldades da generalidade dos treinadores na abordagem deste assunto.

Uma das grandes dificuldades que os treinadores sentem ao gerir problemas da área comportamental prende-se com a forma como lhe escapa a gestão do seu próprio comportamento. Mesmo com os estudos que se propõem nesta área, com a imensa literatura disponível e com o conceito de liderança a ser repetido insistentemente por aqueles que têm responsabilidades nas equipas, o primeiro passo, que é pessoal e interior, aparece como o mais difícil de dar.

Um treinador pode adotar um discurso positivo em relação aos seus princípios e valores, pode até tê-lo escrito, através de máximas, nas paredes do balneário, mas não lhe encontrará qualquer solidez se, nos momentos de maior pressão ou exigência competitiva, ignorar aquilo que, à partida, diz defender. É fundamental ter a perceção de que, para se ser um líder de uma equipa, é preciso ser-se líder de si mesmo, conseguindo controlar as emoções, trabalhar as atitudes e gerir todo o seu comportamento conforme a objetivos pré-definidos.

O melhor líder não é, portanto, aquele que é mais forte, ou mais intrépido ou mais conhecedor do desporto em que está inserido. O melhor líder é, sempre, aquele que melhor se preparou para o ser e, de forma mais acertada, vai sabendo intervir, conforme os seus princípios e valores, no timing mais benéfico.

A ênfase constante nos resultados, sem uma compreensão efetiva de quais os comportamentos que lhes dão origem, não tem de facto ajudado aos avanços necessários em tudo o que respeita à área comportamental.

As dificuldades de organização de um quadro comportamental de qualidade prende-se com a forma como avaliamos o trabalho do treinador. Ao colocar-se o prumo nos resultados da equipa, ignora-se, muitas vezes, como é que determinada equipa os consegue atingir. E se isso é enganador para quem analisa o trabalho do treinador do lado de fora (adeptos, comunicação social), pior será quando quem está por dentro o faz da mesma forma (diretores, jogadores e os próprios jogadores).

Ouve-se muitas vezes dizer que, no final, o importante é se “a bola entra, ou não” na baliza. Verdade. Uma equipa pode sair vencedora de uma competição graças a um erro básico de um adversário, a um remate desviado na sua trajetória, a uma lesão ou ausência que modifique o equilíbrio de forças. Mas se o resultado nos serve para conhecer quem ganha, em cada jogo, o importante para sabermos que equipas temos é perceber como é que esta se comportou durante o jogo.

Daí a importância de um conhecimento mais profundo sobre aquilo que as equipas fazem em campo, tal como de um conhecimento global sobre os elementos da equipa, aquilo que lhes é pedido e sugerido, aquilo que é treinado e a forma como todos esses dados se conjugam para um outro resultado, o resultado de um processo de trabalho liderado pelo treinador.

Todos os comportamentos são observáveis e mensuráveis. O que significa que é fundamental que todos os jogadores saibam previamente quais são os comportamentos e atitudes que se pretendem ver praticados.

É fundamental que as regras sejam estabelecidas logo no início do processo de treino e que estas sejam do conhecimento de todos os integrantes da equipa. Jorge Araújo refere o exemplo dos treinadores de basquetebol americanos, que em todas as equipas e em todos os trabalhos realizados colocam sempre a sua filosofia de jogo como primeiro ponto a referir, algo que também já sublinhei em artigos anteriores.

Para gerir uma equipa é fundamental que essa filosofia (“Princípios, Valores, Visão e Missão”) possa gerar uma escala de avaliação gerida pela equipa técnica, de modo a não deixar qualquer dúvida aos intervenientes. Com isso em mente, será possível observar e medir os comportamentos adotados em cada passo do processo, fazendo as intervenções necessárias para manter a coesão do grupo.

Uma vez mais, este é um trabalho que começa por ser pessoal, do interior do treinador e da sua equipa técnica, até a um ponto mais global, em que engloba todos (jogadores, diretores, staff). O sucesso de cada equipa, e a sua forma de atingir resultados, passa por um domínio do “que fazer?” e “como fazer?”, e não apenas por uma bola que entra, ou não, na baliza.

Todas as citações retiradas do artigo “Treinador, líder e gestor”, de Jorge Araújo, publicado no Jornal O Jogo (16/12/2017)

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