A análise do jogo de futebol parece estar contaminada pelo facto de, para o analista, ser mais importante a ideia que tem do jogo do que o jogo em si. Tento elencar os riscos dessa atitude, inserida numa tendência para o alastrar de radicalismos na sociedade, ao mesmo tempo que procuro o regresso à democracia no entendimento dos acontecimentos do jogo. Para se analisar futebol, é preciso gostar de futebol. Como quer que ele aconteça. 

Escrever sobre filmes não é a mesma coisa que fazer crítica de cinema. Parece óbvio, mas eu acho que há críticos que, deveras, não gostam de cinema. É preciso ter visto muito e cinema variado. A memória é fundamental. É conveniente ter uma cultura geral tão vasta quanto possível.

Jorge Leitão Ramos, crítico e historiador de cinema

Perguntas-te se gostas de futebol ou se gostas da tua ideia de futebol. Perguntas-te se queres aprender com o futebol ou se queres, apenas, que o futebol que vês corresponda à ideia que criaste como tua.

Vivemos tempos em que o alastramento dos radicalismos nos afasta, cada vez mais, de um diálogo sincero e aberto sobre as coisas. Acontece em todas as áreas da vida, na forma como nos organizamos na sociedade, na política, no amor e, como é óbvio, também no futebol.

Nisto, o futebol não é diferente de nenhuma outra coisa, apenas, como jogo que é, pode encerrar em si, numa espécie de circuito fechado, a simulação de uma vida que se se desenvolve num meio muito menos controlado.

Ora, é o circuito fechado que nos trama, a mim, a todos. A ilusão que um jogo de futebol nos fornece sobre o controlo total sobre todas as coisas que dentro dele ocorrem. Essa ilusão tem sido avassaladoramente alimentada por posicionamentos de treinadores e de analistas que, fugindo ao objeto da sua análise, o jogo, se entregam a uma imagem idílica desse objeto, uma espécie de desejado-futuro, a forma de jogar que se há-de atingir no dia perfeito.

É bom que entendamos que a vida é profundamente imperfeita, logo, o jogo, mesmo que ocorrendo em circuito fechado, por ser de oposição, tenderá sempre, também, para a imperfeição. Por isso me ocorreu a síndrome do mau crítico de cinema. Aquele que, nas palavras de Jorge Leitão Ramos, “escreve sobre filmes”, mas não faz “crítica”. Aquele que, aparentemente, “não gosta de cinema”. Ou por não ter visto o suficiente, ou, sobretudo isto, por não ter visto cinema “variado”.

A cultura geral é uma base essencial para a qualidade da discussão. Podes gostar muito de futebol e teres a tua ideia do jogo, mas tens que, acima de tudo, deter um profundo conhecimento de futebol variado, de diferentes ideias e diferentes abordagens, que te permitem posicionar perante o jogo que vês.

Terás, sempre, que estar disposto a aprender com as várias visões possíveis do jogo, venham elas de treinadores com ideias profundamente trabalhadas, venham elas de estratégias que surgem de uma aplicação a um contexto determinado que assim o exige.

E, acima de tudo, a análise do jogo tem a obrigatoriedade de ser constitucionalmente democrática, porque tem que entender que na vida tudo é passível de existir e que a análise e a crítica não caminham para um delinear de perfeições, mas para o entendimento dos acontecimentos.

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