Em entrevista à revista espanhola Panenka, o internacional português André Gomes assume as dificuldades para viver a sua vida, tendo em conta a pressão que coloca sobre si próprio. É mais um exemplo que nos chega daquilo que é o “viver o sonho” de se ser profissional de futebol.

O vídeo com excertos da entrevista de André Gomes, jogador do FC Barcelona, é sintomático de tudo aquilo que se passa com este homem. Os problemas dentro de campo passaram a ser problemas da sua vida, e neste momento, combate para conseguir ter uma vida normal. André Gomes revela o medo que tem de sair à rua, a vergonha de ter de enfrentar possíveis críticas pela situação em que se encontra, o enfado que lhe causa as pessoas que lhe são próximas considerarem que ele pode dar ainda mais. Neste momento, a André Gomes, só lhe interessa ser ele próprio.

O exemplo de André Gomes é, infelizmente, só mais um dos muitos que vão sendo revelados. Fomos educados e crescemos a olhar para o jogador de futebol como um sortudo, que não precisa de trabalhar para viver o sonho de só jogar, para além de ter em si, também, toda a confiança do mundo para o fazer perante milhões de olhares.

Exemplos para mudar o paradigma

As histórias de depressões, de dificuldades para lidar com a pressão, de problemas de saúde associados ao imenso stress que representa ter uma profissão que é, diariamente, avaliada por gente do mundo inteiro em todos os seus detalhes, têm sido bastante reveladoras de um estado da arte que nos obriga a repensar a forma como estes homens e mulheres são tratados.

Estamos perante pessoas que desde a sua infância são colocados sob a necessidade do rendimento. Muitas vezes aos seis, sete ou oito anos de idade já estão a ser avaliados pelos seus pares e por adultos, que decidem da possibilidade de poderem jogar nas melhores equipas. A partir do momento em que entram no futebol federado, essa avaliação é quase diária, pela pressão da presença nos treinos, das convocatórias para os jogos, dos minutos que tem direito a estar em campo.

Uma grande maioria dos educadores não pesa o suficiente as consequências que este trajeto tem no adulto que está em construção. Para todos aqueles que vão ultrapassando as diferentes etapas com sucesso (o André Gomes é um desses casos, internacional nos escalões de formação, assinou contrato profissional com o Benfica, tendo passado pelo Valencia e sendo, agora, jogador do FC Barcelona), cria-se uma espécie de bolha, que quase visa entender aquele homem como um invencível.

Para quem faz este trajeto, muitas vezes, está perante uma situação da qual não se pode encontrar saída. Se durante a adolescência a pressão aumenta, mas também o eventual prémio de se conseguir assinar um contrato profissional, a partir de determinado momento, esse prémio (ter uma profissão) começa a ser mais insuportável do que a necessidade de render. Ainda há poucos dias Per Mertesacker falava do seu exemplo e de como sente a necessidade de fechar, definitivamente, esta etapa da sua carreira.

Tenho um imenso respeito por todos os jogadores de futebol, por ter uma noção bem aproximada da escalada de sofrimento que “viver o sonho” pode representar. E enquanto espero que André Gomes ultrapasse esta etapa, recuperando o prazer de viver e de jogar futebol, acredito que muito há a fazer para que, no futuro, sejam menos os exemplos de homens e mulheres que tenham que passar por isto. De alguma forma, ao revelar-se, André Gomes está a dar um grande contributo para essa mudança.

Se ainda não conhecem, comprem a revista Panenka. Um dos projetos que vale a pena apoiar no mundo da comunicação no futebol. 

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