Numa semana em que temos assistido a uma demonstração da pior forma de gerir um clube de futebol, no que toca aos seus ativos desportivos, da parte de Bruno de Carvalho, Jorge Jesus emerge como o elemento que mantém o foco naquilo que é mais importante para o seu grupo. São os muitos trabalhos do treinador que acabam por ficar em exposição, numa situação ainda sem fim à vista.

Ignoramos, muitas vezes, a forma como a gestão de uma empresa ou de uma associação acabam por condicionar o trabalho das suas equipas. Num clube de futebol, isso é tanto mais grave quanto, no seu quotidiano, a avaliação do próprio clube se faz através do rendimento da sua equipa de futebol profissional.

Por esta razão, é normal estarmos perante situações em que os seus dirigentes acabam por, em defesa dos interesses desportivos que estão acima de quaisquer outros, tomar decisões que visam ocultar ou desviar as atenções de problemas que possam afetar os jogadores da sua equipa. Esta semana, no entanto, Bruno de Carvalho demonstrou como fazer tudo ao contrário daquilo a que estamos habituados.

Resistir a Madrid

Jorge Jesus tudo fez, a partir do final do encontro frente ao Atlético de Madrid, para manter a sua equipa concentrada nos objetivos que tem em aberto. Como voltou a lembrar, ontem, após o jogo com o Paços de Ferreira, no momento de fazer determinadas críticas, é bom que se olhe ao contexto de cada jogo e, como bem sublinhou, defrontar o Atlético de Madrid no seu estádio não é uma missão fácil. O técnico leonino já tinha sentido na pele as consequências de outro desaire em Madrid, na temporada passada, quando depois de uma exibição frente ao Real, em que o Sporting se apresentou face a face com o campeão europeu, a derrota nos últimos minutos fez tremer a estrutura leonina, que reagiu com negatividade num ambiente em que uma resposta positiva seria o mais esperado.

A situação escalou a partir do momento em que, perante a forma como Bruno de Carvalho lidera a sua ação – gerindo o clube a partir dos posts de Facebook -, os jogadores não quiseram ficar atrás, demonstrando também a sua união na defesa do grupo. Neste momento, ter-se-á percebido que o balanço das forças em questão estava agora em aberto. Mas em pleno Século XXI, não se pode esperar que uma liderança que ameaça, que perturba e que lança suspeitas sobre a sua equipa possa ser bem sucedida no seu trajeto. É, simplesmente, um perfume a passado que não faz qualquer sentido. Enquanto os jogadores, tomada a sua posição, se mantiveram firmes, jogando e vencendo o Paços de Ferreira, sem mais referências exteriores ao caso, do lado do presidente o ritmo de publicações não abrandou.

Os trabalhos do treinador

Independentemente dos méritos e deméritos do trabalho do treinador Jorge Jesus na presente temporada, este domingo o técnico demonstrou que, numa situação de gestão de crise, é ele “a estrutura” do futebol deste Sporting. Assume, assim, para lá do trabalho técnico na equipa, também a gestão de conflitos entre administração e jogadores, ao mesmo tempo que teve que ser ele a assumir, publicamente, as respostas ao caso em questão. Entre os jogos de quinta-feira e domingo, não houve nenhuma comunicação oficial do clube, apenas a presença de Jorge Jesus numa conferência de imprensa onde tentou deitar água na fervura que se subentendia estar a acontecer.

Ora, como bem poderemos entender, não há quem possa ser bem sucedido a manter vários trabalhos a tempo inteiro ao mesmo tempo. Jorge Jesus acaba, aqui, por ser o exemplo típico da forma como se expõe o treinador a todo o tipo de situações, grande parte delas bem longe daquilo que deve ser o seu papel, seja na comunicação, na gestão ou na diplomacia do clube. Situações como estas acabam por manter a confusão natural entre aquilo que é o papel de um treinador, líder de uma equipa técnica, e a estrutura de um clube, que deve ser liderada pelo seu Presidente ou Diretor Desportivo, na definição e defesa dos interesses do grupo que, a nível desportivo, apresenta o factor de rendimento em análise. Todas as decisões que acabam por turvar, ainda mais, esta definição, acabam por ter um peso enorme na cobrança, quer ao treinador, quer à própria equipa.

Situação diretiva e situação desportiva

O conflito alastrou-se, entretanto, aos sócios do Sporting e aos seus órgãos sociais, com o Presidente da Assembleia Geral a colocar em causa a continuidade do Presidente da Direção. As afirmações foram do tempo e do espaço considerados corretos mantém-se, revelando um descontrolo institucional sem fim à vista. Ao mesmo tempo que se transformam as bancadas em território de conflito, a vertente desportiva do clube mantém objetivos em aberto.

Para o treinador, o ideal seria o poder-se posicionar para lá de tudo este quadro, definindo o foco para os jogos frente a Atlético de Madrid (Liga Europa), Belenenses (Liga NOS) e FC Porto (Taça de Portugal), isolando os seus jogadores de mais questões e confusões. Mas a única forma de o fazer, neste momento, parece estar dependente de uma estratégia de comunicação, que não lhe cabe a ele definir, que levasse o conflito para longe do balneário.

Com os jogadores e o treinador a serem os únicos elementos presentes nos momentos de comunicação previstos para os próximos dias, parece inevitável que a contaminação do projeto desportivo por uma má condução do clube continuará a lesar a avaliação possível e necessária ao trabalho da equipa. Em última análise, um eventual incumprimento dos objetivos traçados para o último terço da temporada parece fatalmente destinada a escapar à análise desportiva. E, com isso, todos saem a perder neste caso.

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