No preâmbulo do seu livro “A Vida – Modo de Usar”, Georges Perec elabora uma breve descrição do processo de elaboração de um puzzle. Os pontos de contacto com o futebol são fortes. A forma como escolhemos dar atenção a determinados elementos do jogo tornam-nos em simples aprendizes de decifradores de puzzles. Precisamos de um olhar mais universal para entender o fenómeno.

Onde se foca o olhar do analista

“À partida, a arte do puzzle parece uma arte breve, uma arte débil, que inteiramente se contém num magro ensinamento de Gestalttheorie: o objeto visado – quer se trate de um acto de percepção, de uma aprendizagem, de um sistema fisiológico ou, no caso que nos ocupa, de um puzzle de madeira – não é uma soma de elementos que haveria de começar por isolar e analisar, mas um conjunto, isto é, uma forma, uma estrutura: o elemento não preexiste ao conjunto, não é nem mais imediato nem mais antigo, não são os elementos que determinam o conjunto, mas o conjunto que determina os elementos; o conhecimento do todo e das suas leis, do conjunto e da sua estrutura, não pode ser deduzido do conhecimento separado das partes que o contém. Quer isto dizer que podemos olhar para uma peça de um puzzle durante três dias e julgar saber tudo acerca da sua configuração e da sua cor sem ter avançado coisíssima nenhuma.”

Para onde olhamos quando procuramos analisar o jogo? O resultado não nos diz nada sobre o jogo, mas apenas sobre as consequências do mesmo. A forma como as equipas jogam, tomadas como princípios, são meras intenções perante uma estrutura que se desenvolve sempre em competição – há, do outro lado, uma equipa igual (com o mesmo número de jogadores, com as mesmas intenções de vitórias, com a mesma estratégia reservada para o momento prático) que há que ultrapassar para fazer um golo.

Por isso, olhar apenas para os jogadores nos deixa, rapidamente, sem chão. O jogador e as suas características, é certo, influem nas qualidades do coletivo, mas será sobretudo o coletivo a accionar a sua força centrífuga sobre o individual, separando aquilo que este pode, ou não, fazer em prol do conjunto. Quando as tendências do treino do futebol se accionam contra os princípios cartesianos do isolar por partes (para delas duvidar), percebe-se mal que a mesma tendência queira, depois, isolar elementos do próprio jogo para o analisar.

Porque olhar para um momento do jogo, isolado, retira-nos importantes somas do que precisamos de encontrar. Entre o ataque, a defesa e as respetivas transições existe uma união tão forte que não nos permite, de forma clara, sublinhar qual delas estará a realizar-se positiva ou negativamente sobre o conjunto. Pode uma equipa atacar bem e defender mal? A crença popular dessa possibilidade autodestrói-se na forma como a contaminação de uma pela outra, num futebol cada vez mais transitivo, nos impede que cada parte se isole da outra.

Fragmentação e Universalidade

Ora, tanto mais enganador será olhar, então, para apenas uma jogada. Um excerto mínimo do jogo, com um incerto número de jogadores envolvidos, é um fragmento do fragmento que nos é apresentado no jogo de futebol. Não é uma peça do puzzle (nem jogador, nem intenção coletiva), mas um reflexo de uma breve conjugação dessas peças. Imagine-se que uma obra de arte pode sair dessa tentativa de construção, mas uma obra de arte que utiliza, isolando-os, os meios do jogo, não contribui em nada para a resolução da sua análise universal.

“Daqui se deduzirá algo que é sem dúvida a última verdade do puzzle: apesar das aparências, não se trata de um jogo solitário – cada gesto do decifrador de puzzles foi feito, antes dele, pelo fazedor de puzzles; cada peça em que pega e repega, que examina, que acaricia, cada combinação que tenta uma vez e outra, cada ensaio, cada intuição, cada esperança, cada desânimo, foram decididos, calculados, estudados pelo outro.”

O olhar sobre o jogo pretende-se, assim, completo e universal, quando entende a conjugação de forças das duas equipas, na plenitude das suas dinâmicas, bem como nas problemáticas que cada equipa traz para dentro do campo. E aí, o jogo, para lá do ato tático, revela-se um ato social, um ato ético, um ato cultural. São todas essas dimensões que influenciam, finalmente, a consequência, conclusão final, sobre quem vence ou não. E num jogo onde a sorte pode definir o resultado (a bola que desvia no relvado ou no defesa e trai o guarda-redes para uma vitória por margem mínima), o trabalho de análise da estrutura do jogo prender-se-á nas formas como cada conjunto de peças, cada equipa, se posiciona melhor para o aproveitar. Nada aqui é solidão, individualidade, fragmento. Tudo é a ação resultante do encontro das duas forças, transformando-se em jogo.

Os excertos publicados são retirados do livro de Georges Perec, “A Vida – Modo de Usar”, da Editorial Presença, com tradução de Pedro Tamen.

É semana de competições europeias e eu estarei em alguns dos melhores jogos dos próximos dias. Para quem me quiser acompanhar, esta terça-feira, é dia de Borussia Dortmund – FC Barcelona, enquanto amanhã entram em campo o Paris SG e o Real Madrid. As duas partidas têm transmissão em exclusivo na Eleven Sports, a partir das 20 horas.

Quinta-feira, a Liga Europa passa pela rádio, na emissão mundial da Antena 1. Vou estar nos comentários do Wolverhampton – SC Braga, com relato de Fernando Eurico, também a partir das 20 horas.

Publicado por Luís Cristóvão

Comentador na Antena 1, Eleven Sports e SIC Notícias. Autor no Expresso. Analista de futebol, fala e escreve sobre desporto em vários meios de comunicação social.

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