Fui convidado pela Footure FC para participar na antevisão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, com uma análise sobre a equipa portuguesa.

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O mais interessante na equipe do Futebol Clube do Porto esta temporada, é a dinâmica. Ou seja, seria demasiado limitado tentar cristalizar um momento da equipa azul e branca, dizendo que a equipa joga “x”, quando, na verdade, a grande qualidade da equipa de Sérgio Conceição passar, exatamente, pela sua evolução na continuidade.

Existem algumas regras básicas para o treinador português, naquilo que poderá ser considerado o seu modelo. O Porto é agressivo, com e sem bola. Essa agressividade é, sobretudo, tática, na forma como  limita os espaços dados ao adversário, quando não tem bola, e na maneira como procura alargar a sua frente de ataque, com vários elementos eminentemente físicos, quando a recupera. Daí ser normal ver este conjunto defender com um bloco muito alto, ou com alguns elementos da sua primeira linha de defesa fechando o jogador com bola.

Outra regra básica no jogo do Porto é a solidariedade. A equipa defende como um todo, buscando constante cobertura no seu coletivo sempre que um elemento é ultrapassado, confiando enormemente na qualidade de um triângulo defensivo constituído, originalmente, pelos centrais Felipe e Iván Marcano e pelo médio-defensivo Danilo Pereira.

Passemos ao ataque. Falei do aspeto físico porque, sobretudo na Liga portuguesa, esse tem sido tão importante para o sucesso do Porto. Aboubakar e Marega são dois avançados possantes, com o camaronês a aparecer mais como um elemento de área, enquanto o maliano se lança a partir da faixa para aparecer nas zonas de finalização. Outro africano, o argelino Brahimi, é o elemento mais criativo da equipa e é dele que nasce o maior número de situações de desequilíbrio do Porto, seja através de jogadas individuais, seja na forma como serve os avançados.

Mas o processo dinâmico de que falava surge, sobretudo, neste espaço intermédio entre defesa e ataque. Danilo Pereira, lesionado, falhará, pelo menos, o primeiro jogo, o que mexeu, de novo, com a organização da equipa. O mexicano Héctor Herrera desce no terreno para ocupar essa posição, com Sérgio Oliveira a surgir como o médio-centro que alimenta essa ligação. Herrera, Sérgio Oliveira e Óliver Torres são os três elementos que, ao longo da época, foram assegurando essa missão essencial para que o futebol do FC Porto respire.

Herrera dá largura na faixa e presença na entrada da área quando tem essa missão. Sérgio Oliveira é um jogador mais sólido defensivamente, mas com enorme qualidade de passe. Óliver Torres será o mais criativo deste trio, sendo um jogador com capacidade para se integrar na pressão alta, mas com maiores dificuldades no espaço físico da luta a meio-campo. Cada um deles tem servido, de maneiras diferentes, as intenções de Sérgio Conceição, que também vai navegando entre o 4-4-2 e o 4-3-3.

Fecho com um elemento preponderante do jogo do Porto. Os seus laterais funcionam como verdadeiros extremos, seja em que desenho a equipa jogar – mesmo no 4-4-2, os elementos mais adiantados das faixas tendem a ficar por dentro, com Ricardo Pereira, pela direita, e Alex Telles, pela esquerda, a chegarem na área. O brasileiro é, mesmo, o líder das assistências na equipa, seja em bola parada ou corrida, sempre que os Dragões jogam, vai surgir bola de Alex Telles a pedir golo dentro da área.

Se dentro do campo as armas se constituem na faixa esquerda, com Alex Telles e Brahimi a serem os criadores de oportunidades da equipa, o elemento que pode manter este FC Porto na luta frente ao Liverpool é o seu treinador, Sérgio Conceição. O técnico português não tem medo de arriscar e, conforme o contexto do jogo que tem a enfrentar, prepara a sua estratégia para criar problemas no adversário. Quando as coisas não estão dentro do esperado, também revela uma boa capacidade de leitura e adaptação à realidade do jogo, mexendo na equipa de forma a consolidar a situação a seu favor.

Antes do mercado de janeiro, o plantel tinha algumas limitações, que obrigaram Conceição a procurar maneira de retirar o máximo dos seus jogadores, e por aí acabou dando oportunidades a jogadores como José Sá, Sérgio Oliveira ou Marega que, em agosto, poucos esperariam ver com minutos de jogo. As chegadas de Waris, Gonçalo Paciência e Yordan Osorio permitem ao treinador ter mais alternativas na frente de ataque e mais um elemento que pode jogar entre defesa e meio-campo, tendo cabido ao brasileiro Paulinho, chegado do Portimonense e talvez o jogador com mais potencial para ser titular entre os reforços, o azar de ficar excluído da lista da UEFA, condicionado pelo facto de haver mais opções no meio-campo portista.

As ausências vão pesar na equipa do FC Porto. No triângulo defensivo, a ausência de Felipe, suspenso, e de Danilo Pereira, por lesão, no primeiro jogo da eliminatória, quebrarão alguma da confiança defensiva da equipa, ainda que Diego Reyes e Herrera, nas posições dos ausentes, revelem capacidades. Se considerarmos a diferença de ritmos competitivos a que ambas as equipas estão acostumadas, é óbvio que os portugueses não serão considerados favoritos. Essa exposição, no momento defensivo da partida, poderá causar problemas para manter a baliza inviolada.

Por outro, essa fragilidade poderá determinar um jogo mais ofensivo do time de Sérgio Conceição, lançando a eliminatória para o território do imprevisível. Esse cenário, por inseguro e calamitoso que possa parecer, não deixará de agradar ao técnico português. É exatamente esse clima de guerra e de necessidade de afirmação que poderá potenciar o rendimento dos seus jogadores. Se tudo for calmo e previsível, as armas do FC Porto perderão seu efeito.

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