Olhar as origens, reconhecer a especificidade, participar na discussão, construir comunidade. Um retrato dos caminhos que percorremos para chegar cada vez mais longe na possibilidade de viver o futebol como ele nos sugere que o façamos. Abertos a todas as possibilidades.

Nesta última semana, no intervalos da bola, andei a ver a série “Hip-Hop Evolution”, de Shadrach Kabango, ou Shad K., estudioso do movimento do Hip-Hop e, também ele, artista e produtor de um programa de rádio sobre o assunto. As várias coisas que me atraem neste fenómeno estão muito bem retratadas na série, desde a construção de um fenómeno musical a partir da desconstrução rítmica de outras músicas, as origens muito marcadas a partir de diferentes culturas de rua, a capacidade de criar uma comunidade musical que, no mesmo ambiente, encara o lado festivo e o lado de intervenção social com igual peso e assertividade.

Bastaria isso para fazer o caminho, em mim, quase sempre, natural, de associar a forma de fazer determinadas coisas ao que se faz no futebol, criando pontes, comparando equilíbrios, desenhando possibilidades. Ora, esta série, dá um passo mais à frente no entendimento do fenómeno do Hip-Hop, que permite, de forma ainda mais apurada, caracterizar situações que vamos assistindo dentro e fora de campo. Na maneira como constrói a sua narrativa, Shad K. revela uma preocupação desde o início: estabelecer o momento em que o Hip-Hop nasce e, a partir daí, revelar a forma como as várias pessoas envolvidas nesse nascimento se ligam com as que se seguem.

Olhando as origens

Há sempre uma parte de mim que se ri para dentro quando me falam da falta de qualidade da discussão de futebol nos dias de hoje. Esta sensação pós-modernista de olhar a história como acabada e ver no presente, apenas, a exaltação das contradições desse final. Não precisamos, no entanto, de ir muito longe no tempo para perceber como sempre foi parca a discussão sobre o jogo. Na forma como se treinava até à década de 90, na forma como os melhores intérpretes do jogo entendiam o seu papel dentro do mesmo. A própria ideia de estudo do jogo por quem o comunica só muito tarde entrou na agenda, sendo que, em certos países, esse movimento só mesmo agora, há duas ou três épocas, começa a ser validado.

Foi preciso, tal como na evolução do Hip-Hop, que houvesse quem fosse capaz de desconstruir as músicas dominantes. Treinadores que não ficaram satisfeitos, apenas, com o fazer o seu trabalho, mas que o tentaram discutir e revelar abertamente. Jornalistas e editores que viram nisso uma oportunidade para poder desenvolver novas temáticas para as suas publicações. Abriram-se novas carreiras no futebol, na comunicação, e no final das contas, hoje em dia, os próprios adeptos caminham muito mais informados sobre o que é jogo e como se joga, sendo cada vez mais normal entender a discussão do “como” ao nível da “finalidade” ou resultado. Foi um longo caminho, mas está longe de estar terminado.

A especificidade

Uma visão curiosa da série “Hip-Hop Evolution” passa pela forma como os diferentes intervenientes posicionam o seu trabalho dentro da linhagem. Logo no início do movimento, DJ Kool Herc, Grandmaster Flash ou Afrika Bambaataa, para dar apenas alguns exemplos, marcam as suas ações como definitivas para o que se seguiu, fosse na introdução de inovações tecnológicas, fosse na visão de estender a forma de divulgar a música para lá dos bairros originais. Ainda assim, é bem provável que, hoje, pelo mundo inteiro, ainda exista quem, no seu processo de evolução, coloque o mesmo tipo de questões que estes três artistas colocaram e reinicie a discussão. O que não poderá fazer é dizer-se um grande entendido em Hip-Hop se não conhecer a relevância destes nomes naquilo que fará nos dias de hoje.

O futebol tem essa especificidade, no campo desportivo, por ser um jogo de grande aleatoriedade e por viver nesse dramatismo de se poder decidir com um mínimo número de golos/pontos. Por exemplo, se olharmos para a evolução do basquetebol, situações táticas e comportamentos em jogo modificam-se de forma radical de década para década, quase levando a dar por desconhecido um jogo do outro, se comparado. No futebol, não. Por isso, Pep Guardiola pôde, em Munique, reinventar o 2-3-5, um dos sistemas das origens estudadas do jogo, da mesma maneira que treinadores podem conseguir resultados através da simulação de comportamentos do Catenaccio de Helenio Herrera ou do Futebol Total de Rinus Michels. A maneira de se chegar a um e a outro é que é, hoje, bastante diferente da forma como estes a desenharam. Até quando parece o mesmo, há na verdade um profundo substrato que o comporta de forma muito mais elaborada. Pelo contexto e pelo conhecimento que se produziu ao longo dos tempos.

Isto influi de forma penetrante nas discussões que se podem ter sobre o jogo. Porque, de um lado, o jogo permite mantermo-nos a discutir a mesma essência que se discutiria nos anos 60 em Itália, mas as ferramentas que a história nos ofereceu obriga-nos a fazê-lo de forma a incluir na discussão todo o conhecimento agrupado desde então. Porque, mais uma vez, bastará recuar uns 20 ou 30 anos, para se estar nesse mundo de quase isolamento futebolístico, em que se pode ver pouco mais do que aquilo que se viajava para o fazer, com poucas e mal filmadas transmissões televisivas, centradas numa ou outra final e nas grandes competições internacionais. E, no agora, o adolescente mais interessado já teve tempo para ver, no You Tube, todos os jogos que interessam para desenhar o seu entendimento da evolução do futebol.

A discussão

Estou à beira de fazer 40 anos, pelo que situarei a discussão no meu período de vida, consciente, no entanto, que boa parte das referências televisivas, jornalistícas e radiofónicas são, em boa parte, comuns à minha geração e à geração dos nossos pais. Durante décadas, o “Domingo Desportivo” foi o espaço único para a conversa sobre futebol, os relatos da rádio e as publicações dos jornais que centravam o tema do dia (e qualquer pesquisa num arquivo demonstrará como “a notícia” sempre se centrou mais na transferência e na eventual polémica que vende do que na análise do jogo). A televisão por satélite, primeiro, a televisão por cabo, depois, e a internet, abriu-nos brutalmente a capacidade de ver, ouvir e ler sobre o jogo, o que transforma a nossa capacidade de nos educarmos. Tudo isto, ao mesmo tempo que, nas universidades, milhares de jovens passaram a ter acesso ao estudo do futebol de forma científica.

Nunca, como hoje em dia, foi tão fácil aceder a especialistas nas mais variadas ligas, a construtores de teorias e possibilidades sobre o jogo, à comparação de ideias e, até, à própria fala com quem dirige um canal de televisão, de rádio ou um jornal. Ainda vivi um tempo em que, para falar com um diretor de um jornal, era preciso ter alguém que conhecesse alguém, mostrar o bilhete de identidade numa portaria e entrar numa assustadora e venerável sala do diretor para trocar algumas palavras que nos permitiam perceber quão longe estávamos de tudo aquilo. Hoje, um tweet coloca-nos à altura de qualquer um com essas responsabilidades.

O que esta tecnologia também permitiu foi que, ao longo das últimas duas décadas, se vivesse, cada vez mais, na possibilidade de sermos nós próprios os editores daquilo que queremos do mundo. Podemos decidir o que ler, podemos decidir o que ver, podemos, até, decidir o que ouvir. Só não podemos, felizmente, fazê-lo de forma a apagar o outro. Porque o outro existe e, utilizando a linguagem futebolística do Ricardo Ferreira, temos mesmo que perceber que “o jogo de Futebol não é aquilo que desejamos que seja. O jogo de Futebol é aquilo que, de facto, é.” Se uma certa maneira iconoclasta de ser foi valiosa, no seu tempo, para quebrar um discurso que ainda vinha completamente recalcado da era pré-digital, mantermo-nos hoje com discussões da pré-história da atualidade analítica desmerecendo tudo aquilo que aconteceu e acontece, tal como no Hip-Hop, já não é possível.

A Comunidade

Não nos devemos, por isso, cansar de valorizar a comunidade que já foi possível criar para se falar de futebol. Uma comunidade que bebeu de todos os grandes meios, como seria inevitável fazer, mas que também seguiu, de forma mais ou menos acalorada, as discussões da blogosfera. Uma comunidade que cresceu a ver muitos jogos, das mais variadas origens, e a construir as suas diferentes referências, conjugando, hoje em dia, o seu conhecimento com o de outros. Já não há jogador que nos chegue do México que não beneficie de uma opinião avalizada de alguém que passa as suas madrugadas a ver Liga MX. Uma comunidade que se dispõe a aprender e a ensinar no mesmo peso e moeda. Que não tem medo de demonstrar que podemos sempre evoluir para conhecer mais, para saber mais, depois de cruzarmos a nossa opinião com a de outros. Uma comunidade que produz, a partir da sua iniciativa individual, independente, alternativa, para estender essa capacidade, de volta, aos grandes meios que começam a abrir portas para este discurso.

E é por falar em produção e comunidade, que não deixo de referir o podcast Matraquilhos, que me deu a honra de ser seu convidado para o episódio que marca o primeiro aniversário. Na verdade, se houver grandes dúvidas sobre o significado de produzir em comunidade, é perceber o que tem sido feito ali, na forma e na vontade, bem como elencar as dezenas de convidados que por lá passaram, para perceber como está vivo e de boa saúde o conhecimento sobre o futebol.

 

Esta semana, o futebol não para, graças a uma jornada da Liga portuguesa deslocada do fim-de-semana pela final da Taça da Liga. Na terça-feira, a partir das 19 horas, a partir do Estádio da Luz, é para ouvir na rádio o desenrolar da partida entre Benfica e Boavista. Com o relato de Nuno Matos, os meus comentários e a reportagem do Nuno Perlouro.

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Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Autor no Expresso. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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