233 jogos depois, Leonardo Jardim saiu do Monaco despedido. Foram quatro épocas a terminar, sempre, no pódio, um título de campeão perante o todo-poderoso Paris Saint-Germain e uma presença nas meias-finais da Liga dos Campeões. Foram mais de 650 milhões de euros. Sempre sob o espectro da saída dos seus melhores jogadores, Leonardo Jardim cumpriu tudo aquilo que prometeu no AS Monaco. E nem assim mereceu o benefício da dúvida.

Quando se olha para o futebol profissional como um mundo cruel onde cada elemento está sempre sob o risco de não ser capaz de assegurar a continuidade do seu posto de trabalho, muitas vezes ignoramos que isso se deve a uma profunda incompetência de quem gere. Quem, em qualquer outra área de trabalho, seria colocado em causa, ao ponto de ser demitido, apresentando os resultados de Leonardo Jardim? Mesmo entendendo esta fase como um período negro, de dez jogos sem vencer, com a equipa em lugares de descida, a verdade é que, no passado, Leonardo Jardim passou por situações semelhantes para terminar a época em alta.

O momento do despedimento acaba por ser ainda mais amargo, se olharmos para o calendário da equipa monegasca. No próximo mês, o AS Monaco terá uma série de encontros frente a adversários onde poderá voltar a encontrar rumo, tanto na Ligue 1 como na Liga dos Campeões, onde o complicado grupo onde se encontra (com derrotas somadas frente a Atlético de Madrid e Borussia Dortmund) pode ainda ser superado tendo em conta que terá dois jogos frente ao Club Brugge (e a Liga Europa ainda é uma possibilidade). No momento em que a equipa poderia começar a sair do “buraco”, o técnico português percebe que não é mais opção.

A saída de Leonardo Jardim não o impedirá de encontrar, no mercado, muitas equipas a desejá-lo. Comprovou a qualidade do seu trabalho ao criar, ano após ano, novas equipas, a partir dos jovens jogadores que lhe eram colocados à disposição. É um formador de equipas nato, tendo também demonstrado que, consoante o contexto, pode criar equipas fortes defensivamente ou fabulosamente ofensivas. É, também, um ganhador, mesmo sendo um homem de equipa, aceitando os projetos que lhe são propostos pela administração do clube. Sai do Monaco tendo cumprido com tudo aquilo que lhe foi pedido, mesmo superando a realidade que lhe colocou, pela frente, tantos obstáculos.

E, no final, não deixa de ser irónico que o anúncio do seu despedimento chegue às redes sociais debaixo do mote “Obrigado, Mister”. Não é de um grande treinador que o AS Monaco se despede. É de um homem que alcançou o impossível. E isso, tanto no futebol profissional, como na vida, sabemos bem como é difícil de alcançar.

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